Terceira idade protegida

Em 10 anos, mercado de cuidador de idosos cresce 593% no Paraná

"Equipe de cuidadores da Anjos da Guarda: em alta"
"Equipe de cuidadores da Anjos da Guarda: em alta" (Foto: Henry Milleo)

Mesmo em meio a uma das mais graves crises econômicas que assolou o país nas últimas décadas, houve um setor que não parou de crescer em todo o país, especialmente no Paraná. É o de cuidadores de idosos, que em 10 anos cresceu 593% no número de postos de trabalho formais. Em 2007 eram 240 profissionais atuando na área, número que chegou a 1.664 em 2017. Hoje, o estado é o 4º com mais cuidadores no país, atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. 

De acordo com a professora Denise de Almeida, do curso de Serviço Social do Centro Universitário Internacional Uninter, a expansão do setor é o reflexo de uma questão social que o país atravessa, com as famílias diminuindo em número de integrantes, as mulheres indo para o mercado de trabalho e o aumento da expectativa de vida do brasileiro, que de 1940 a 2016 aumentou em mais de 30 anos, estando atualmente em 75,8 anos, segundo o IBGE.

“Essa longevidade está exigindo que as pessoas de mais idade, dependendo da qualidade de vida no envelhecimento, tenham maiores cuidados, e as famílias não estão tendo condições de oferecer esse cuidado”, aponta a professora, comentando que em breve a Uninter irá lançar um curso de gerontologia social para preparar e qualificar cuidadores de idosos.

Em Curitiba, uma das referências na área é a Clínica Anjos da Guarda. Fundada em 2015 a partir da demanda de uma das sócias – que precisou contratar um cuidador e não teve uma experiência positiva -, a empresa conta atualmente com quase 200 clientes e deve fechar o ano de 2018 com um crescimento acima de 40% na comparação com 2017. 

“Então, mesmo com a crise, tivemos um crescimento expressivo. E para 2019, com previões mais positivas para a economia, estimamos um crescimento de uns 50%. E isso sendo conservador, mantendo os pés no chão”, aponta Evandro Baccin, gerente da Anjos da Guarda. 

“É quase como uma vocação”, diz gerente de clínica em Curitiba
Como atualmente não há regulamentação para a profissão, qualquer pessoa pode atuar como cuidador de idoso. Alguns requisitos, contudo, são fundamentais para os interessados em atuar na área, segundo Evandro Baccin, gerente da Clínica Anjos da Guarda: ter empatia, paciência, perseverança e amor ao próximo.  “Através disso consegue êxito. Não busque ser cuidador para tampar um buraco de orçamento. Tem de gostar, senão não aguenta. É quase como uma vocação”, afirma Baccin.

Há dois anos, Samuel Ribeiro Santana trabalha como cuidador, sendo que há um ano e três meses está na Anjos da Guarda. “Tive experiência no Rio de Janeiro, cuidando do avô da minha esposa, e depois, de frequentar hospitais, acabei descobrindo que era isso que eu queria”, conta ele, que passou por mais de 10 profissões antes de se tornar cuidador. “Agora comecei a fazer o curso técnico em enfermagem. Minha esposa, meus amigos, sempre falaram que era minha cara (ser cuidador). Eu gosto demais, é muito gratificante”, conta ele, que já ajudou um paciente, acamado há mais de 6 anos, a voltar a andar.

Em 18 anos, Estado terá mais velhos do que jovens, mostram dados do IBGE
De acordo com a Projeção da População, divulgada anualmente pelo IBGE, até 2036 a população de idosos deve superar a de jovens no Paraná. Hoje, 9,92% dos paranaenses (1,15 milhão de pessoas) possuem mais de 65 anos, enquanto o contigente de crianças e adolescentes (até 14 anos) respondem por 20,34% da população (2,31 milhões).

Nos próximos 18 anos, contudo, a população acima dos 65 anos irá crescer, em média, 0,91% ao ano, enquanto a população de jovens tende a cair 0,06% anualmente. Com isso, teremos em 2036 uma inversão nas pontas da pirâmide etária do Paraná, com os idosos tornando-se maioria em relação aos mais jovens: serão 2,23 milhões de “vovôs” (17,9% do total da população) contra 2,16 milhões de jovens (17,4%).

Depois disso, enquando o contingente de idosos continuará crescendo 0,43% ao ano, em média, o de jovens seguirá em queda, numa taxa de 0,14% anual. Até 2060 (último ano com projeção), o Paraná já terá se consolidado como o quarto estado com maior percentual de idosos em relação à população total (hoje é o quinto), com 3,34 milhões de idosos (27,03% da população, ou quase um em cada quatro paranaenses).

Para além da formalidade
O crescimento do mercado formal de cuidadores de idosos foi de quase 600% em 10 anos. Mas se considerado o mercado informal, essa variação pode ser ainda mais significativa. É que como o cuidador de idoso ainda não é uma profissião regulamentada, é comum acontecer de empregados domésticos começarem a desempenhar a função ou mesmo de familiares que, com o apoio econômico da família, se dedicam exclusivamente ao idoso, em muitos casos sem ter a formação mais adequada para atuar na área.