Outro olhar

Big Brother: o retrato de uma sociedade volúvel

Nada mais novelístico do que a vida real. A ficção imita a realidade, que sangra diariamente, de forma escancarada. Do italiano, “novella” significa notícia, narração de acontecimentos imaginários ou reais, que tem como características o número reduzido de personagens, a sequencialidade dos fatos e a variedade de temas.

A novela e a vida são uma eterna repetição de eventos, e uma perigosa ou agradável reprodução de padrões. As histórias se repetem. Vemos os personagens mudarem de cadeira e de papéis, mas não vemos uma infinidade de estereótipos; afinal, somos diferentes, mas somos todos humanos. Não ignoro que o ser humano possa se reinventar em seus tantos ciclos, pivotando entre a sobrevivência e a evolução, mas os arquétipos já foram identificados e revelados ao longo da história da psicanálise, de modo que as “mutações” não são significativas.

A sociedade, porém, com seus conceitos aleatoriamente criados e abruptamente defasados por uma inconstância recorrente, e abalados pela ignorância plantada ou bem nascida, se mostra volúvel como uma frágil pena ao vento, voando ao sabor das brisas e tempestades. Ao dissabor dos sussurros e fofocas.

Segundo o sociólogo Zygmunt Baumen (1925-2017), na obra ‘Modernidade Líquida´, estamos vivendo em tempos “líquidos”, onde nada é feito para durar. Esse é o retrato do mundo globalizado, em que a velocidade e a ferocidade da informação não são medidas antes de sua vertiginosa propagação, e em que tudo – as opiniões, a credibilidade, as crenças, os impérios – podem mudar ou ruir repentinamente, resultando de um processo crítico da sociedade ou apenas do irracional “efeito manada”, obtidos de um pequeno recorte de realidade.

Nesta fantasia do “parecer ser”, como acontece nos episódios das temporadas do Big Brother Brasil, alguns participantes da vida real mostram o que não são, mascaram o que são, e confundem seu público. Descaradamente. Em um dia, com suas redes sociais e pregações de discursos que não praticam, desfilam como exemplares do sucesso, da bonança, da vida feliz. Atraem uma multidão de seguidores. No dia seguinte, uma notícia, uma “novella” bem contada sobre seu passado ou suas preferências pessoais transforma os bons moços e moças em pessoas vulgares e até desprezíveis. Indignas de mostrar sua vulnerabilidade ou pedir escusas, abandonadas no deserto das almas sem seguidores.

E a sociedade assim caminha preguiçosa, ora discriminando, ora endeusando seus “brothers”. Sem apurar fatos, sem observar a linear sequência das atitudes quotidianas, dos acontecimentos, das histórias de vida de cada um. Engole todo o sensacionalismo com farinha e a garganta seca. Se frusta, xinga e se irrita com a falsidade dos exemplares da perfeição ou dos que “fazem gênero”, e se coroa ainda mais volúvel, volátil, e sem senso de uma crítica responsável.

Quando as histórias começam, normalmente é possível identificar os protótipos dos personagens, dar-lhes vida e uma narrativa, de acordo com nossos padrões e valores. Muitas vezes acertamos, outras tantas a novela da vida real nos surpreende. Mas, se olharmos com atenção todas as cenas e a narrativa da história, veremos que a surpresa não passa de mera conformidade com o que nossa “eu” interior não quis interiorizar na largada, mas que está estampado na sequência dos episódios – diga-se de passagem, cotidianos.

Ao despir os personagens de egos e máscaras sociais, vemos pessoas “sólidas”, de carne e osso. Há exemplos de justiça, de educação, de perenidade, pessoas dignas de admiração pelo que fazem de bem, pelo que são. Há exemplares sem voz, com falsos repertórios, incoerentes, que logo mostrarão a que vieram.

E como saber onde reside o ilusório imaginário e o real? Aí está o segredo: as histórias da vida de cada um são contadas com testemunhas contemporâneas, que acompanham ou acompanharam o protagonista pelos sinuosos ou retos caminhos de sua trajetória. As novelas reais e seus heróis não surgem do dia para a noite, com uma legião relâmpago de seguidores sem conexão com os fatos e com o enredo.

As histórias de vencedores, de guerreiros, de pessoas admiráveis, de pessoas resilientes de carne e osso nascem com muitas presenças, diversos ângulos, alguma sorte e muito trabalho. Nasce com um sequenciamento lógico que permite uma mudança de carma do protagonista após uma série evolutiva, diversas temporadas, mas seguramente não se encerra em um circuito fechado e artificial (vide BBB).

A história das pessoas REAIS a serem seguidas continua a se desenrolar mesmo após ser declarado o “ganhador” da temporada ou funcionário do mês, pois o verdadeiro “Vencedor” não desiste nunca de lutar para deixar seu verdadeiro legado e inspirar outras pessoas desta sociedade por vezes tão míope.