Eleições em Curitiba

Entrevista: Francischini aposta em eleitor de Bolsonaro para vencer na ‘República de Curitiba’

Francischini (PSL): “Greca só socorreu aos amigos”
Francischini (PSL): “Greca só socorreu aos amigos” (Foto: Franklin de Freitas)

O delegado da Polícia Federal, Fernando Francischini, foi eleito deputado estadual em 2018, com mais de 400 mil votos, a maior votação da história da Assembleia Legislativa, na esteira da onda que levou Jair Bolsonaro (sem partido) ao Palácio do Planalto. Em 2020, disputa a prefeitura de Curitiba, apostando em atrair os votos que o eleitorado da “República de Curitiba” deu a Bolsonaro, mesmo sem o apoio formal do presidente. Francischini argumenta que, apesar de Bolsonaro ter deixado o PSL pelo qual se elegeu, sua candidatura representa os “valores e princípios” que deram a vitória ao presidente: a defesa da família e da liberdade econômica. 

Após a desistência de alguns dos nomes mais competitivos da disputa, o candidato do PSL se coloca como o principal adversário da reeleição do prefeito Rafael Greca (DEM). Em entrevista ao Bem Paraná, ele acusa a atual gestão de ter fechado a cidade cedo demais no início do surto do Covid-19, e de priorizar os grandes empresários do transporte coletivo, em detrimento de pequenos e microempresas atingidas pela pandemia. E defende a reconstrução econômica da cidade como principal bandeira.

Bem Paraná - Se hoje fosse 1º de janeiro de 2021, e o senhor tivesse sido eleito prefeito, qual seria a sua primeira medida?

Fernando Francischini – A ideia é a reconstrução econômica da cidade, focado no emprego, na reconstrução das micro e pequenas empresas que geram emprego e renda. O principal efeito da pandemia, na minha visão, em janeiro, quando acaba o auxílio emergencial do governo federal, quando acaba muitos que estão em auxílio desemprego, vai sobrar uma cidade em caos econômico pela falta de emprego e de renda. E a prefeitura tem que ter a mão amiga para fazer programas de refinanciamento de IPTU e ISS e a tirada do nome dos cadastros de inadimplência para que as pequenas e microempresas possam voltar a existir e gerar empregos. O item um seria a reconstrução econômica da cidade com emprego e renda para a gente poder respirar, porque vai ser um período muito difícil.

BP – Como fazer isso diante das restrições orçamentárias?
Francischini – O primeiro Refis (programa de refinanciamento de impostos) é um dinheiro perdido. Você está refinanciando quem já não pagou. Na verdade, você está possibilitando ele parcelar e a prefeitura voltar a arrecadar o que está perdido. O segundo é retirar o nome dele do Cadin e dos cartórios de execução para que ele possa buscar um microcrédito na iniciativa privada, nos bancos, ou na própria prefeitura para que ele possa fazer a economia girar e quando a economia gira na cidade vem o ISS para a prefeitura, vem a cota parte da prefeitura do ICMS. Quando tem dinheiro rodando na cidade a prefeitura volta a arrecadar mais. É um efeito direto da economia. E quando a gente fala em incentivar a economia local, a gente está falando em um período pós-pandemia que vai estar em estagnação econômica. Qualquer intervenção da prefeitura com investimento ele volta em dobro ou triplo para o caixa da prefeitura. Então é uma ação inteligente de usar o fundo de reserva que foi usado pelo prefeito Rafael Greca para socorrer somente as empresas de ônibus, foram quase R$ 200 milhões, eu vou usar esses R$ 200 milhões para socorrer quem está desempregado e aqueles pequenos e microempresários que fecharam as portas no período de pandemia.

BP – Como o senhor vê a maneira como a gestão Greca lidou com a questão da pandemia?
Francischini – Ele não teve sensibilidade e não teve prioridade. A sensibilidade de olhar para os pequenos, as pessoas mais humildes. Os pequenos empresários que tem uma pequena porta aberta no comércio de bairro. E socorreu só os amigos, que são os grandes doadores de campanha. Por outro lado, ele não teve prioridade quando fechou o comércio antes da hora assustado com o que acontecia no mundo e no final de março fechou a cidade praticamente. Três meses com poucos casos e quando apertou no período de frio, que todo mundo sabia o que ia acontecer, ele praticamente decretou um lockdown e esse lockdown arrebentou o comércio da cidade. Faliu. Fechou restaurantes, comércio, deixou restaurantes, feiras livres, academias, todas em desespero porque estão desempregando em massa na nossa cidade.

TRANSPORTE COLETIVO
“Greca aumentou passagem acima da inflação”

Bem Paraná – Em fevereiro vence o novo reajuste da tarifa do transporte coletivo. Como o senhor pretende administrar isso?
Fernando Francischini – Primeiro nós vamos sentar e verificar a taxa de administração que a Urbs cobra. A própria Urbs cobra 4% de taxa de administração que vai para o caixa da empresa e esquece que isso acaba impactando a tarifa. Nós vamos logo no início fazer um estudo jurídico para enxugar os custos do transporte para que a gente possa manter os empregos dos motoristas e cobradores, mas por outro lado, por um bom tempo a gente possa estancar, paralisar esses aumentos. O Greca aumentou em 22% a passagem de ônibus na sua gestão de 3 anos, quando a inflação foi 13% no período. Então ele aumentou acima da inflação e prejudicou muitos curitibanos com esses aumentos. E deixou de socorrer - como o presidente Bolsonaro fez o auxílio emergencial e socorreu as pessoas mais carentes – ele socorreu os grandes empresários da cidade. Teve uma inversão de valores do que a gente viu em outras esferas.

BP – O senhor foi secretário Antidrogas na gestão Beto Richa e depois secretário da Segurança no governo Richa. Qual o seu relacionamento com o ex-governador hoje?
Francischini – O governador está afastado da política. E ele na minha visão agora está exercendo o direito de defesa dele, com o momento difícil que ele passou. E o nosso contato tem sido com os deputados do PSDB. Michele Caputo, Paulo Litro que foram os dois que conduziram a aliança que nós fizemos.

BP – O senhor integra a base do governo Ratinho Júnior, mas o PSD, partido do governador, decidiu apoiar a reeleição do Greca. Como o senhor vê essa decisão? Espera neutralidade do governador?
Francischini – Sou amigo pessoal do governador, estive com ele em todas as eleições. E uma decisão como essa de apoiar, que é do partido, não afeta essa relação, porque é uma relação construída com base em princípios, valores. Na ajuda que nós fizemos para que ele quebrasse esse círculo de oligarquias que ocupavam o governo do Estado. E eu vejo que da mesma forma a minha candidatura em Curitiba é uma quebra de oligarquias que administram a cidade. Os mesmos nomes, os vínculos familiares dos últimos anos. Para mim, não vejo problema, faz parte da política os apoios. Mas eu vou levar meu plano de governo para o governador Ratinho Júnior, para o presidente Jair Bolsonaro e não quero uma adesão política, quero uma adesão nos projetos que podem beneficiar a cidade de Curitiba.

BP – O senhor chegou a fazer um vídeo dirigido aos eleitores do deputado Ney Leprevost (PSD). O que o senhor achou da desistência dele, do Gustavo Fruet (PDT), do Luciano Ducci (PSB) e do Luizão Goulart (Repub)? No que isso altera o cenário da disputa?
Francischini – Eu tenho muito focado na minha preparação nos últimos meses. Para os debates, na preparação técnica, na escolha de uma vice que tivesse capacidade técnica, que não viesse do mundo político. Minha escolha foi alguém que tivesse um grande conhecimento na área da saúde, doutorado, MBA no Albert Einstein, que é a doutora Letícia Pan. Fiquei meio afastado porque acho q ue o timing do mundo político é diferente do das pessoas que vivem na cidade. As pessoas não estão muito preocupadas se o Ney desistiu, se o Gustavo vai ser candidato. Eu acho que o timing das pessoas é se o Francischini está preparado para cuidar da minha família, dos serviços da prefeitura. Tenho evitado fazer análises políticas e tenho me dedicado muito a me preparar para que as pessoas sintam confiança de que eu posso administrar a cidade.

BP – O senhor acha que o Greca atuou nos bastidores para tentar evitar essas candidaturas?
Francischini – Com certeza. A atuação dele foi antidemocrática. Ele quis ganhar por W.O. Sem ter candidatos. A democracia, o debate de ideias diferentes para que a população possa escolher. Infelizmente o prefeito Rafael Greca tentou retirar todas as candidaturas. Mas eu permaneci firme. Dessa vez eu tenho um partido com bom tempo de TV e um grupo de lideranças que discorda da forma como ele administra a cidade. Com certeza a minha candidatura, pelas pesquisas, será o principal contraponto à gestão do Greca.

BOLSONARO
“Relação com presidente continua a mesma”

Bem Paraná – O senhor foi muito próximo do presidente Bolsonaro, coordenou a campanha dele no Estado, mas depois os dois se afastaram. O que aconteceu? Qual o seu relacionamento com ele hoje?
Fernando Francischini – Na verdade eu fiquei no Estado. Quem foi a Brasília é o Felipe Francischini, que é deputado federal, meu filho. E o Felipe foi, com o apoio do presidente Bolsonaro, eleito presidente da comissão mais importante do Congresso, que é a Comissão de Constituição e Justiça. Aprovou a reforma da previdência, que era o principal projeto do presidente Bolsonaro. E há poucos dias, com o apoio do próprio presidente da República, em conversas que eu participei, assumiu com os votos dados por ele, junto com o nosso presidente (do PSL), Luciano Bivar, chancelando, a liderança do maior partido da Câmara. O meu distanciamento é mais físico. Nos últimos meses eu viajei no avião presidencial com o presidente Bolsonaro para Foz no lançamento da pedra fundamental da segunda ponte. Já estive em Brasília com a ministra Damares várias vezes, com o ministro (da Infraestrutura)
Tarcísio (de Freitas) discutindo a retirada da linha férrea. Ao invés de ir a Brasília, eu tenho ido ao Tatuquara, ao Centro da cidade, que é o foco da minha eleição. A relação com ele continua a mesma.

BP – Ou seja, mesmo que o presidente não faça campanha, o senhor espera atrair os votos dos eleitores do Bolsonaro?
Francischini – Eu acho que os eleitores se identificaram com princípios e valores. A defesa da família, a liberdade econômica, a facilitação da vida das pessoas que querem empreender e gerar empregos. A diminuição de impostos. Eu tenho esses mesmos princípios e valores que o presidente da República, que o governador Ratinho Jr. Então, não fico à busca, como muitos, ‘eu sou o candidato dele’. Eu tenho tentado fazer um bom plano de governo, me posicionar como sempre firme com base nos princípios e valores que eu acredito e acho que o resto é natural para acontecer.

Bem Paraná – Como o senhor acha que vai ser a campanha, diante das restrições da pandemia?
Fernando Francischini – Eu acho que a campanha veio para as redes sociais e para rádio e TV. Vai diminuir os eventos, caminhadas, arrastões, pela própria necessidade das normas de segurança sanitárias. Quem tem rede social forte – se você fizer análise hoje sou eu e o prefeito Rafael Greca. Quem tem maior tempo de rádio e TV. O Greca ficou com 3 minutos de 10, eu fiquei com dois, e o candidato mais próximo tem 30, 40 segundos.

BP – O senhor vem da área de segurança. Qual a sua proposta para essa área?
Francischini – Vou fortalecer muito a Guarda Municipal. Eu fui o relator da lei que é o estatuto da Guarda Municipal do Brasil, que regulamenta a abordagem, o armamento. Eu fui oficial do Exército, da Polícia Militar, delegado da Polícia Federal. Quero implantar um grande sistema que o Greca prometeu e não fez. Ele dizia que era a “Muralha Digital”. Virou o “Nada Digital”. Não tem nada. Ele lançou um edital há um mês para inglês ver porque ele não fez nada na área de segurança pública. A Constituição é clara que a segurança é um dever de todos, não só do Estado. A prefeitura tem a sua contraparte. Não só a Guarda Municipal cuidando dos bens públicos, mas tem lei hoje regulamentando que ela colabora com o sistema de segurança. Nós temos um efetivo diminuto, um treinamento diminuto. Nós precisamos alguém que possa colocar a Guarda Municipal num patamar que com um sistema de câmeras privadas e públicas, software de reconhecimento facial, integrada com a PM possa fazer de Curitiba a cidade mais segura do Brasil.

BP – A atual gestão tem terceirizado os serviços de saúde. O senhor pretende manter ou rever essa política?
Francischini – As empresas que hoje fazem a terceirização da saúde em Curitiba, infelizmente são as mesmas empresas que estão envolvidas no maior escândalo de corrupção da saúde no Rio de Janeiro. Falar que um delegado da PF eleito prefeito vai manter isso? Eu não vou manter. Vou revogar todos essas terceirizações e vou buscar a Fundação Municipal de Saúde, que também pode dar agilidade no atendimento da população, mas com a segurança da fundação que mantém todos os direitos dos nossos heróis que são os médicos, enfermeiros, técnicos que estão na linha de frente. Essas organizações não têm respeitado os profissionais de saúde. E eu não posso concordar de assistir na minha cidade, organizações sociais envolvidas em corrupção em outros estados, direta ou subliminarmente escondidas embaixo de outras organizações tocando a saúde de Curitiba.