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Atleta e resistência à COVID. Mito ou verdade?

Durante a pandemia, vimos informações circulando em diversos sites de notícias e nas redes sociais dizendo que pessoas com peso ideal, em conjunto com um bom condicionamento físico – em especial, atletas –, têm a imunidade aumentada e que, portanto, tendem a ter maior resistência ao Sars-CoV-2, o que faria com que os sintomas da Covid-19 não se manifestassem ou que a doença fosse semelhante a uma “gripezinha”.

No entanto, nada referente a este vírus pode ser tratado de forma simplista e generalizada. Estudos realizados entre equipes de pesquisadores do Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) e do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into) destacam que o treinamento esportivo intenso em nível profissional pode ocasionar o aumento da ventilação alveolar e a diminuição dos níveis do anticorpo IgA, o que incrementa o risco de infecção por vírus no trato respiratório de atletas.

Tais informações são reforçadas em entrevista no site da Fiocruz e em alguns artigos científicos, como o estudo referente aos problemas respiratórios enfrentados por atletas com a chegada da pandemia, publicados no periódico The Lancet, uma das revistas médicas mais conhecidas e prestigiadas no mundo. Além disso, a própria Organização Mundial da Saúde fez orientações no que se refere à interrupção de atividades esportivas e sobre os cuidados que devem ser tomados nesse meio.

Além disso, há que se considerar as individualidades, sempre avaliando o histórico e características de cada um. Sabe-se, ainda, que problemas psicológicos, como ansiedade e depressão, que têm acometido muitas pessoas durante a pandemia, podem afetar o sistema imunológico, aumentando a suscetibilidade a doenças – e os atletas também têm sofrido com esse problema, pois tiveram sua rotina totalmente alterada: treinamentos, competições, contratos, salários, viagens para visitar suas famílias, medo, perdas etc.

Temos diversos casos que contrariam a ideia de que o histórico de atleta faria com que a Covid parecesse uma “gripezinha”, como a morte de Cody Lister, jogador de beisebol de apenas 21 anos; Chad Dorril, de 19 anos, atleta de basquete e de corrida, que morreu após complicações neurológicas; a nadadora Mariana Franklin Ferreira Silva, de 14 anos, integrante de uma equipe de Presidente Prudente, que faleceu em dezembro de 2020; Roberto Gervásio, fisiculturista de 40 anos falecido em Curitiba também no final do ano passado, entre outras notícias tristes que tivemos ao longo de 2020/2021.

Sobre o pós-Covid, deve-se ter muita cautela quanto à função cardíaca e respiratória no retorno de atividades intensas dos atletas que já tiveram a doença, já que a literatura traz relatos sobre sequelas nos órgãos responsáveis por estas funções, além de um risco maior de lesões. As equipes responsáveis devem monitorar constantemente o estado da saúde desses atletas, considerar o tempo de readaptação de cada um e oferecer suporte psicológico. Quanto aos atletas, devem ficar atentos a alguns sinais e sintomas, como falta de ar, cansaço excessivo, taquicardia, dores de cabeça, musculares ou no peito.

Para aqueles que não são atletas, mas que se mantêm ativos fisicamente, o retorno deve ser feito conforme a gravidade da doença. Se os sintomas foram leves, é preciso recuperar a capacidade respiratória para estar apto à retomada. Se foram médios e graves, a recuperação pode demorar de 3 a 4 meses, a depender de exames (físico e eletrocardiograma), avaliações (em médio e longo prazo) e liberação médica – essa é uma recomendação da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. É claro que a prática de atividades físicas e esportivas, no geral, tem efeito protetivo e são recomendadas, mas é importante saber que isso não elimina os riscos de infecção e não isenta ninguém dos cuidados pós-Covid.

Assim, não há garantias de que o condicionamento físico de atletas tenha influência na resistência, recuperação ou sequelas da Covid-19, pois os estudos nesse âmbito ainda são inconclusivos, mas vêm dando sinais de que esse público não está livre de desfechos mais graves da doença.

 

(*) Katiuscia Mello Figuerôa é Doutora em Ciências da Atividade Física e Desportiva e Professora dos cursos de Licenciatura e de Bacharelado em Educação Física da Área de Linguagens Cultural e Corporal do Centro Universitário Internacional Uninter.