Empecilhos para a inclusão

Apesar dos avanços, ainda há diversas questões que precisam ser solucionadas na área da educação para garantir a inclusão, a acessibilidade plena do aluno dentro da escola. E um dos maiores problemas é a falta de intérpretes no mercado. Muitos profissionais acabam procurando outras áreas para trabalhar.

O governo tem investido na oferta de cursos e conseguiu nos últimos anos aumentar o quadro de profissionais — atualmente existem 581 intérpretes trabalhando nas escolas do Paraná, enquanto em 2009 eram 354 (uma variação positiva de 64,12% em seis anos) —, mas ainda está longe de suprir a demanda.

No Instituto Erasmo Pilotto, por exemplo, 11 intérpretes atendem as 11 turmas que possuem alunos surdos. Quando algum dos profissionais falta, os estudantes acabam tendo de se virar nos 30, já que não há substitutos. Na Escola Erasmo Pilotto isso até não chega a ser uma dificuldade maior, porque parte dos alunos mais velhos consegue quebrar o galho numa emergência.

Como muitos profissionais acabam procurando outros locais de trabalho que não a escola, acaba acontecendo dos alunos não terem intérprete, admite Fabiana Ceschin Ribas, da área de surdez do DEEIN.

As vezes acontece de os intérpretes não estarem disponíveis desde o começo do ano ou então faltar por motivos de saúde e acabamos ficando sem esses profissionais dentro da sala de aula. Isso gera um prejuízo para os alunos, então ainda precisamos melhorar, aprimorar, mas já está muito melhor do que foi, complementa o diretor-auxiliar do Instituto Erasmo Pilotto, Lourival de Araujo Filho.

Outro problema é a falta de preparo dos próprios professores, o que, naturalmente, causa dificuldades no processo de ensino-aprendizagem dos alunos surdos. A maior dificuldade na comunicação, porque às vezes, mesmo tendo o intérprete em sala, o professor não se dirige ao aluno, se dirige ao intérprete. Ele (professor) tem de fazer uso de recurso visual dentro de sala de aula, o que também vai favorecer o ouvinte. As pessoas, mesmo os professores, não tem o cuidado de aprender, conhecer, pesquisar, critica Fabiana.


Maiores dificuldades dos aluno

No final de 2006, um estudo feito por cinco pesquisadoras da Universidade Tuiuti do Paraná apontou que as maiores dificuldades dos estudantes surdos, segundo os professores, seriam a elaboração, compreensão e interpretação textual, a dificuldade para se entender o conteúdo e para se interagir, a falta de preparo dos professores e a falta de interesse dos próprios alunos. O estudo mostrava que as principais dificuldades citadas relacionavam-se à falta de conhecimento de estratégias para a surdez, e a falta de compreensão do surdo.
Quase 10 anos depois, a situação não parece ter mudado muito. Segundo Lourival Araujo Filho, cerca de 70% dos alunos surdos entram na escola sabendo nada ou muito pouco de Libras, o que acaba acarretando em outras dificuldades. "Eu percebo que a maior dificuldade é ainda a questão da linguagem voltada ao português, porque nossa língua é a portuguesa e quando há a tradução acaba havendo uma deficiência no conhecimento que essa criança traz desde a infância. Muitas vezes há uma perda porque não houve estímulo", afirma Lourival.
Cursos — Além dos cursos ofertados pelo Estado, instituições como a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Faculdade de Ensino Superior (FESP), a FAE, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis-PR) também ofertam o ensino de libras — a FESP, inclusive, oferece o curso gratuitamente para alunos e a comunidade.


Inclusão em alta

Entre 1998 e 2010 o número de alunos especiais matriculados em escolas comuns cresceu 1.000% no País. Em 1998, somente 43,9 mil dos 337,3 mil alunos contabilizados em educação especial estavam matriculados em escolas regulares ou classes comuns. Em 2010 esse número já havia passado para 483,3 mil dos 702,6 mil estudantes na mesma condição, um salto de 13% para 69% dos alunos com necessidades especiais matriculados em escolas regulares.


Formando pessoas mais tolerantes

Uma pesquisa qualitativa feita recentemente no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) apontou que vivenciar a experiência da educação inclusiva na pr-escola pode promover a tolerância, a abetura em relação ao diferente, evitando-se assim o preconceito.

O estudo, feito com seis alunos com idades entre 7 e 16 anos egressos de uma creche pública com características inclusivas e ambiente diversificado, revelou que as experiências vividas na infância como fundamentais para definir as características mais marcantes do caráter de uma pessoa, com os entrevistados demonstrando uma abertura para se relacionar com pessoas diferentes - não apenas com deficiências físicas e intelectuais, mas também com orientação sexual, religião, etnia, classe social e demais questões que caracterizam o diferente.

Além disso, os estudantes também mostraram não ter a ideia equivocada de que pessoas com deficiências são tristes ou insatisfeitas, mostrando uma relação de respeito nos relatos. Por fim, os entrevistados também mostrar preocupação com o próximo.

Enquanto a maioria das pessoas se cala diante de uma cena de discriminação ou agressão, eles se preocupam e alguns interferem na tentativa de ajudar. Isso mostra que a formação foi capaz de criar uma consciência suficientemente forte para desencadear também ações e compromissos, afirmou Marie Claire Sekkel, coordenadora da pesquisa, em entrevista Agência Fapesp.


O a b c do surdo