Análise a partir de balanço contábil

‘Athletico é o único a desafiar a hierarquia do futebol brasileiro’, diz consultor

Ferreira: “O balanço é histórico”
Ferreira: “O balanço é histórico” (Foto: Divulgacao/PluriConsultoria)

“O Athletico é o único clube a desafiar a hierarquia do futebol brasileiro”. A frase é de Fernando Ferreira, diretor da Pluri Consultoria e especialista em Economia e Negócios do Esporte. Para ele, o Furacão conseguiu invadir o território dos “12 famosos” dentro e fora de campo. As declarações de Fernando Ferreira foram em entrevista para o canal De Olho no Jogo, no Youtube. O especialista começou sua análise a partir do balanço contábil de 2019 do Athletico, divulgado em 2020. O documento registrou o maior superávit da história do clube (R$ 63 milhões) e também a arrecadação recorde de R$ 390 milhões.

“O balanço não é só histórico para o Athletico. É também para quem milita na gestão do futebol. É o único clube do Brasil a desafiar a hierarquia do futebol brasileiro”, disse Fernando Ferreira. “O futebol tem aquela coisa dos 12 famosos, mas muita gente usa a expressão ‘os 12 grandes’. São os 12 protegidos. Na história do futebol brasileiro, você só vê clubes descendo a ladeira. Você não via um clube vindo de um patamar menor”.

Em 1995, antes de Mario Celso Petraglia assumir o Athletico, o clube estava em situação complicada, lembrou o especialista. “O clube estava espremido entre a tradição do Coritiba, o clube então com maior torcida, com o maior estádio, e entre o Paraná, clube emergente, seis vezes campeão estadual, num momento que os estaduais valiam mais do que hoje. E o Athletico estava perdendo importância, estava declinante”, analisou. “E o Athletico foi invadindo o terreno desses clubes como nenhum outro conseguiu. O único que mais ou menos conseguiu isso foi a Chapecoense, mas numa patamar muito menor. Precisaria de mais anos de estabilidade na primeira divisão. A Chape sempre foi tratada como mascote da turma. Faz seu trabalho bem feito, mas o acidente infelizmente desconstruiu o clube”, comentou.

Ferreira afirmou que o crescimento do Athletico desde 1995 não foi por acaso ou por fatos isolados, e sim parte de um planejamento. “O Athletico conseguiu furar. E furou em campo e fora de campo. Fora de campo, conseguiu se tornar o 6º clube em faturamento, superando São Paulo e Corinthians. É um feito impressionante. E dentro de campo, o Athletico é respeitado. Ele entra em campo à altura ou acima desses adversários (dos 12). E, principalmente, isso não foi fruto de uma coisa pontual. É uma trajetória. Você vê isso nitidamente num processo de acumulo de ações ao longo de muitos anos. É o único clube que quebrou a hierarquia do futebol brasileiro”, explicou.

‘O colorido da arquibancada se perdeu’

O diretor da Pluri Consultoria, Fernando Ferreira, criticou apenas um ponto da gestão do Athletico Paranaense: a relação com o torcedor. “O clube tem uma estratégia, que é com ticket médio crescente, independente se a ocupação do estádio é adequada ou não. Com isso, o Athletico perdeu um pouco aquele negócio do Caldeirão, que intimidava os adversários. O poder da torcida do Athletico já foi mais temido. Isso passa por um processo de um certa higienização do estádio. Acho isso negativo. Mas o time dentro de campo está respondendo”, declarou. “O colorido da arquibancada se perdeu um pouco, ficou com cara daqueles estádios europeus. Já foi um ambiente mais festivo e mais temido”.

Para ele, o Athletico deveria ter uma política de preços para atrair mais torcedores e só aumentar os valores quando o local ficar lotado. “Há um meio termo que pode ser encontrado. Sou partidário de estádio cheio como priorização. A partir do momento que você tem demanda e escassez de lugares do no estádio, aí você aumenta o preço do ingresso por uma demanda. O Athletico conseguiria fazer isso porque costuma ter times competitivos”, disse. “Uma das poucas coisas que essa gestão poderia melhorar é essa relação om torcedor, nessa parte dos preços. Ter um ticket médio menor resultaria em estádio mais cheio e arrecadação maior no final. O Athletico deveria trabalhar mais o crescimento e perpetuação da sua torcida, atacando essa quantidade absurda de torcedores de Curitiba que torcem para clubes de fora da cidade”, destacou.

Dívida do Furacão é equacionável, diz Ferreira

Apesar dos resultados positivos, o Athletico ainda tem uma grande dívida para pagar, quase toda relacionada à construção da Arena da Baixada. Para Fernando Ferreira, diretor da Pluri Consultoria, a situação está sob controle. “O Athletico tem 270 milhões de endividamento líquido”, diz. “É um endividamento de longo prazo”, afirma. “O balanço do Athletico é ok se comparado a empresas. Na comparação com outros clubes, é bom. O endividamento é perfeitamente equacionável. É de longo prazo”, explica ele, descartando também qualquer ‘manipulação’ ou ‘ocultação de dados’ no relatório anual do clube. “Não há ressalva no balanço. Ele foi auditado”, destacou.

Ferreira cita ainda o futebol inglês para ilustrar a questão. “Clubes de futebol são endividados no mundo inteiro. Na Premier League, a mais rica do mundo, o Chelsea e o Everton registraram 100 milhões de libras de prejuízo operacional. São R$ 800 milhões de prejuízos”, comentou.