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Cultura

Encontro de autora do movimento negro e escritora que trata de feminicídio vira palanque

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - O encontro entre a escritora argentina Selva Almada e a filósofa Djamila Ribeiro, expoente do movimento negro e feminista brasileiro, fez da quinta mesa da Festa Literária de Paraty um palanque feminista em que quase todas as falas foram aplaudidas.

Mediado pela poeta Alice Sant´Anna, o encontro versou principalmente sobre a pluralidade e nuances do movimento feminista, sobre feminicídio e racismo, em especial contra mulheres negras.

"Estou meditando para poder lidar com um mundo que é hostil a mim quando estou num lugar em que os outros não me reconhecem", concluiu Djamila depois de contar episódios em que é confundida com funcionários de lojas ou em que sua intimidade é violada a partir de premissas machistas e racistas.

"Preciso manter minha sanidade porque o machismo enlouquece. A falta de reconhecimento enlouquece."

Autora de "Quem Tem Medo do Feminismo Negro" (Companhia das Letras), Djamila explicou da sua dificuldade em compreender e nomear a sensação de inadequação que a perseguiu boa parte da vida.

"Foi um longo processo, doloroso e difícil, no qual fui desconstruindo o que tinham me ensinado que era ser negro. Passei muito tempo sem me aceitar, para tirar essa máscara do colonialismo. E descobri que não era tímida, mas era silenciada, quando comecei a ter contato com obras feministas negras."

Filha e neta de mulheres que foram empregadas domésticas, a filósofa avaliou que o ciclo de opressão das mulheres negras em sua família foi quebrado em sua geração. "Nós, mulheres negras, fomos brutalizadas e sexualizadas. Mas não topamos mais negociar minha humanidade."

A escritora argentina, por outro lado, contou como um dos assassinatos de mulheres de que trata em seu mais recente livro lançado no país, "Garotas Mortas" (Todavia), o de Andrea, ocorrido no final de sua infância, foi "uma entrada brutal na vida de mulher". "Ela estava dormindo, em sua casa, quando foi atacada. E percebi que as mulheres não estavam seguras em parte nenhuma."

Ambas trataram ainda da importância do uso das palavras que cabem, justas, na nomeação de certos fenômenos, fatos e sentimentos.

"Eu creio que chamar as coisas com a palavra que lhes cabe é uma forma de mudar o modo como pensamos sobre elas. Deixamos de naturalizá-las", disse a argentina. "Trata dessas mortes como feminicídios dá a elas sua real dimensão."

A poeta slammer pernambucana Bell Puã abriu a quinta mesa da 16ª Flip, na tarde desta quinta-feira, declamando texto original inspirado em um trecho do poema "Cantares do Sem-nome e de Partidas", de Hilda Hilst, homenageada da festa literária deste ano.

Ela recitou: "Minha pertença não é aos seus padrões racistas: na prisão, cozinha ou na mira da polícia/Aquela que não pertence a patrão nem senhor de engenho/E muito menos pertenço à escória do conhecimento (...)/Minha cor e meu gênero sem igualdade carregam as marcas de todas aquelas que não te pertencem."

E foi aplaudida de pé.

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