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TRADIÇÃO

Em Curitiba, alfaiates resistem ao tempo e mantêm ofício vivo

Molda, corta, desenha, confecciona e costura. O que para a maioria das pessoas seria tão somente um pedaço de tecido, eles vislumbram como uma obra a ser construída. Eis a arte de fazer roupas como ternos e coletes, ofício há séculos exercido pelos alfaiates, uma profissão em extinção no Brasil, mas que em Curitiba ainda consegue resistir ao tempo.

O prédio da Galeria Tijucas, um dos pontos mais movimentados da Capital, é um dos lugares que ainda concentram esses profissionais. Síndico do Tijucas, Ferdinando Nardelli, de 83 anos, conta que ali trabalham um total de 12 alfaiates, sendo ele próprio um deles. O número, porém, já chegou a ser maior, com 18 alfaiates produzindo ali roupas sob medida para a população curitibana e até mesmo para gente de outros estados.

“A demanda por serviço caiu um pouco, mas eu ainda tenho serviço demais. Faço bom preço, tenho clientes fiéis. Mas a maioria dos meus colegas estão reclamando. 60, 70% reclamam que não tem serviço”, comenta o alfaiate, que há 68 anos exerce a profissão - começou a aprender o ofício com apenas 15 anos, embora tenha começado a trabalhar com apenas 12, cortando lenha no sítio da família para ajudar a sustentar os 15 irmãos.

Até quando seguirá acompanhado no dia a dia de sua máquina de costura Pfaff, presente de seu primeiro empregador em Curitiba, Marcondes Zanardini, Nardelli ainda não sabe. Há algum tempo tentou parar. Ficou quatro dias em casa, bateu a saudade e voltou para a alfaiataria. “Uma pena que tenho 83 anos, não sei até quando vou poder trabalhar. Sou apaixonado pela profissão..Se eu tivesse um filho homem...”, comenta o alfaiate, que teve três filhas mulheres e acabou sem herdeiro para o ofício.

Outros profissionais tiveram de se adaptar ao longo dos últimos anos. Esse é o caso de Manoel Severino, 76 anos, dos quais 59 trabalhando como alfaiate. Com a redução no número de pessoas que querem roupa sob medida, ele apostou na realização de um outro tipo de serviço, como a reforma de peças trazidas por seus clientes.

“Nos últimos cinco anos a procura por esse tipo de serviço tem crescido muito e para mim acabou ficando melhor, já que é um trabalho mais rápido. Então o pessoal compra a roupa e só traz para gente ajustar”, conta Severino, que desde criança sonhava em confeccionar roupas. “Quando eu era jovem, morava em Faxinal. Todos os dias quando ia para a escola, eu passava em frente a uma alfaiataria e achava bonito todas aquelas pessoas bem vestidas. Um dia a professora perguntou o que eu queria ser quando crescesse. Disse que queria ser alfaiate e aí não larguei mais essa ideia.”

‘É uma profissão muito boa, mas acho que vai acabar’

Há alguns anos, quando era presidente da associação dos alfaiates de Curitiba e Região Metropolitana, Ferdinando Nardelli conta que haviam na RMC cerca de 1,5 mil alfaiates. Desde então, estima ele, o número deve ter caído em pelo menos um terço. “Aqui no prédio eram 18 (alfaiates), mas hoje estamos em 12. Eu mesmo cheguei a ter 12 pessoas trabalhando comigo. Hoje é apenas a minha esposa e mais dois funcionários, que trabalham fora para mim”, conta.

Apesar do amor pela profissão que exerce há 68 anos, para ele o ofício está à beira da extinção. “É uma profissão muito boa, mas eu acho que vai acabar. Para aprender leva pelo menos dois anos e meio trabalhando de graça, porque o alfaiate tem de ficar em cima, explicando tudo até a pessoa aprender. Hoje ninguém tem essa disposição de ficar 2 anos e meio trabalhando de graça”, diz Nardelli, que já foi duas vezes presidente da associação dos alfaiates de Curitiba.

A historia do alfaiate que queria voar

Na literatura, um dos poemas mais conhecidos do alemão Bertolt Brecht conta justamente a historia de um alfaiate. Intitulado “Ulm 1592” e escrito em 1934 (embora a primeira publicação só tenha ocorrido três anos depois), o poema contrapõe as visões de mundo de um bispo e de um alfaiate, em conexão com a história de Albrecht Ludwig Berblinger.

Conhecido como “O xastre de Ulm”, Berblinger nasceu em 1770 e faleceu em 1829. Além de ser alfaiate, se interessava por mecânica e tinha o sonho de voar. Para realizá-lo, constuiu uma aeronave parecida com uma asa-delta. Tentou seu voo em 31 de maio de 1811, partindo de uma parede 13 metros acima do Rio Danúbio, em Ulm. Acabou afundando diretamente no rio, sendo salvo por um pescador. Mas sua reputação estava arruinada.

No poema de Brecht, inspirado na historia de Berblinger, um bispo ironiza a ideia de que o homem um dia pudesse vir a voar. “O homem não é pássaro,/ Nunca o homem voará”.

Alfaiataria Nardelli: 60 anos de edifício Tijucas

No caso de Ferdinando Nardelli, a escolha pelo ofício veio por iniciativa de seu pai, que queria ver os filhos escolhendo uma profissão, uma carreira promissora.“Aprendi lá (em Santa Catarina) e em 1958 vim para Curitiba, soube que aqui era cidade grande. Meu pai não queria (que o filho se mudasse), mas no interior não vivia com a profissão. Lembro que foram 12 horas de viagem. Hoje leva menos de três”, recorda o alfaiate.

Quando chegou a Curitiba, em 1958, começou a trabalhar na alfaiataria Zanardini. No ano seguinte, seu chefe disse que estava pronto para seguir carreira onde quisesse. Eram duas as opções: continuar como empregado ou abrir seu próprio negócio. Optou pelo segundo caminho e, desde então, já são 60 anos de edifício Tijucas – marca que está sendo celebrada neste mês.

“Aqui era um prédio novo, todo vazio. Fui na galeria Lustoza, que era a antiga Boca Maldita, mas não gostei muito de lá. Acho que acertei. Me formei definitivamente como profissional e me realizei financeiramente também.”

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