Publicidade
Está na história

Há 129 anos, boatos da queda da monarquia corriam por Curityba; telegrama confirmaria a Proclamação da República

\"Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica\", 1893, \u00f3leo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927). Acervo da Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo
\"Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica\", 1893, \u00f3leo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927). Acervo da Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo (Foto: Reprodução/ Wikipedia)

O ano é 1889. O dia, 15 de novembro. Por volta das 15 horas, começara a circular por Curityba (como se escrevia o nome da capital paranaense na época) boatos de que "a côrte estava sendo theatro de grandes acontecimentos, pois contava grande revolta do exercito e armada contra o governo".

De início, poucos acreditaram na notícia, uma vez que o imperador Dom Pedro II era bem quisto pela maior parte dos brasileiros. Mas não era fake news, como viria a confirmar um telegrama expedido por Quintino Bocaiuva ao Coronel Cardoso Junior no dia 16. No documento lia-se: “Povo, exercito, armada vão installar governo provisorio, que consultará nação. Convocação constituinte. Acclamações geraes republica.”

Foi assim que a província do Paraná ficou sabendo sobre a queda do Império do Brasil e o nascimento dos Estados Unidos do Brasil, relata o Dezenove de Dezembro, órgão do Partido Liberal e primeiro jornal paranaense (criado em 1854).

Na madrugada do dia 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca, burlando as recomendações médicas (estava doente, com dispneia), levantou-se as pressas da cama em que havia passado uma madrugada febril para liderar um movimento de tropas do exército que derrubaria a monarquia brasileira.

Inicialmente, o planejado era  consumar o golpe político-militar na semana seguinte, no dia 20. Mas uma notícia que dava conta de uma ordem de prisão contra Deodoro e o tenente-coronel Benjamin Constant, líder dos oficiais republicanos, acabou acelerando o processo. Era apenas um boato, mas a República acabou sendo proclamada naquele mesmo dia, na Praça da Aclamação (atual Praça da República), na cidade do Rio de Janeiro, então capital nacional.

Adesão quase de imediato ao novo regime

Segundo relatam os jornais da época, não demorou para que a província do Paraná aderisse ao novo regime. 

Em 17 de novembro, dois dias após a Proclamação da República, o presidente da província do Paraná (o que hoje seria o equivalente ao governador), Jesuíno Marcondes, anunciava ao general Deodoro, por meio de um telegrama, a adesão paranaense ao regime republicano. Eis o que dizia o documento:

"General Deodoro, presidente do governo provisorio. - Rio. - Hontem dei por finda minha missão, em vista telegramma de V. Ex. ao commandante brigada, encarregando-o manutenção ordem.

Partido Liberal Paraná adhére factos consumados e sirvirá nossa patria com governo provisorio. - J. Marcondes. - Curityba, 17 de novembro de 1889."

Na sequência, Marcondes encaminhou um outro telegrama às estações telegráficas da província, para que dessem publicidade à novidade: o Brazil (grafia da época) era uma república. 

"Curityba, 17 de novembro de 1889, - Republica proclamada. Familia Imperial expatriada. Governo provisorio geral e provincial organisados. Constituinte convocada. Nestas circumstancias, finda a minha missão official, annunciei ao governo provisorio a adhesão do partido liberal do Paraná aos factos consumados e sua dedicação á Patria. Conto ter assim interpretado os sentimentos do Paraná e a necessidade suprema de auxiliar a obra de reconstrucção da grande patria brazileira. - J. Marcondes."

Festas pelo Paraná

Em Curityba, o que se seguiu à confirmação da Proclamação da República foram "grandes festas" para "solenizar os acontecimentos", celebrações estas que "correram sem perturbação da ordem publica”, relata o órgão do Partido Liberal (que logo após a proclamação passaria a se chamar Partido Republicano Federalista, por sugestão de Generoso Marques, sendo acusado pelos integrantes do partido republicano de oportunismo e de realizar uma manobra para tentar conservas as mesmas elites no poder).

Já A República, órgão do partido republicano, relatava, em 21 de novembro, que em Campo Largo, onde ficava o jornal, a notícia da proclamação da República foi recebida "com o mais vivo jubilo e delirante enthusiasmo. (...) Os rojões subião ao ar sem cessar e de uma maneira febricitante e o povo saudava como doido essa nova aurora que apontava um horisonte radiante de felicidade para esta nossa grande patria. (...) Foi uma festa nunca vista em Campo Largo."

O coronel que não queria ser governador

Finda a monarquia, Jesuíno Marcondes, presidente da província do Paraná, foi informado sobre uma reunião de militares, na qual passaram um telegrama para a corte aderindo ao movimento republicano. O político, então, mandou chamar o coronel Cardoso Junior para “entregar-lhe a responsabilidade da ordem publica”, conta o Dezenove.

Cardoso Junior recusou-se, de início, a assumir a função máxima da província - que em breve se tornaria um estado da federação. Na noite do mesmo dia, porém, chegou um telegrama do chefe do governo provisório, recomendando ao coronel que mantivesse a ordem pública (ou seja, que assumisse o governo). 

No dia 17, então, a Câmara Municipal aclamou Cardoso Junior como primeiro Governador (ainda que provisório) do Estado do Paraná. Um governo que não duraria nem um mês – o coronel deixou o cargo em 4 de dezembro e o Paraná teria, até 1894, outros 11 governadores.

O adeus do monarca: “Esta gente perdeu a cabeça”

Expatriados após o golpe militar liderado por Deodoro, a família Real foi obrigada a deixar o Brasil e rumar para a Europa. Ao Imperador foi concedido o subsídio de 800 contos enquanto a Constituinte não se reunisse, mais 5 mil contos para despesas de viagem. Embora não tenha oferecido grande resistência, porém, Dom Pedro II, obviamente, não gostou nada das notícias que recebeu.

Conta o jornal Gazeta de Notícias, em relato transcrito pelo Dezenove, que o tenente-coronel Mallet (que hoje dá nome a um município paranaense), no paço do Rio de Janeiro, procurava convencer “o velho imperador” a embarcar. O monarca, porém, recusava ir embora na calada da noite. “Retirar-me-hei do Brazil, porem de dia”, teria dito.

O Barão de Jaceguay, então, interveio, explicando que se o monarca fosse embora durante o dia, poderiam ocorrer manifestações. “E são muito naturaes, porque o povo gosta de mim”, comentou D. Pedro II.

"De certo; mas ao governo incumbiria o dever de reprimi-las. Vossa majestade embarcaria do mesmo modo; correria sangue; poderia morrer alguém da família impedial", rebateu o barão.

D. Pedro II, então, deu-se por vencido. Mas antes deu um recado aos súditos: "O senhor convenceu-me", teria dito o já ex-imperador. "Reinei cinquenta anos e consumi-os em carregar maus governos. Já estou cansado. Tudo isto foi uma surpresa para mim. Não sabia de nada. Vou embarcar de noite, como se fugisse. Tudo isso porque essa gente perdeu a cabeça. Só eu conservo boa a minha cabeça branca. E quero que saiba disto que estou lhe dizendo."

Publicidade

Plantão de Notícias

Mais notícias

DESTAQUES DOS EDITORES