Cadê o emprego que estava aqui?

A igualdade de gênero tem passado longe nos impactos secundários da crise socioeconômica causada pela pandemia do COVID-19. As mulheres sofrem com um triplo impacto: o abandono de atividades remuneradas, a redução da renda e a sobrecarga pela responsabilidade sobre os familiares.

Segundo dados do IBGE, 8,5 milhões de mulheres deixaram a força de trabalho no terceiro trimestre de 2020. E não é apenas porque estão desempregadas: é um movimento rumo à inatividade. Isso quer dizer que elas estão abandonando o mercado de trabalho para assumirem funções domésticas não remuneradas – a mulher “do lar”.

A questão principal não é o poder de escolha da mulher em optar entre trabalhar ou ficar em casa, mas sim o fato da mulher que, apesar de sua vulnerabilidade econômica, tem que abandonar seu emprego ou a sua atividade econômica informal para suprir as necessidades de seus dependentes sejam eles filhos, que estão sem aulas presenciais, irmãos ou pais. E isso é um aspecto estrutural e cultural em nosso país.

Enquanto o homem é o provedor econômico da casa, é a mulher que cuida da alimentação, dos cuidados com a saúde, da higiene e da manutenção do lar, somados à sua atividade profissional. Em tempos de pandemia, é a mulher que deve renunciar ao seu ganha pão diário e assumir integralmente a responsabilidade pelos cuidados com a família. O homem fica em casa, usualmente, quando está doente. E esse quadro pode ser agravado se a mulher for mãe solteira. Não há opção. Não há políticas públicas. Não há incentivo. Não há cuidado para quem tanto cuida.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, implementada pela Organização das Nações Unidas, contempla 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas em um plano de ação para promover a sustentabilidade e a erradicação da pobreza. A questão da igualdade de gênero é contemplada no ODS 5 e transversalizada em outros 12 ODS. Em apoio à Agenda 2030, a ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”, com compromissos concretos assumidos por mais de 90 países.

É urgente a necessidade de refletirmos como reintegrar a mulher à força de trabalho e como podemos provocar transformações sociais para uma sociedade em que homens e mulheres além de compartilhar os mesmos direitos, dividem também as mesmas responsabilidades.

*Maria Rassy Manfron é Advogada da Área da Família e Mestranda no Programa Profissional em Governança e Sustentabilidade do ISAE Escola de Negócios