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Entrevista

‘Estamos vivendo um luto coletivo. Todos perdemos algo’, diz psicóloga sobre desgaste emocional na pandemia

Ana Luisa: pessoas não devem esperar para procurar ajuda
Ana Luisa: pessoas não devem esperar para procurar ajuda (Foto: Franklin de Freitas)

A pandemia do novo coronavírus caminha para seu sexto mês no Brasil, ainda envolto em dúvidas, controvérsias, questionamentos e, muito medo. Também trouxe à tona de uma forma direta um dos temas mais presentes em nossa vida, mas que costumamos ignorar: a morte.
“O luto é um processo natural e essencial em nossas vidas, porém, neste período de pandemia de coronavírus, em que as despedidas estão sendo repentinas, abruptas e não há a possibilidade de realizar rituais de passagem como antes era feito, a elaboração deste processo, que já é dolorosa por natureza, se torna ainda mais complexa”, diz a psicóloga Ana Luisa Perin.
Formada em Psicologia e Pós Graduanda em Psicologia Clínica, Ana Luisa tem seu foco de trabalho no luto. Em sua página no Instagram, ela divide experiências, relatos e informações sobre o tema. “O foco de meu trabalho é acompanhar as pessoas nesta caminhada complexa que é o luto, para que este possa ser elaborado e que seja possível dar um novo sentido a esta experiência”, explica.
“Estamos vivendo um processo de luto coletivo, pois todos perdemos algo”, diz, sobre o momento que vivemos agora com a pandemia da Covid-19.

‘Morrer: o coronavírus traz a lembrança desta possibilidade diariamente’

Bem Paraná — O medo de morrer ou de perder alguém ficou mais latente nos últimos meses?
Ana Luisa — Definitivamente. A morte, apesar de ser uma certeza para todos, é um tema que frequentemente é evitado e envolve diversos tabus, contudo o Coronavírus traz a lembrança desta possibilidade diariamente. Assim, a proximidade deste tema em nossas rotinas, a existência da ameaça de um vírus invisível e a perda da sensação de segurança que se tinha antes, contribuíram para que cada vez mais as pessoas entrem em contato com a morte, o que pode gerar este medo.

BP — E como lidar com o luto nesta época?
Ana Luisa — Estamos vivendo um processo de luto coletivo, pois todos perdemos algo, entretanto não há uma forma universal de se lidar com o luto, porque este é um processo único para cada um. É importante que as pessoas se permitam vivenciar esta dor da forma como elas se sentirem mais confortáveis, considerando sua visão diante da perda e o seus recursos para lidar com ela. Dito isso, acredito que é fundamental que este sofrimento não seja silenciado e que ele seja vivenciado em sua complexidade, para que possa haver uma elaboração do luto. Também, penso que é essencial que cada um encontre formas de autocuidado, buscando fazer coisas que lhe trazem prazer mesmo em casa e, caso achar necessário, buscar por auxílio psicológico.

BP — Despedidas são necessárias? Como fazê-las?
Ana Luisa — Sim, as despedidas são formas de simbolizar e assimilar as perdas. Por conta da doença essas despedidas estão sendo um desafio, pois estão sendo repentinas, frias e solitárias. Penso que o que pode se fazer frente à isso é considerar que o isolamento social não significa um isolamento emocional e que é essencial que cada um encontre dentro da sua realidade formas de internalizar este momento delicado em suas vidas. Escutei relatos de pessoas que estão se conectando com familiares e amigos virtualmente para compartilharem sua dor, outras que se confortam relembrando momentos e fotos com o ente querido que faleceu, enfim o que vale é o que faz sentido para cada um.

BP — Mas, o tema ainda é um tabu?
Ana Luisa — A morte, apesar de inevitável, é um tema que frequentemente é evitado, ou seja, há uma tendência em se eliminar este assunto da vida, o que dificulta a elaboração do luto, o qual é um processo necessário frente a uma perda.

Bem Paraná — A pandemia mudou alguma coisa na condição humana?
Ana Luisa — A Covid-19 trouxe significativas mudanças e impactos na forma como convivemos e nos relacionamos com os outros. Assim, acredito que a pandemia ofereceu uma possibilidade de autorreflexão e de reconstrução para aqueles que se permitiram e tiveram a oportunidade de vivenciar esses processos. Isso varia de acordo com a visão e o sentido que cada um dá a este momento que estamos vivendo e os recursos que cada pessoa dispõe para enfrentar esta situação. Existem pessoas que estão considerando as complicações trazidas pela Covid-19 e, a partir disso, se questionando e mudando posicionamentos, e existem outras que estão negando esta realidade.

BP — Por que se interessou por essa área?
Ana Luisa — Me interesso pelo luto porque ao longo de nossas vidas passamos por este processo em diversos momentos, afinal o luto não está relacionado somente a morte, mas sim a quaisquer perdas significativas, podendo ser o término de um relacionamento, uma mudança de cidade, mudanças de emprego, entre outros. Também, eu percebo que muitas pessoas não têm conhecimentos sobre o luto e acabam o estigmatizando e não elaborando esse processo em suas vidas, o que pode ser prejudicial em termos de saúde mental.

Busca por apoio aumentou nos últimos meses

Bem Paraná — Desde o início da pandemia sentiu um aumento na procura por ajuda/apoio?
Ana Luisa Perin — Sim, houve um aumento significativo, isso porque um dos efeitos da pandemia é o desgaste emocional intenso. A vida que antes conhecíamos mudou drasticamente e foi tomada pelo desconhecido e pela falta de respostas, fatores que podem gerar bastante angústia e mobilizam as pessoas a buscarem o apoio psicológico.

BP — Existe certo ou errado em se tratando de enfrentamento do luto?
Ana Luisa — Não. Como eu disse, o luto é um processo singular, assim qualquer sentimento ou pensamento pode e deve ser validado pelo enlutado. É comum que as pessoas se questionem sobre como estão vivenciando o luto e podem surgir auto recriminações como “o que estou sentindo não é normal, estou enlouquecendo”, “as pessoas próximas a mim não estão tendo esta mesma reação”, entre outros. Porém, o que cabe neste momento é vivenciá-lo de forma sincera e acolher o que você está sentindo.

BP — Por que a experiência de uma pessoa com a morte é tão diferente da de outra?
Ana Luisa — Porque cada um em sua história de vida desenvolve uma relação única com a morte, dando seus próprios significados e representações a este tema e também pela forma como cada um se estrutura psiquicamente, o que influencia em como cada sujeito irá lidar com as perdas.

BP — Quando o luto acaba?
Ana Luisa — O que consideramos é o final da elaboração do processo de luto, isso porque esta é uma dor que deixa marcas na vida das pessoas e dificilmente será esquecida, mas pode ser ressignificada e transformada em saudades. O luto não possui um “prazo de validade”, entretanto havendo uma elaboração deste processo é possível que ele seja vivenciado de forma mas leve e suportável.

BP — As pessoas buscam respostas?
Ana Luisa — Como realizar as despedidas? Como lidar com essas perdas? Como é a experiência com a morte? Essas são perguntas frequentes em atendimentos clínicos. Acredito na informação de qualidade e na relevância de compartilhar conhecimentos sobre o luto, para que cada vez mais as pessoas possam ter um suporte ao enfrentar esta dor.

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