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Iglu de aço e concreto sedia festival de música erudita e popular em Trancoso

TRANCOSO, BA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quase toda tarde, se não estiver chovendo, centenas de andorinhas azuis executam um balé sobre o teatro L'Occitane, erguido no meio do nada, a 20 minutos do centro de Trancoso, capital dos endinheirados na Bahia.

Elas pousam sobre os dedos da enorme estrutura de concreto construída em formato de mão virada para o céu. Isso é fato raro segundo estudiosos dos bichos, para quem andorinhas azuis gostam de ficar apenas em árvores ou fios. Barulhentas e abundantes, fazem uma combinação excelente com a música erudita que emana daquela construção.

Pois é disso que se trata o L'Occitane: é o centro do Música em Trancoso, que teve sua oitava edição na última semana de março, com 300 artistas de diversos países e vertentes musicais. Produzido pelo Mozarteum Brasileiro, o festival neste ano contemplou música clássica e popular, jazz latino, opereta e zarzuela, um gênero lírico dramático espanhol.

Erguido no meio da mata, como o navio de Fitzcarraldo na Amazônia, o teatro tem dois palcos no formato de anfiteatros. Um em cima, ao ar livre, para mil pessoas, e outro idêntico embaixo, aberto nas laterais, com o mesmo número de cadeiras, para quando chove.

Está no meio do condomínio Terravista, que possui ainda um campo de golfe e um aeroporto próprio para os empresários que possuem suas casas de verão de 750 metros quadrados ali. Duas praias, da Tartaruga e do Taípe, são praticamente exclusivas do grupo, já que o acesso por terra só é feito pelo condomínio.

É gente do quilate do austríaco Reinold Geiger, CEO mundial da empresa de cosméticos L'Occitane, que pagou, com seu dinheiro pessoal, a construção do teatro, ao custo de 9 milhões de euros (R$ 40 milhões).

Uma segunda construção tem oito salas de ensaio, escritório e um bar. No festival deste ano, além de taças espumante a nacional a R$ 30, o apreciador de música podia degustar uma garrafa de Dom Pérignon a R$ 1.200.

A alemã Sabine Lovatelli, uma das criadoras do Mozarteum Brasileiro em 1981, e seu marido, Carlo, comandam as atividades eruditas em Trancoso. "Boa parte da população aqui vivia do turismo de dez dias no final de ano. Buscamos melhorar isso, ao mesmo tempo que não fosse algo que trouxesse turismo excessivo", conta Sabine. "Em 2012, fizemos o primeiro festival de música erudita, com diversos gêneros, e a aceitação foi enorme."

Em 2019, ao lado de peças mais pesadas, como o "Réquiem", de Verdi, o festival teve uma noite dedicada a Tom Jobim, com Paula e Jaques Morelenbaum, e uma apresentação de Elba Ramalho cantando a obra de Dominguinhos, o que resultou no público de pé dançando no teatro erudito.

O L'Occitane não fica ocioso no resto do ano. Há eventos de canto em junho, de fim de ano e também recebe festas, casamentos e comemorações para quem se dispor a alugar o local.

Os outros nomes fortes do Terravista são Carlos Eduardo Bittencourt e François Valentiny. Esse último é um arquiteto, morador de Luxemburgo, que desenhou o teatro (sem cobrar) e comandou sua construção.

"O clima tropical e as chuvas levaram a esse desenho clean. É um meio iglu, feito de aço e concreto, criado para refletir o som", diz Valentiny, que tem em seu currículo salas como a ópera de Salzburgo.  

"Temos hoje cerca de 30 patronos para o teatro", conta Carlo Lovatelli, que apresenta de forma bem-humorada todos os espetáculos do festival. Esses patronos contribuem com algo entre R$ 5 mil e R$ 10 mil ao ano para a manutenção do lugar.

Apesar de os ingressos não serem populares (neste ano cada um custou R$ 200), a organização reserva entre 10% e 30% para os moradores da região, por um décimo do valor.

A comunidade de Trancoso também se beneficia de workshops e masterclasses gratuitas com músicos, além de aulas de iniciação musical nas escolas públicas da região. Alguns alunos recebem bola para estudar fora do país.

E, durante o festival, no centro da cidade, há concertos gratuitos na Praça do Bosque. Um dos realizados neste ano foi o de trilhas sonoras famosas do cinema, tocadas pela Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás.

*O jornalista viajou a convite do festival Música em Trancoso.

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