Em tempos de isolamento

Casos de violência infantil caem na pandemia, mas isso pode esconder outra realidade

Na pandemia, crianças ficam longe de “frentes de proteção”
Na pandemia, crianças ficam longe de “frentes de proteção” (Foto: Franklin de Freitas)

Referência no atendimento pediátrico, o Hospital Pequeno Príncipe, localizado em Curitiba, registrou no último ano uma importante redução nos registros de violência infantil. Em 2020, foram atendidos 554 casos de violência sexual, negligência, violência física ou autoagressão envolvendo crianças e adolescentes, uma redução de 20% na comparação com o ano anterior, quando se registrou um recorde de 689 ocorrências.

Acontece que os números, que numa primeira análise podem até parecer uma boa notícia, na verdade escondem uma triste realidade, com aumento na subnotificação de casos, ou seja, nos episódios de violência que permanecem ‘às escuras’. Na prática, isso significa que, provável e possivelmente, não houve uma redução na violência ou no nível de violência em si, mas sim uma maior dificuldade de acesso por parte das vítimas às redes de proteção.

De acordo com a psicóloga do Pequeno Príncipe, Daniela Carla Prestes, isso aconteceu por uma série de fatores. Um deles é que, por conta da necessidade de isolamento social em face da pandemia, os jovens passaram menos tempo com outras pessoas e/ou em outros ambientes que costumam servir como frente de proteção, como a casa dos avós, a escola, a creche ou mesmo a igreja. “Essas crianças, tendo menos acesso a outras instituições, também não tiveram outras interrelações que pudessem acolher, proteger e notificar”, comenta a especialista.

Além disso, outro fator importante é que essa criança ou adolescente, ao passar mais tempo em casa, também ficou maior período sob o jugo do agressor, bem como o outro adulto que poderia a proteger (em geral a mãe).

“No nosso caso, a maior parte das vezes a mãe é quem trouxe para atendimento. Muitas vezes, ela estava vivendo com o suposto agressor. Parece algo desagradável de dizer, mas temos visto que em 70, 80% dos casos, quem comete as agressões é o pai, padrasto, avô ou um tio mais velho. Por isso se imagina que estava mais difícil para que o outro adulto conseguisse proteger essa criança, porque também estava sob o jugo desse suposto agressor”, complementa a psicóloga.

Marcas que ficam para a vida toda

Entre todos os tipos de violência, a mais comum de ser registrada no Hospital Pequeno Príncipe foi a sexual (362 casos), seguido pelos casos de negligência (114), violência física (57) e autoagressão (19, com 10 tentativas de suicídio). Em 334 casos a vítima tinha menos de 5 anos, sendo que em 67 não havia sequer completado um ano de idade.

“Temos casos de bebês, que não têm condições nem de contar o que aconteceu, de gritar. E aí pode vir sequelas físicas e também outras sequelas. Por exemplo, nas situações de abuso sexual, as crianças podem, ao longo do desenvolvimento, desencadear questões de dificuldade na convivência com a sexualidade. Do lar, onde deveria vir proteção, zelo, afeto, vem violência física, sexo. Essas crianças entendem que não são merecedoras de amor e de carinho, aí podem ficar isoladas deprimidas. Além disso, essas crianças e adolescentes também podem projetar e repetir o comportamento em outras relações que estabeleça”, explica ainda a Dra. Daniela Prestes.

Insônia e terror noturno são sinais de que algo de errado pode estar acontecendo

Diante de um cenário como o atual, é ainda mais importantes que os pais e pessoas próximas de crianças e adolescentes fiquem atentos aos sinais de que uma violência possa estar acontecendo. São situações como terror noturno, pesadelo, insônia ou até mesmo o contrário, do jovem de repente começar a dormir demais, em excesso. Também é possível notar alterações na alimentação, a adoção de comportamentos mais agressivos e irritadiços.

Ademais, é fundamental também ressaltar a importância de que as pessoas denunciem diante de um caso suspeito. “Muitas vezes as pessoas se incomodam, mas a denúncia não é uma acusação, é uma informação para um órgão competente numa situação de violência contra jovem que pode estar acontecendo e que vai ser averiguada. Uma denúncia pode salvar uma vida e salvaguardar os direitos de uma criança e adolescente, melhorando a qualidade de vida dela”, destaca a psicóloga Daniela Prestes, do Hospital Pequeno Príncipe. “A denúncia pode ser anônima, mas é preciso que seja algo sério. Pode liga no 181, no Paraná; no 156, de Curitiba; e no 100, nacional. Esse é o caminho da ajuda.”

Ocorrências independem de classe social, cor ou credo

Ainda segundo a psicóloga Daniela Prestes, os casos de violência contra crianças e adolescentes independe de ‘cor, credo, classe social ou de condição socioeconômica e cultural’. Por outro lado, o agressor é, em geral, pessoas do sexo masculino que tem entre 18 e 30 anos de idade, com baixa escolaridade e não raro com situações de uso de álcool e/ou outras drogas e com um passado criminal. Além disso, também é comum que, ao se analisar o passado familiar, se verifique a existência de outros episódios de violência na família.

“Até por isso nos preocupamos tanto em ter esse serviço multidisciplinar, de dizer ‘procure ajuda o quanto antes’, porque quanto mais cedo atender essa criança, esse adolescente, mais condições temos de resgatar boas condições de vida para ele, tentar que essa criança, esse adolescente, dê um significado, um sentido ao que viveu, e possa continuar levando sua vida com dignidade e saúde no convívio social. Se isso não acontece, vai ter efeitos deletérios e vai ter efeito no futuro na vida deles, na vida pessoal, trabalho. Quanto mais cedo é o atendimento, temos mais chances, mais condições, de resgatar a qualidade de vida”, destaca Daniela Prestes.

RÁPIDA:

Dia Nacional de Combate

No dia 18 de maio é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, data determinada oficialmente pela Lei 9.970/2000, em memória à menina Araceli Crespo, de 8 anos de idade, que foi sequestrada, violentada e assassinada em 18 de maio de 1973.