Tempos de pandemia

Famílias que enfrentaram a Covid-19 formam redes de apoio para disseminar a esperança

Deise Godói perdeu a mãe para a Covid e viu o marido intubado ao mesmo tempo
Deise Godói perdeu a mãe para a Covid e viu o marido intubado ao mesmo tempo (Foto: Franklin de Freitas)

O ano de 2021 foi de provação para Deisi Godói. Moradora de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ela e sua família enfrentaram um verdadeiro surto de Covid-19 em março deste ano, quando também o Paraná encarou o pico da crise sanitária causada pelo novo coronavírus. Ela, que já havia sido contaminada anteriormente, e os filhos escaparam ilesos. A mãe, Dona Vanderleia, que tinha 67 anos, não teve a mesma sorte e acabou falecendo no mesma dia em que o marido de Deisi, Ciro, estava sendo intubado devido às complicações da doença.

Para superar o momento difícil, ela contou com as palavras positivas que recebeu dos médicos de seu marido e também da psicóloga do Hospital Marcelino Champagnat, onde Ciro ficou internado. Ele sobreviveu após uma luta de 43 dias no hospital, sendo 33 deles passados em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Tendo vivenciado o luto pela perda da mãe e a alegria pela vida do marido, hoje Deisi é procurada por amigos e até pessoas que não conhece para contar a sua experiência e também passar uma mensagem de esperança, fé e otimismo.

“Depois que eu tive essa experiência, as pessoas começaram a me ligar, contavam como estava algum familiar que contraiu a doença, eu conversava, falava para medir no oxímetro [a saturação de oxigênio no sangue]. Também passava uma mensagem de esperança, dizia que vai ficar tudo bem, que tem que ter fé e força. Eu tive as duas experiências, a ruim com a minha mãe e a boa com o meu marido, então eu olhava essa questão e sempre gostei muito de conversar, falar”, conta Deisi, que hoje já pensa até em cursar Psicologia para continuar ajudando aos outros.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, em março do ano passado, mais de 21 milhões de pessoas testaram positivo para a Covid-19 no país e 592 mil não resistiram à doença. Só no Paraná, conforme a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa-PR), são cerca de 1,49 milhão de casos confirmados e 38,5 mil óbitos. Diante disso, em abril uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde identificou que cerca de 30% dos brasileiros procuraram apoio psicológico e outros 32%, mesmo sem buscar atendimento, gostariam de receber. Nesse cenário, a criação de redes de apoio se torna ainda mais importante, como explica o coordenador da UTI covid do Hospital Marcelino Champagnat, Jarbas da Silva Motta Junior.

“Uma coisa é a gente falar para ela [parente] da evolução da doença em termos técnicos, outra coisa é escutar de pessoas leigas, que passaram por experiências parecidas e muitas vezes tem uma forma de explanar um pouco melhor que a gente”, afirma o médico intensivista, destacando ainda que, com as redes de apoio, os familiares passam até a ter mais confiança naquilo que os próprios médicos passam para eles.

“Tentamos pasar uma realidade, nunca tirando a esperança, mas mostrando que é um caso grave e infelizmente não tem como não dizer que tem risco de óbito. Mas em contato com outras famílias que tiveram parentes que passaram por aqui, eles veem que tem outros casos parecidos que tiveram sucesso. Essas conversas e trocas que são muito benéficas, porque essa corrente de esperança e otimismo ajuda na melhora do paciente”, complementa Jarbas.

Sete meses lutando pela vida e uma mensagem de amor e esforço

Aos 36 anos, o advogado Guilherme Kovalski testou positivo para a Covid-19 em julho do ano passado. De início teve dor nas costas, falta de ar e foi uma vez no hospital. Foi orientado a voltar para casa, mas precisou voltar outro dia. Acabou internado, iniciando uma luta que durou sete meses, chegando ao fim apenas no dia 21 de fevereiro, quando ele finalmente recebeu alta do hospital.

Com a divulgação de seu caso na imprensa, muitas pessoas começaram a procurar Guilherme depois. Foi esse o caso da estudante paraibana Geovania dos Santos, que viu a história de superação de Guilherme em uma rede social e mandou mensagem para ele após perder uma tia para a doença pandêmica e enquanto o tio seguia em estado grave no hospital. Na ocasião, queria saber sobre o processo de recuperação após tantos meses de internação pela Covid-19. “A história do Guilherme me tocou e as palavras dele foram um alento para a minha família que enfrentava o luto e as incertezas da doença”, conta a estudante.

Segundo Guilherme, desde que seu caso repercutiu muita gente começou a lhe procurar. São pessoas de Norte a Sul do Brasil e até mesmo de outros países, como Argentina e Canadá. “Tento passar uma mensagem de apoio, de esforço, para dar ânimo para as pessoas nessa situação”, diz o advogado, reforçando que sempre tenta passar uma mensagem de força e luta. “Somente através de luta, esforço e amor que vamos conseguir passar por essa doença. E me coloco à disposição de todos que precisem de orientação, ajuda, uma palavra de carinho”.

Sobreviventes compartilham experiências dos momentos mais difíceis e ganham seguidores

O empresário e fisiculturista Kaique Barbanti ficou 62 dias na UTI, sendo 23 na ECMO, máquina que funciona como pulmões e coração artificial. Mesmo com histórico de exercícios físicos e sem comorbidades, a Covid o deixou debilitado, com 30 quilos a menos e necessidade de muita fisioterapia para voltar à rotina. “Você acha que vai morrer sozinho. Depois que contei minha história em uma rede social meu número de seguidores disparou e todos os dias recebo muitas mensagens de pessoas que estão com alguém no hospital, que querem saber mais da minha trajetória e de como superei a Covid-19”, diz.

Da mesma forma, o professor de química Robert Gessner oferece palavras de apoio e incentivo aos seus alunos que estão com familiares internados devido à infecção do coronavírus. “Eu quase perdi a minha vida pela doença e precisei de meses de fisioterapia para poder voltar a fazer o que mais amo, que é dar aulas. Ver que consigo aliviar um pouco a angústia desses adolescentes com a experiência que eu tive, é algo que me faz muito bem”, afirma.