Castelo de Cartas Populista

A vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos acendeu um sinal de alerta ao redor do mundo. Teria a onda populista que tinha Trump como maior ícone entrado em decadência? Assim como sua ascensão em 2016 sinalizou um caminho para muitos líderes seguirem seu caminho, tudo indica que sua queda em 2020 aponta para o declínio de sua forma governar no mundo.

Trump chegou ao poder na onda de renovação da política, um movimento que passou do ponto a escolher outsiders para cargos decisórios em diversos países. Outsiders são pessoas de fora da política ou longe dos círculos de poder tradicionais que chegam a postos de comando. Esta onda que vivemos teve origem na rejeição aos políticos, levando ao poder quem defendia uma mudança profunda no sistema.

Esta chamada nova política veio embalada por nomes inexperientes e até de certa forma ineptos para o exercício do poder, uma vez que experiência militar, por mais breve que tenha sido, ou mesmo empresarial, não qualificam alguém para um cargo de liderança política. A dificuldade em lidar com os instrumentos de poder democráticos, aos poucos foi acentuando os traços populistas destes eleitos.

Contudo, nem tudo que reluz é ouro, tampouco o fascínio pela nova política se sustenta por muito tempo. Sem resultados reais ou mesmo diante da falta de habilidade em lidar com instrumentos essenciais da democracia, como a moderação, diálogo e consenso, a máscara caiu, expondo a falta de capacidade e habilidade política em momentos cruciais como a gestão da pandemia.

Trump caiu diante desta realidade. Quando seu país mais precisava de sua liderança, preferiu esconder-se usando o negacionismo enquanto o vírus ceifava as vidas daqueles que dependiam de sua gestão para sobreviver. As consequências de uma gerência desastrosa da pandemia foi a triste realidade que fez a sociedade acordar do sonho populista que começava a se consolidar na sociedade americana.

Este sinal de alerta agora se espalha pelo mundo diante de uma tendência política que pode se alastrar por diversos países, tornando líderes populistas e bufões, como Donald Trump, presa fácil diante de eleitores mais lúcidos. Estes começam a entender que outsiders podem não ser a solução de seus problemas e que a política tradicional ainda é capaz de oferecer segurança e bom senso, essenciais na gestão de crises.

O populismo ainda é um dos maiores inimigos da democracia. O fascínio exercido por sua política inebria durante um certo tempo, mas é incapaz de produzir resultados necessários no longo prazo. Trump foi a primeira vítima do levante eleitoral contra esta guinada, que agora tende a se consolidar em outros países.

Política é feita com habilidade, diálogo e entendimento. Arrogância, agressividade e impetuosidade não rimam com boa gestão e governança. O Brasil, que enfrentará os mais sérios reflexos econômicos da pandemia em 2021, pode ser a próxima peça deste castelo de cartas que começou a desmoronar.

Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007)