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Ei! Você mesmo…

Cá entre nós: você tem se sentido à vontade na sua própria pele? Vai pensando aí enquanto explico. A pergunta vem de meu espanto ao participar de uma conversa ontem à tarde – aliás uma conversa que costumo puxar com certa frequência. Em períodos de megasena acumulada, me pego repetindo, aqui e ali, o inevitável: “O que você faria se ganhasse?”.
Pois bem, éramos um grupo pequeno, e começamos como de costume. Viajaríamos todos, sem precisar fazer contas, iríamos, cada um, a um lugar mais surpreendente, comeríamos bem, levaríamos família e amigos conosco, seria assim, seria assado, estaríamos enfim livres e felizes até cansar... Reticências. Pausa. Alguns suspiros. E finalmente, a melhor parte da conversa. E quando cansar? E quando se volta para casa? Volta-se a trabalhar? Antes disso, segue-se na mesma casa? No mesmo bairro? Está aí o ponto que divide o grupo.
Veja bem, antes de continuar, que fique claro. Estou certa de que há de fato uma diferença de acesso – ou falta dele – que o dinheiro – ou a falta dele – permitem para cada um de nós. Seria ridículo questionar o lugar em que se mora, o trabalho que se faz, as condições em que se vive a partir da suposição de que tudo está ao alcance de todos. Não mesmo. Isto posto, lhes conto sobre o cenário de nosso grupo dividido.
Parte dele cansou da brincadeira assim que a viagem terminou e seguiu para uma novo assunto. Restaram três de nós. Um disse que seguiria na casa que morava, gosta dali, gosta dos vizinhos, da feira que frequenta, do trabalho, da maneira que escolheu viver. Diferente mesmo, seriam só as férias.
O outro, pensou, pensou e chegou à conclusão de que não queria ganhar o prêmio. “Que sentido teria trabalhar se eu não precisaria mais do dinheiro?”, lamentou. Argumentamos que ele poderia trabalhar com qualquer outra coisa, respondeu que não tem desejo de trabalhar com nada, nem mesmo com o que faz agora. “Tanto faz”. “E se você estudasse?”, lançamos. “Mas para que estudar, se não para se preparar para um trabalho?”, devolveu. Insistimos que ele poderia estudar qualquer coisa, arte, filosofia, música, história, economia, jardinagem qualquer coisa. Não tinha também aspiração de estudar nada. Então teria tempo para ler, ir ao cinema. “Deus me livre, detesto.” “E se você escolhesse uma causa, um projeto, um grupo de pessoas para ajudar?”. Nada lhe vinha à cabeça. Não sabia sequer se gostaria de morar em São Paulo, no Brasil, só nasceu aqui e pronto. Terminou por admitir não saber inclusive, o que tinha o levado a fazer as escolhas que vivia hoje, profissão, moradia, companheiro... amigos. Até mesmo a nossa companhia parecia agora aleatória.
Falta desejo, não falta? Como estar à vontade na própria pele se não se sabe nem que vontade essa pele tem? Minha gente! Colocar uma quantidade enorme de dinheiro na fantasia de uma vida nova, é na realidade eliminá-lo da conversa. É pensar somente a partir do desejo. Trabalhar, estudar, ler, conhecer gente, criar vínculos, tudo isso não pode perder o sentido quando se tira o dinheiro da equação. Preocupante, vocês não acham?
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