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Na grande Curitiba

Vale a pena sair da cidade para morar em chácaras? Veja histórias dos curitibanos que fizeram isso

A professora Andréia Carneiro Lobo no seu paraíso
A professora Andréia Carneiro Lobo no seu paraíso (Foto: Franklin de Freitas)

O sonho de morar fora da cidade, mas com garantia de acesso à civilização, é realidade para muitos curitibanos, que encontram na região metropolitana cenário para colocar em prática projetos de vida nesse sentido. Entre os 29 municípios da Grande Curitiba, e incluindo alguns refúgios da própria capital, é possível encontrar chácaras adequadas para morar em condições de isolamento, pelo menos por enquanto. As preocupações comuns entre os que optaram pela alternativa, ao mesmo tempo em que mantêm acesso a um grande centro, giram em torno de segurança, principalmente, em relação ao avanço das cidades que não param de crescer.

“Não queremos que as pessoas saibam como é bom aqui”, diz a design de interiores Bela Pagliosa, que desde 2013 se livrou do barulho, da insegurança e da agitação da cidade. Junto com o marido, que trabalha com direção de vídeos publicitários, ela comprou um terreno em um condomínio de chácaras na Região metropolitana, onde construiu uma casa e se mudou no ano seguinte. Bela conta que entre os fatores que ajudaram na decisão está o custo benefício. “A gente morava na cidade, procurava um imóvel para comprar e decidiu procurar na região metropolitana. A gente chegou nesta chácara. Pensamos ‘por que não morar melhor, pagar menos e mudar?’. Nós dois trabalhamos em home office, o que facilita. Eu sou designer de interiores e paisagista e ele é publicitário e trabalha na direção de filmes”, afirma.

O projeto precisou sair do zero. “A gente comprou um terreno vazio, virgem, sem iluminação, sem água. A gente fez todo o processo elétrico e fizemos um poço artesiano. Inclusive a gente tem fibra óptica da Copel. Até sobrevivemos um tempo com (internet) 3G, mas graças a Deus a Copel veio para a nossa região”, comemora. A solidão do afastamento, porém, não é realidade aos fins de semana. “Fazemos (confraternizações) constantemente. Nossa casa vira um ponto turístico e muitos amigos vêm para passar fim de semana, acampar. Temos uma fluxo muito grande de amigos passando por aqui. (Gostamos de fogueira) muito, adoramos fazer uma fogueira”, afirma.

Durante a semana, ela admite que há um planejamento diferenciado para sair de casa. “Essa questão da solidão é bem interessante porque a gente se torna um pouco ermitão, porque a distância é de 40 quilômetros. Hoje, eu e meu marido, a gente sempre tem que decidir se sai com dois carros ou com um só”, diz. A paisagista conta que seu terreno é amplo o suficiente para que o casal possa manter animais livres, incluindo dois cachorros.

Com relação à segurança, o fato de “ser em um condomínio ajuda”, diz. “Temos felinos e cães, são quatro gatos e dois cachorros. O terreno tem cinco mil metros. Temos vizinhos, porque é um condomínio de chácaras, a gente tem visibilidade de vizinhos, porque é uma área que não é de mata fechada. Temos bastante área para fazer uma pequena horta, temos espaço grande de quintal e pomar”, conta.

O condomínio, segundo ela, tem cerca de 60 moradores, em 80 residências, distribuídas em 300 lotes. “É uma área bem preservada, de mata virgem e para não receber pessoas (novos condôminos) indesejadas a gente deixa um pouco mais na surdina”, pondera. Bela afirma que a violência da cidade ainda não chegou à região, embora já tenha ouvido relatos de ocorrências. “Tem uma portaria, tem um segurança, a gente ainda não teve nenhum problema. O que teve foi ladrão de galinha, nada sério de assalto ou risco à vida. Não tenho medo, mas, claro, a gente tem todos os aparatos em mãos, com telefone, lanterna, contatos. A gente não fica pensando nisso porque, se pensa, atrai”, diz.

O avanço da cidade é um dos incômodos. “A gente se preocupa porque a região está crescendo bastante. Aqui é considerado uma cidade violenta, mas a gente não viu nada sério por perto, mas sabe. O crescimento da cidade preocupa porque pode trazer essas coisas ruins, a gente se preocupa que se a coisa crescer a gente quer morar em um lugar mais afastado ainda”, prevê. Por enquanto, o local escolhido por Bela ainda mantém seu isolamento. “Para o meu condomínio até o centro tem cinco quilômetros, então não tem ponto de ônibus, não tem padaria. Se precisa comprar um pão leva 40 minutos”, calcula. O acesso à internet ajuda. “A gente ficou dois anos sem TV e a agora a gente caiu na Netflix, mas não tem TV aberta e a gente não tem TV paga. Por satélite, tem vizinhos que tem Sky, Net”, conta.

“Não precisa esperar aposentar”

Professora de História em um curso universitário de Direito, Andréia Carneiro Lobo optou criar o filho em uma chácara que herdou da família. Ela recomenda que as pessoas que gostam do estilo de vida que não adiem o projeto. “As pessoas costumam dizer: ‘Quando me aposentar vou viver no campo’. Não precisa esperar até lá. É possível morar no campo e trabalhar na cidade. Não precisa esperar a velhice. Aqui não tem cheiro de esgoto, à noite é silenciosa e escura. Dá para ver estrelas numa noite de inverno e vagalumes nas noites de verão”, aponta.

Andreia afirma que a vida em relativo isolamento faz com que seja possível aproveitar e vida com mais calma. “Aqui podemos abraçar as árvores sem parecermos malucos, ter bichos livres - meus gatos andam pra lá e pra cá - sem temer que eles sejam mortos”. Temos vaquinhas também, que são mansas”, conta. “Onde eu moro são terras que eram do meu avô, estão na família há décadas. Ele deixou terras para os filhos, sete que estão vivos, e seis decidiram morar nessas terras. Esses filhos decidiram morar na zona rural”, diz.

A opção de Andreia tem influência em sua experiência já na adolescência, quando morou com a mãe na chácara. Depois, ela mudou para a cidade, mas conta que não se adaptou. “Minha mãe voltou para essas terras quando eu tinha 16 anos. E eu morei na cidade, comprei uma casa na cidade, mas não me adaptei. É o fato de abrir a janela e ter para onde olhar. Eu gosto de abrir a janela e olhar para o campo, poder ficar em silêncio, olhar para a natureza, ter um portão que não tenha cadeado, não me preocupar com alarme”, observa. Alguns avanços da cidade são até bem recebidos, mesmo por quem valoriza o isolamento. “Moramos em uma comunidade tradicional. De alguns anos para cá se estabeleceram algumas indústrias, mas alterou pouco. A única coisa são os ônibus, que a circulação aumentou. Mas há uma convivência harmônica.Uma delas fez um projeto de arborização, a gente acha melhor, por exemplo, que se tivessem loteado”, conta.

Mesmo não sendo o centro da atenção, a segurança, conta Andreia, não pode ser negligenciada. “A gente se preocupa, lógico. Mas os meus vizinhos são ou familiares ou conhecidos de décadas. A gente cuida um do outro, temos grupos de Whatsapp. Já assaltaram mercadinho, mas eu nunca fui assaltada aqui. O pouco tempo que morei na cidade eu fui assaltada”, compara.

Curiosamente, ambas as entrevistadas pediram espontaneamente que os endereços de suas casas fossem mantidos em sigilo.

“Roubaram a nossa paz”

A bancária Ana Luiza Smolka não teve a mesma sorte que Andreia e Bela. Em 2013, depois passar quase 20 anos preparando sua chácara para o momento em que se mudaria de vez e apenas dois anos após a mudança, uma violação de seu lar fez o sonho de Ana ruir. Ela já havia enfrentado a resistência da família que reclamava da distância e dos gastos da chácara. Insistiu e conseguiu realizar seu sonho. Até que então um evento mudou sua realidade e o rumo que ela havia planejado para sua vida. “Sofri um assalto brutal, à mão armada, e com isso nos sentimos extremamente inseguros, para sempre”, pontua.

Em março de 2013, quatro homens armados a esperavam já dentro de sua casa quando ela chegou em uma sexta-feira, por volta das 18h30. Ela e o filho ficaram amarrados em um quarto por quatro horas enquanto os bandidos “faziam a limpa” na casa. “Eles não roubaram só bens materiais. Levaram a nossa paz. E eu vendi (a casa), muito rapidamente, acredito que muito bem, em um bom negócio. Demorou entre cinco e seis meses”, lembra.

Antes disso, Ana conta que foi feliz, mas ressalta que chácaras dão trabalho. “Comprei porque o preço era acessível na minha situação daquele momento. Eu não queria um endividamento, queria usar o fundo de garantia, então optei por comprar um imóvel que eu pudesse comprar quitado. Também me atraiu a possibilidade de ter água, lá tinha fonte de água, terra e um espaço bom que eu nunca teria na cidade. Fiz uma série de transformações lá, investi bastante, a gente gasta muito”, pondera.

“Tem que ter saúde”

As lembranças, no entanto, fizeram compensar, conta Ana Luiza. “Era uma área mais rural, realmente, apesar de ter asfalto. Eu gastei muito com grama, calçamento, a casa em si, porque construí uma casa lá. Com o tempo se tornou um lugar muito agradável de ficar, um verdadeiro paraíso. A gente criava peixes, tínhamos as árvores que vimos crescer. Foram 21 anos de investimento. Eu era muito feliz lá. O barulho do vento e poder fazer fogo no quintal e na lareira. Tinha uma área para fazer fogo, a gente tinha um barco, dois tanques, patos, marrecos, tentamos alguns outros bichinhos, coelhos, galo, galinha. As criações não deram muito certo porque a gente era muito urbano e acabou desistindo. Mas foram tempos muito felizes. Entre prós e contras, como a distância, eu não pagava aluguel nem condomínio, então me deixava financeiramente estável”, calcula.

Os amigos que moravam na cidade também aproveitaram. “Recebemos muitos amigos nos fins de semana, muitos carros estacionados, muitos churrascos, muita confraternização, todas as pessoas fugiam da cidade para ir para a nossa chácara”, conta.

Ela recomenda que a “aventura” seja ainda enquanto as pessoas têm saúde. “Fiz isso com vitalidade. Ao envelhecer as pessoas pensam ‘vou comprar uma chácara para a aposentadoria’. Eu não acredito que seja bom. A gente precisa de vitalidade e chácaras consomem muita energia. Precisa muita paciência para ver as árvores crescendo, algumas frutas não dão certo, tem muita mão de obra, a gente mesmo põe a mão na massa, então tem que ter saúde e juventude para isso. Acho que fiz na hora certa. Se esperasse a velhice, não faria”, analisa.

Neto e filho de Ana Smolka, em Campina Grande do Sul. Foto: arquivo pessoal.

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