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Maternidade

Intolerante

Desde que recebeu o diagnóstico, relutou. “Dani, você é intolerante”, era o Dr. Marcos, endocrinologista responsável pela notícia. Primeiro foi ele se referindo à lactose, depois o Dr. Fred, nutrólogo, ao glúten. “É intolerância isso aí.” Tem até vergonha de repetir, acredita? Não por causa da lactose, ou muito menos do glúten, acostumou já – mentira é horrível. O problema é a palavra. Que ridículo não tolerar, não dar conta de, não poder se haver com. Não é?

Não, não é.

Mas pode ser, claro. A depender da intolerância. Quando ela é de outra ordem, quando não se tolera um outro que não vem do mesmo lugar, que não pensa, age, ou crê como você, aí, é mais que ridículo. E dessa imagem Dani sempre fugiu com força. E com sucesso. O problema era se ver assim, oficialmente, incompetente para lidar com “o açúcar do leite”, como explicava o Dr. Marcos. “Você não é capaz de quebrar a molécula, sabe?”, ele repetia, como se nada fosse. “Você não é capaz ponto”, ela escutava. “5% da população brasileira não consegue administrar o Glúten”, amenizava o Dr. Fred. “95% consegue”, ela sentenciava. E é preciso cortar totalmente?

Sim, é.

Cortou. Por cinco longos anos. Totalmente. E o negócio lhe fez bem, viu? Nunca esteve tão saudável quanto naquele período. Emagreceu, esqueceu as enxaquecas, ganhou uma disposição danada. O suficiente para ter a ideia: “vou flexibilizar”. Primeiro o leite, depois o glúten. Aos poucos, o corpo acostuma. E foi um tal de pão com manteiga... Um chocolate no fim da tarde, um macarrãozinho aqui outro acolá, pizza, queijo e iogurte que não teve “aos pouquinhos” coisa nenhuma. Dani debandou. E, por debandar, se viu exposta a todo tipo de dor, desconforto, mal-estar. M-A-L-E-S-T-A-R. Já parou pra pensar nessa palavra?

Talvez.

Incrível como ela pode se tornar fácil de tolerar, não é? Flexibilizamos as nossas próprias demandas com uma simplicidade que faz pensar. Essa Dani que inventamos aqui se verá autorizada a assumir a sua impossibilidade mais cedo ou mais tarde. Que bom. E nós? Quanto mal-estar estamos dispostos a administrar antes de acolher as nossas faltas? Boa semana queridos

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