Parcerias

Empresas de Curitiba apostam em alternativas para sobreviver na pandemia

Maria Fernanda Abage e Jana Santos: negócios distintos num só lugar
Maria Fernanda Abage e Jana Santos: negócios distintos num só lugar (Foto: Franklin de Freitas)

Os impactos da crise sanitária provocada pela Covid-19 pesam na economia paranaense, a qual viu, ao menos, 79 mil empresas serem extintas desde abril de 2020. Os dados do Ministério da Economia mostram que, no Paraná, a cada sete minutos uma empresa fecha as portas. Os que conseguem prosseguir, contam como mantêm seus pequenos negócios pulsantes e lucrativos, à base de união, empatia e consciência coletiva.

Foi no que investiram os proprietários de três empresas curitibanas. Para superar os prejuízos de meses fechados, e conseguir manter a qualidade nos produtos e serviços, assim como o sustento da família e dos funcionários, eles juntaram os negócios no mesmo espaço.

De dia, na casa reformada no bairro Batel, funciona o Sala Café Living. A noite, o restaurante C La Vie, que serve drinks exclusivos e personalizados do AstroLab. A união das três empresas foi uma tentativa de reduzir custos, otimizar os espaços e atrair mais clientes. E vem dando certo, como explica a proprietária do AstroLab, Jana Santos.

“A ideia surgiu como uma forma de aproveitar melhor o espaço e compartilhar os investimentos e custos. Cada operação é focada de um jeito que complemente os outros espaços. O café funciona de dia, o nosso bar apenas a noite, só com drinks, e o restaurante também a noite, mas serve tanto os clientes do próprio restaurante, como tem um menu de aperitivos e entradas para os clientes do bar.”

Com a união, o movimento aumentou, a oferta de produtos se ampliou e o crescimento foi de 45% no primeiro mês de parceria, revela Jana.

Já a redução do custo fixo do empreendimento foi de 30%, aponta Raphael Zanette, empresário do C La Vie, para quem a parceria está sendo ótima. “São produtos que têm sinergia e aproveitamos o espaço ocioso, muito bem localizado, mas que era utilizado só a noite. Agora, são três lugares que funcionam como um só. O cliente pode sentar em qualquer lugar, fazer seu pedido para qualquer um dos três e pagar numa única conta.”

A terceira integrante desta parceria é Maria Fernanda Abagge, que abriu o Sala Café Living dividindo o espaço com o bar da Jana e o restaurante do Raphael. “Dividimos os custos e aproveitamos este espaço maravilhoso, com ótima localização, abrindo o dia todo. O apoio deles facilitou para a gente, mas também para o crescimento destas três marcas super legais, que se complementam”, conclui Maria Fernanda.

‘Filosofia de vida’

O senso de empatia foi o que levou a outra parceria alternativa de sucesso, no bairro Bacacheri, em Curitiba, onde funciona o Terra Café & Bistrô. “Durante a pandemia, achei injusto proibirem feiras livres, de produtores locais, e permitirem o funcionamento de supermercados. Isso mexeu comigo e, então, fui buscar formas de trazer estes produtores para dentro do café”, conta a proprietária Laura Schuhli. “Assim, aumentamos nosso espaço de divulgação, com a meta de que 60% dos nossos produtos sejam de pequenos produtores.”

Perto de atingir a meta, ela percebe grande adesão dos consumidores aos alimentos que podem ajudar no sustento de famílias locais. “Os clientes estão muito receptivos a essa ‘filosofia de vida’, tanto na aquisição das cestas de produtos da agricultura familiar, quanto na identificação com os rótulos. Temos reações muito positivas”, garante a empresária.

Em seu bistrô, Laura faz questão de expor os produtos que usa na cozinha. A parceria com a Rede Copasol, de Economia Solidária, envolve produtos de 457 agricultores familiares. “Como forma de apoio, cedemos o espaço para eles fazerem a distribuição dos alimentos da agricultura familiar. Além das cestas, temos também marcas de pequenas empresas locais”, lembra Laura, que vê o movimento e as vendas crescerem na pandemia.

Culinária afetiva e unida

Depois da Comunicação, a segunda paixão da jornalista Verônica Macedo sempre foi cozinhar. A falta de tempo, no entanto, não deixava. Com a pandemia, e a dificuldade em retornar ao mercado de trabalho, ela decidiu encarar sozinha a cozinha de casa e colocar em prática tudo o que aprendeu nos cursos sobre a culinária afetiva.
“É a culinária que traz memórias e lembranças. Experiências mais intimistas, a riqueza no que é trivial e simples”, explica Verô, como é chamada. A Cozinha da Verô-Culinária Afetiva trabalha com alimentos que remetem a bons momentos. “Não faço comida rebuscada, gourmetizada; é artesanal, caseira, e os clientes percebem, já que estão sentindo amor no que consomem, pois é tudo único. Nada é feito em grande escala, apenas sob encomenda.”

Os queridinhos do cardápio da Verô são os pães — como o integral multigrãos, o napolitano, de abóbora cabotiá com mel ou de batata doce. Todos feitos com alimentos de produtores locais da agricultura orgânica. “Gosto muito de trabalho colaborativo, especialmente com mulheres, pois dá uma força para nossas irmãs, e temos que nos ajudar”, avalia a cozinheira.

Foi no Natal de 2020, com as caixas para presente, que as parcerias com as amigas começaram. “Entraram os meus produtos salgados, como geleia de pimenta e pães especiais, e mais os doces da Ana Maria Gastronomia (@amaria.gastronomia). Deu super certo com nossas Caixas de Sabores e Afetos, personalizadas e para eventos. A ideia é que se leve ela como algo afetivo, um abraço em forma de alimento”, revela.

O sucesso foi além do esperado. “Foram mais de 50 caixas vendidas só para o Natal. Foi tão bem recebida a ideia que tivemos que comprar mais ingredientes”, recorda Verô.
As parcerias afetivas prosseguiram com as cestas na Páscoa e no Dia das Mães, e continuam na comunicação da empresa, hoje com o toque de Letícia Maldaner, da Agência Alba (@agênciaalba). “Ela faz as fotos dos meus produtos, me dá dicas para o gerenciamento das redes sociais, é uma grande parceira. Algumas coisas [serviços] eu pago e outras trocamos por comida, no escambo mesmo”, sorri a cozinheira ao contar. “Tudo o que fazemos é fruto de um trabalho colaborativo, reforçado com a pandemia”, conclui.