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Dentista vê negada ação de reconhecimento como filho adotivo de Chico Xavier

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Na casa em que Chico Xavier (1910-2002) morou boa parte da sua vida, em Uberaba (MG), quase tudo está como o médium deixou em vida. Mas, em meio ao acervo repleto de itens que o acompanharam, chama a atenção trecho de um aviso colocado no local: “O museu [...] é particular de propriedade do filho de Chico Xavier, Eurípedes Humberto Higino dos Reis”.

Não é o que a Justiça entendeu.

O dentista Reis, que acompanhou o médium nas últimas décadas de sua vida, teve negado em primeira instância pedido de reconhecimento como filho adotivo de Chico. Cabe recurso.

Ele, que tem 69 anos, alegou que conviveu com seu pai biológico, José da Cruz dos Reis, só até os 5 anos de idade, quando ele morreu, e que, desde os 7, passou a conviver semanalmente com Chico.

O médium é um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da doutrina espírita no país e, além de ações de caridade, ganhou fama ao publicar mais de 400 obras e psicografar milhares de cartas. Sua história colocou Uberaba no mapa espírita do país e virou filme.

Reis afirmou em seu pedido, que corre em segredo de Justiça, que, quando tinha 15 anos, o médium pediu à sua mãe que passasse a morar com ele e que conviveu em relação familiar até 2002, quando o líder espírita morreu.

Argumentou que não tem interesse patrimonial –os bens de Chico foram doados ou transferidos via testamento– e que, em relação aos bens imateriais, recebeu a incumbência de preservá-los com a casa de memórias que administra.

Por fim, disse ser o representante de uma livraria à qual o médium deu uso exclusivo de produtos e marca e que tem dado destinação ao dinheiro conforme solicitação de Chico.

A intenção gerou queixas de familiares e amigos do médium, que alegam não ter existido a relação pedida por Reis e conseguiram derrubar a ação na cidade mineira.

“Chico nunca se referiu a ele como filho, para mim ou para pessoas de muita ligação com ele, como lideranças espíritas. Nada foi falado nesse sentido”, disse o jornalista Saulo Gomes, 90, amigo do médium e autor de três livros sobre a vida do religioso.

Segundo o advogado Eduardo Silveira Martins, que atuou no caso como defensor de um sobrinho-neto de Chico Xavier, não havia relação de paternidade entre o médium e Reis. Era, em sua avaliação, uma relação de amizade.

Em suas alegações no processo, obtidas pela reportagem, o advogado sustenta que Chico jamais teve a intenção de adotar o autor e que isso se prova por meio de uma carta escrita por ele a um jornalista da extinta Revista Manchete.

Em um trecho da carta, citada na decisão judicial, o médium diz: “[Reis] não é meu filho adotivo e sim um amigo que me presta assistência em regime de absoluta gratuidade e humanitarismo”.

“O falecido teve várias oportunidades ao longo da vida para registrar sua inequívoca intenção de reconhecer o autor como filho, seja nos testamentos, seja nas escrituras públicas de doação ou nas declarações firmadas. Contudo, em nenhum delas há qualquer menção nesse sentido”, diz trecho da decisão da juíza Andreísa Alvarenga Martinoli Alves.

O dentista argumentou ainda que era chamado de “filho do coração”, mas para amigos do médium a frase não é prova de adoção, pois o mesmo tratamento teria sido dispensado por Chico a outras pessoas.

“Ele não ter sido reconhecido como filho foi um acerto, fez Justiça com a história. A carta de Chico citada na decisão mostra isso. Era um amigo”, disse Gomes.

A casa de memórias abriga as perucas que o vaidoso Chico usava, pares de sapatos, camisas, pijamas, colônias, boinas, livros e mensagens atribuídas aos espíritos André Luiz e Emmanuel, orientadores do médium.

RECURSO

Após a resposta inicial negativa da Justiça, em março, a defesa de Reis recorreu ao TJ (Tribunal de Justiça) de Minas Gerais.

A reportagem procurou Reis por três vezes na casa de memórias e lembranças, mas ele não quis conceder entrevista. A reportagem também procurou a sua defesa no processo, mas não obteve resposta.

Nas alegações à Justiça, o dentista ainda afirmou que pessoas físicas e jurídicas usam indevidamente o nome do médium para obter lucro, o que contraria os ensinamentos de Chico. Por isso, o interesse de agir, para defender o nome e a imagem do médium.

O museu, segundo o aviso de que pertence a Reis, não recebe ajuda da prefeitura, do estado ou da união e é sustentado com as vendas de sua livraria.

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