Crise sanitária

Estudo aponta que volta das aulas presenciais causará aumento de casos, internamentos e mortes por Covid-19

(Foto: Franklin de Freitas)

A retomada das aulas presenciais num momento em que o Paraná ainda atravessa a terceira onda da Covid-19 e em que apenas 16,5% dos paranaenses foram vacinados pode causar o aumento de casos, internamentos e mortes causadas pelo novo coronavírus. É essa a conclusão de um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade Federal de São João Del Rei e da Universidade Federal do Amazonas. Os dados - e os alertas - foram divulgados ontem (6 de maio) pelo cientista Lucas Ferrante, em plenária virtual realizada pela APP-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná).

De acordo com as análises, divulgadas no estudo intitulado "Avaliação da Pandemia de Covid19 – Medidas Necessárias para Controle da Pandemia”, a retomada das aulas presenciais só seria relativamente segura com 70% das pessoas imunizadas. No momento atual, qualquer medida de relaxamento no distanciamento social poderá ter impacto nos hospitais em cerca de duas semanas.

As análises e recomendações se baseiam no modelo computacional SEIR (Susceptíveis-Expostos-Infectados-Recuperados), que considera dados epidemiológicos, taxas de vacinação e mobilidade urbana da população de dez cidades: Cascavel, Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão, Guarapuava, Londrina, Maringá, Toledo, Paranavaí, Ponta Grossa e União da Vitória. “Para nenhuma delas, o modelo aponta a possibilidade de relaxamento de medidas restritivas”, afirmou Ferrante. “Não é o momento de aumentar a circulação urbana”, observou.

A nota técnica do estudo, divulgada pela APP-Sindicato, aponta ainda que a situação mais crítica entre os municípios avaliados é a de Londrina, no norte do Paraná, onde pode haver aumento drástico de casos até junho, com diminuição na onda apenas em agosto, além da manutenção de índices médios de dez mortes diárias até outubro.

"Embora as projeções indiquem queda de casos, óbitos e internações para os demais municípios, o afrouxamento de medidas restritivas que aumentem a circulação viral na comunidade tendem a acelerar o contágio, novamente aumentando o número de casos, internações e óbitos", destacam ainda os pesquisadores na nota técnica. "Através das atuais projeções, podem-se ser atingidos limiares aceitáveis para a retomada de atividades não essenciais para Ponta Grossa a partir da última semana de maio, devendo, porém, serem mantidas atualmentes as medidas restritivas, sob risco de novo aumento de casos, internações e óbitos. Os municípios de Cascavel, Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão, Guarapuava, Maringá, Toledo, Paranavaí e União da Vitória devem implementar medidas restritivas por pelo menos 21 dias para evitar novo aumento de casos (...). Para o município de Londrina, dada a situação extremamente preocupante que se projeta, recomenda-se um lockdown de 21 dias com restrição de toda a mobilidade urbana em níveis de 70% a 90%", apontam ainda os especialistas.

O estudo citado acima foi divulgado em sua íntegra no site da APP-Sindicato e pode ser conferido AQUI

'Estudos falaciosos' e o impacto da volta às aulas presenciais

Lucas Ferrante também criticou estudos que ele classificou como falaciosos, os quais apontam que a volta às aulas presenciais não impactaria negativamente os números da pandemia. Por outro lado, citou estudo publicado na revista Science, com dados de 41 países, que aponta o contrário: escolas e universidades são locais relevantes para controle ou disseminação do coronavírus. 

"Escolas da Suécia relataram contaminação de um quarto dos funcionários após o retorno presencial e excesso de mortes de crianças entre 7 e 16 anos, que totalizaram um aumento em relação à média histórica. Embora a maioria das vítimas fatais de Covid-19 sejam adultos, as crianças possuem carga viral equivalente aos adultos, sendo também transmissores do SARS-CoV-2, o que coloca em risco pais, avós, professores e funcionários", destacam ainda os pesquisadores na nota técnica.

Sindicato recomenda que diretores não assinem documentos autorizando volta às aulas

Presidente da APP-Sindicato, Hermes Leão lamentou que o Governo do Estado esteja tentando transferir para prefeitos e diretores de escola a responsabilidade de uma decisão sobre a volta às aulas presenciais. Ainda segundo ele, a recomendação do sindicato aos diretores e às diretoras é que  não assinem qualquer documento autorizando a volta às aulas presenciais em suas escolas. “Não assumam a responsabilidade de pôr vidas em risco”, disse Leão. “Nós queremos a retomada, mas está evidente que essa flexibilização não é possível nesse momento."

Leão ainda ressalta a necessidade de envolver não só toda a categoria, mas também a sociedade no debate sobre a volta das aulas presenciais. "Estamos procurando ter as melhores informações para podermos tomar as decisões mais acertadas”, disse ele, relatando que tem conversado com prefeitos e recebido apoio na decisão da APP-Sindicato de só retomar as aulas presenciais após a vacinação dos profissionais da Educação.

'Aqueles que não ouvem a ciência estão contra a vida'

O reitor da UFPR, Ricardo Marcelo Fonseca, também participou da plenária da APP. Ele disse que aqueles que não ouvem a ciência durante a pandemia, estão contra a vida. “Desde março interrompemos as atividades letivas presenciais na Universidade, orientados por uma comissão de cientistas, que agora nos dizem que é temerário  voltar às atividades letivas presenciais. Então vamos ficar assim até que os cientistas nos digam que é seguro voltar”, afirmou.

Ameaça de greve

Depois do governador Ratinho Junior (PSD) e do secretário da Educação Renato Feder anunciarem a volta das aulas presenciais de forma gradual a partir da próxima segunda-feira (10 de maio), a APP-Sindicato anunciou que fará uma greve caso o governo estadual insista em retomar as atividades presenciais antes de professores e funcionários de escolas serem vacinados.

As justificativas para a decisão são diversas. Uma delas é que não haveria condições estruturais nas escolas para o retorno, além de faltar profissionais para o devido acompanhamento dos estudantes. Além disso, também é citada a própria situação pandêmica, com o Paraná ainda apresentando patamar elevado de casos e óbitos.

O temor é que, com a circulação de um milhão de estudantes e mais de 120 mil profissionais da educação, a taxa de transmissão da doença volte a subir.