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Maternidade

Assalto seguido de morte

Já passava das sete no centro, e mesmo que não fosse tarde, uma sensação de alarme crescente tomava conta de Carla. Ela já tinha acordado com esse bichinho no pé da barriga e vinha, ao longo do dia, tentando controlar o seu tamanho. Mas o danado tomava corpo, espetava, sacolejava, catucava cada celulazinha da menina. Desde o copo americano que derrubou, café pegando fogo, na padaria, passando pelas provas de português que voaram no meio do pátio, até a bronca que tomou da dona Amanda diante de todos os outros estagiários na sala dos professores: “Carla não vai dar conta de pegar uma turma de fundamental 2 nunca. Ela tem medo do João Guilherme do terceiro. Não pode demonstrar, Carla. Tem que segurar a onda!”. Menino péssimo.
Na zona sul a coisa não estava muito diferente. Joana acordou com os latidos do cachorro do quinto andar. Uma coisa meio desesperada, sabe? Como quem sofre, como quem reclama, como quem avisa. O que ele avisa ela não sabe, mas carrega o aviso como que carrega um ovo cru de casca bem fininha o dia inteiro – às vezes uma semana inteira, e hoje ainda era segunda. Foi academia, metrô, ônibus, elevador, sala de reunião, mesa, sala de reunião, elevador, ônibus, metrô e caminhada. E o ovo na mão. Uma mão que suava, tremia, tirava o cabelo do rosto. Vizinho péssimo.
Pois enquanto descia a avenida a caminho de casa, Joana sentiu medo. Vinha alguém subindo a rua num passo meio estranho apressado demais. A pessoa olhava para o chão, pegava na barriga, e andava, quase correndo, certeza que vai tomar alguma atitude. Devia ser esse o aviso. Seria assaltada na avenida, quase oito da noite, com todo mundo em volta. Ninguém ia fazer nada pra ajudar e ela estava com o telefone novo, nem a primeira prestação tinha caído no cartão e tomara que não fosse violento. Não se pode nem ter uma crise de ansiedade em paz. Cidade péssima,
Carla pensou o mesmo enquanto observava o assaltante que acabaria com seu sonho de ser professora ali mesmo. Certamente levaria o laptop da dona Amanda, faria ela perder o estágio, ficar com o nome sujo no mercado, trabalhar atrás de balcão, jogar fora os anos de faculdade, envergonhar os pais do interior. Cruzaram a fachada do banco, cada uma para um lado e quase se decepcionaram quando passaram uma pela outra. Morreu o assalto, o aviso, a história pra contar, ficou a semana toda pela frente. Vida péssima.
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