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Cotidiano

Fenômeno conhecido como 'pesca fantasma' mata e cria ciclo de desperdício

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Redes de emalhar e de arrasto, varas, linhas, anzóis, armadilhas formam os chamados petrechos de pesca, deixados para trás por pescadores a todo instante. Cálculo da Proteção Animal Mundial aponta que são pelo menos 640 mil toneladas desses materiais abandonados, perdidos ou descartados a cada ano no planeta.

Submersos, aprisionam e mutilam a fauna marinha: baleias, focas, tartarugas, peixes e crustáceos. Os impactos recaem sobre 45% dos mamíferos marinhos da lista de espécies ameaçadas da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais).

Essa atividade subaquática silenciosa é a pesca fantasma, que além do sofrimento e morte de animais desperdiça material rico e fundamental para a alimentação humana. A duração desse material é longa e por isso se diz que a pesca fantasma é cíclica: os animais presos podem servir para atrair outros animais que se alimentam de restos orgânicos de origem vegetal ou animal e assim sucessivamente, até que o petrecho fantasma seja retirado ou entre em degradação.

Depois que para de aprisionar e enredar os animais, o restolho da atividade pesqueira ainda continua a causar problemas. O material é sobretudo plástico e, devido à exposição ao sol, ao atrito e à salinidade vai se quebrando em partículas que contaminam o fundo do mar, a água e os organismos aquáticos. Já há pesquisas comprovando a presença de microplásticos no sistema digestivo humano.

O dano econômico não é apenas do desperdício de peixes que poderiam alimentar a atividade do setor, mas porque petrechos danificam hélices de outras embarcações. A Proteção Animal Mundial e a ONU Meio Ambiente elaboraram um relatório sobre o problema na pesca fantasma no Brasil que apresentam nesta sexta-feira (7), em São Paulo.

Segundo o relatório “Maré fantasma Situação atual, desafios e soluções para a pesca fantasma no Brasil”, os primeiros registros desse fenômeno são da década de 1990, demonstrado levantamento sobre a coleta de lixo em praias públicas e Unidades de Conservação. Em 2009, foi criado o Projeto Petrechos de Pesca Perdidos no Mar.

Apesar dessas iniciativas, o país tem pouca informação coletada e sistematizada sobre a atividade pesqueira que dê conta também de mapear seus resíduos. “Só São Paulo, Santa Cataria e o Rio têm informações mais consistentes”, diz João Almeida, da Proteção Animal Mundial e responsável pela campanha Sea Change no Brasil.

Para estimar o tamanho do problema no Brasil, o relatório utilizou a média de produção/importação de redes de pesca e usou referência internacional de taxa de perda. A cada ano, são produzidos e importados 6.618,37 toneladas de novas redes de pesca no país, que podem gerar aproximadamente 580 kg de petrechos fantasma por dia.

Com essa quantidade de petrechos fantasmas, podem ser impactados mais de 69 mil animais marinhos por dia, o que dá 25 milhões em um ano. “Ao elaborar o relatório, vimos que o Brasil não sabe o tamanho de sua frota de barcos, a quantidade de pescado e nem a intensidade da pesca”, diz Almeida.

Entre as razões para o despejo desse material no mar, estão a falta de percepção do dano ambiental, problemas de operação ou obsolescência e também a dispensa para fuga, no caso da pesca ilegal. Objetivo do levantamento, segundo Almeida, é atingir sociedade e governo, e engajar o setor produtivo para pressionar por melhores práticas. “Queremos colocar o tema na agenda. Há muito a ser feito: começando por investir em levantamento sobre o real estado do problema no país, dotar as universidades de recursos para pesquisa científica sobre o tema, fiscalizar e ter mapeamento da atividade de pesca, com gerenciamento estadual”, afirma.

Fazer com que a indústria da pesca e dos alimentos processados fiscalize e zele pela cadeia de fornecimento é uma das estratégias da Proteção Animal Mundial. A organização faz levantamentos periódicos sobre o grau de engajamento das empresas que atuam no setor e publica rankings, como forma de deixar transparente o compromisso —e o descompromisso— desses atores em relação à saúde dos oceanos.

A Proteção Animal Mundial também faz experiências em comunidades de pesca artesanal testando alternativas para mitigar a pesca fantasma, como a identificação das redes de pesca com nome da empresa proprietária e marcadores GPS para poder acompanhar seu caminho e providenciar seu resgate.

“São alternativas baratas que podem ser adotadas facilmente”, afirma Almeida.“O Brasil teve um importante engajamento com a aprovação da Declaração de Florianópolis, em setembro, que reafirmou o banimento da caça comercial de baleias em águas internacionais”, diz Almeida. “A agenda da pesca fantasma precisa ser encampada também”, finaliza.

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