Hábitos alimentares

Curitibano está comendo cada vez menos feijão e arroz, diz pesquisa

Os moradores de Curitiba estão comendo cada vez menos feijão, arroz, frutas e hortaliças, alimentos ricos em nutrientes e essenciais para a saúde. No ano passado, 54,5% da população adulta da capital não consumiu hortifrútis conforme a recomendação de cinco ou mais dias na semana, de acordo com pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) do Ministério da Saúde. Além disso, 52,1% dos curitibanos adultos têm consumo de feijão inferior a cinco dias na semana, de acordo com o mesmo levantamento de 2017.

A pesquisa, que ouviu 2,9 mil pessoas em Curitiba, aponta também que entre 2014 e 2017, houve uma redução de 13,5 pontos porcentuais no consumo de feijão pelos curitibanos, mostrando tendência de queda na ingestão do alimento. Além disso, 20,9% dos curitibanos adultos consomem refrigerantes quase que diariamente, caracterizando a cidade como a segunda capital onde há maior consumo deste produto.

Para a médica, Tânia Pires, superintendente de Gestão da Secretaria Municipal da Saúde, o estresse e as mudanças de hábito são fatores que levaram as pessoas a deixar de investir na própria alimentação e consumir mais industrializados. O excesso de consumo de fast-food (comida rápida) e comidas industrializadas têm causado o agravamento de doenças cardiovasculares, uma das maiores causas de mortalidade do mundo.

“As crianças estão ficando obesas e isso tudo já vai mostrar que lá na frente nós vamos ter uma péssima qualidade de vida caso as pessoas não mudem seus hábitos”, alerta Tânia. A alimentação saudável acaba substituida por fast-foods, como sanduíches, salgados ou mesmo pratos menos compostos.

O comportamento alimentar dos moradores de Curitiba tembám é calculado com base nos dados de equipamentos públicos. Nas unidades de saúde, por exemplo, 68,82% dos usuários entre 20 a 59 anos estão com sobrepeso e obesidade. Entre as crianças, 35,54% das que estudam na rede municipal de ensino têm sobrepeso e obesidade. A informação é do Sistema de Cadastro de Gestores de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde (Sisvan Escolar). Nos Armazéns da Família da capital, segundo a prefeitura, foi constatada queda de venda de arroz e feijão, respectivamente, de 35,69% e 35,62%, entre 2013 e 2017.

No total, segundo a Vigitel, 52,8% dos moradores de Curitiba estão acima do peso. A capital paranaense é a segunda do país com maior número (20,9%) de pessoas que consomem refrigerantes, atrás de Porto Alegra (23,7), em cinco dias ou mais dias na semana. As maiores frequências dessa condição foram encontradas, entre homens, em Porto Alegre (28,5%), Curitiba (25,3%) e São Paulo (23,6%) e, entre mulheres, em Porto Alegre (19,8%), Curitiba (17,1%) e São Paulo (16,6%).

A professora de Educação Física Jéssica Letícia Afonso, para somar R$ 4,8 mil de salário mensal, precisa assumir aulas em três escolas diferentes. “Correria. Eu teria que sair meio-dia e dez de uma escola e entrar meio dia na outra. Então, eu acabo saindo, acabo comendo muito rápido para não chegar atrasada. É assim de manhã, tarde e noite. Levando muito cedo, não consigo preparar um café da manhã saudável. Também acontece à noite. Eu saio de uma escola às seis e entro na outra às sete. Eu compro aquilo que está pronto. Tirei a salada porque nem sempre dá tempo de preparar”, conta.

Jéssica trabalha no Estado como professora temporária, contratada por Processo Seletivo Simplificado. “Manha e noite no Estado e à tarde em uma escola particular. Ainda pior, porque se fosse só no Estado talvez não precisasse deslocar”, diz. O motivo da correria é o “valor do dinheiro”. Segundo a professora, antes era possível se manter com menos horas trabalhadas. “Para ter um salário melhor eu tenho que ter mais aulas. Por não ser bem remunerada, acabo optando. Se eu perdesse uma escola, eu perderia muitas aulas. Quando a gente fala em crise, realmente, antes eu me mantinha com uma escola só”, relata.

Jéssica afirma que se pudesse, até em razão de sua vocação como educadora física, certamente teria uma alimentação melhor. “Todo mundo quer comer orgânico, mas vai comprar tudo orgânico. É muito caro”, lamenta.

O vale refeição, no caso de Jéssica, mudaria pouca coisa em sua rotina. “Na minha realidade hoje, o vale não mudaria (os hábitos alimentares). O principal é o tempo. Se o valor da hora-aula fosse melhor eu não precisaria pegar tantas aulas. Se pudesse fazer hora-atividade em um lugar só, porque a gente faz em casa do mesmo jeito, seria melhor do que ter tantas aulas”, explica.


“Alimentação saudável é cara”

Apesar da redução nos índices de alimentação saudável, Curitiba ainda está entre as cidades onde se consome mais frutas e hortaliças, sendo a segunda capital do País, com 45,5% dos entrevistados dizendo que tem o hábito em cinco ou mais dias da semana, atrás somente do Distrito Federal, com 47,2% dos entrevistados.

A frequência de adultos que consomem regularmente frutas e hortaliças variou entre 23,7% em Belém e 47,2% no Distrito Federal. As maiores frequências foram encontradas, entre homens, no Distrito Federal (39,5%), Curitiba (36,8%) e Florianópolis (36,1%) e, entre mulheres, no Distrito Federal (54,0%), Belo Horizonte (53,4%) e Curitiba (53,0%).

Entre os que não abrem mão de alimentação saudável, o músico curitibano Yago Nodari de Souza lamenta o alto custo para manter uma refeição completa. “O que a gente come influencia o que a gente pensa”, acredita. Vegetariano, o músico calcula que seu almoço regular é composto por um prato com 600 gramas, com tomate, cenoura, rúcula, agrião, alface, arroz, feijão e dois acompanhamentos, seis vezes por semana. “Me permito comer alguma porcaria uma vez por semana”, pondera.

Supervisor de telemarketing, Yago recebe um vale refeição de R$ 300,00 de crédito em um cartão. “Obviamente não paga. Minha alimentação diária custa, em média, R$ 35,00 por dia (sem levar em conta o meu filho). Trinta dias vezes trinta e cinco reais dá R$ 1050,00 só para comer. Uma alimentação saudável é cara. Fica inviável pra quem não tem recurso”, conta ele que já aboliu o refrigerante de sua rotina alimentar.

Além do recurso, também é necessário que as pessoas tomem decisões, aponta Yago. “A maioria das pessoas usaria o aumento no vale refeição para comer mais vezes no MCDonald’s”, opina.

Mas há um consenso de que a “correria” do dia a dia tem o maior peso na mudança de hábito alimentar.