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Cotidiano

Destino do corpo de Mãe Stella de Oxóssi é alvo de disputa judicial na Bahia

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - O destino do corpo de Mãe Stella de Oxóssi, uma das líderes religiosas do candomblé mais influentes da Bahia que morreu nesta quinta-feira (27), é alvo de uma disputa judicial que opõe o terreiro Ilê Axé Opô Afonjá e a companheira da líder religiosa, a psicóloga Graziela Domini.

A Sociedade Cruz Santa, entidade civil que mantém e administra o Ilê Axé Opô Afonjá, ingressou duas petições no Tribunal de Justiça da Bahia na madrugada desta sexta-feira (28) solicitando o translado do corpo da ialorixá para Salvador.

Mãe Stella, que tinha 93 anos, morava há cerca de um ano em Nazaré das Farinhas, cidade do recôncavo baiano, junto com a sua companheira Graziela Domini. Ela deixou o terreiro em novembro de 2017 após uma disputa familiar que chegou à Justiça da Bahia.

O corpo de Mãe Stella está sendo velado na Câmara de Vereadores de Nazaré e seria enterrado no cemitério local. Em entrevista à imprensa baiana, Graziela Domini afirmou que a sacerdotisa havia manifestado o desejo de ser enterrada na cidade. A reportagem tentou contato com Graziela, que estava com o celular desligado.

Os filhos e filhas de santo do Ilê Axé Opô Afonjá, contudo, alegam que a ialorixá teria que ser enterrada seguindo as tradições do candomblé. No início da tarde desta sexta, a juíza Caroline Rosa de Almeida Velame Vieira, da comarca de Nazaré, determinou o translado do corpo para Salvador.

Em sua decisão, ela alegou que a realização do velório e sepultamento da ialorixá fora do terreiro seria "uma afronta a toda a uma tradição religiosa africana e à sua comunidade". Na tradição da religião, o sepultamento de uma ialorixá deve ser precedido do axexê, ritual fúnebre do candomblé que deve acontecer na presença do corpo da líder religiosa e dentro do espaço no qual ela foi sacralizada, no caso, o terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

O sepultamento da ialorixá em Salvador também foi defendido pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), seccional Bahia, por meio de uma nota emitida pela comissão especial de combate à intolerância religiosa. "O conjunto de elementos próprios ao cerimonial fúnebre nos termos da profissão de fé da liderança religiosa deve ser rigorosamente respeitado, em consideração à memória e o empenho sobre-humano da religiosa em testemunhar a religião de matriz africana de forma sensível e translúcida", informa a nota.

Mãe Stella de Oxóssi foi iniciada no candomblé há 80 anos e era ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá há 42 anos.

Enfermeira de formação, também era escritora e tornou-se membro da Academia de Letras da Bahia em 2013. Tem seis livros publicados e tornou-se uma referência nas lutas contra a intolerância religiosa e contra o racismo.

Fundado em 1910 pela ialorixá Mãe Aninha, o Ilê Axé Opô Afonjá é um dos terreiros de candomblés mais tradicionais da Bahia. Foi frequentado por baianos ilustres como Jorge Amado e Dorival Caymmi, além do artista plástico argentino Carybé e do fotógrafo francês Pierre Verger, radicados na Bahia. Mãe Stella é a quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

Com a idade avançada, estava com a saúde debilitada há, pelo menos, dois anos. Sofreu um acidente vascular cerebral, perdeu parte da visão e se locomovia com a ajuda de uma cadeira de rodas. Desde 2016, não participava de cultos e festividades do terreiro, mas recebia visita de artistas como Gilberto Gil, que tinha relação próxima com a ialorixá.

Com a morte de Mãe Stella, será aberta a sucessão para escolher a nova sacerdotisa do terreiro. No Ilê Axé Opô Afonjá, a sucessão não segue a linha familiar: são os orixás, por meio do jogo de búzios, quem escolhem a nova ialorixá.

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