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Histórias tristes: projeto já cobriu com caixas de leite frestas de 400 casas precárias na RMC

Trabalho do Brasil sem Frestas cobre as paredes de moradias precárias: contra o frio
Trabalho do Brasil sem Frestas cobre as paredes de moradias precárias: contra o frio (Foto: Divulgação)

Nos últimos três anos o projeto Brasil Sem Frestas, em que voluntários utilizam caixas de leite para vedar residências precárias, já ajudou cerca de 400 famílias em situação de extrema pobreza em Curitiba e região metropolitana. Esta época do ano, em pleno inverno curitibano, o projeto está no auge da atividade e precisa de ajuda.

Por atuar em ocupações irregulares, o grupo de voluntários evita formalizar a atividade como organização não governamental, por exemplo, para não correr o risco de ser impedido de agir e, portanto, não tem outra fonte de recursos que não seja por meio doações diretas da população.

Sem entrar em qualquer discussão de mérito, o objetivo é simples: ajudar pessoas que estão expostas ao vento e a chuva. Responsável pela coordenação em Curitiba, a ativista Tânia Maria Machado Ribas afirma que 90% das famílias atendidas são chefiadas por mulheres e possuem crianças pequenas.

“A gente só trabalha em área de invasão. Por isso reluto em fazer a ONG, porque não sei se vão deixar a gente trabalhar nesses lugares de maneira formal. Só se faz isso com doações. Não tem nem CNPJ, nada oficializado ainda. Sei que estão erradas (famílias invasoras), mas é o único lugar que elas tem para ir”, pontua.

Devido às diversas experiências que teve em três anos de atuação no projeto, Tânia pensa em escrever um livro. “São histórias. Só eu tenho mais de duzentas para contar. E cada uma tem uma história diferente. Geralmente são famílias muito grandes. São pessoas que não tem estudo nenhum. Não têm condições (nem de trabalhar). Não têm condições!”, exclama.

Fome

Entre os casos que chamaram mais atenção, Tânia menciona “a fome” como mais chocante. De “telha moída” para comer a “restos atrás da geladeira”, ela conta que é testemunha da miséria em Curitiba e região.

“O que realmente toca a gente é a fome. Muitas famílias, mais do que se imagina, não têm o que comer. Eu já vivenciei uma senhora que comia telha moída. Aquilo foi chocante. Já vi crianças comendo resto de comida que estava atrás de móvel que a gente arrasta. A gente arrastou uma geladeira e atrás tinha alguns restos e as crianças pegaram para comer na hora. Muito triste”, lembra.

As situações de miséria relatadas por Tânia são diversas. “Muita gente em lugar pequeno, sujeira, colchão molhado. Banheiro nunca tem. Nós, voluntários, saímos de casa já com a ideia na cabeça de que não poderemos usar banheiro. A gente já viu vaso sanitário dentro de um quarto, onde as pessoas dormem, sem encanamento, nada”, conta.

As famílias, segundo ela, além de quase sempre chefiadas por mulheres, tem cada uma suas tragédias que muitas vezes contribuem para as situações de miséria. “É marido que está preso, que vive em droga, ou um filho que tem problema, problemas de saúde, muita coisa. Eu sempre digo que todo o ser humano tem que fazer comigo uma casa dessa”, recomenda.

Sobre a declaração recente do presidente Jair Bolsonaro dizendo que “passar fome no Brasil é uma grande mentira”, Tânia diz que evita se posicionar politicamente, mas garante que o chefe do Executivo está errado.

“Eu nunca fui de me posicionar politicamente, já fui procurada por muito politico e nunca ninguém me ajudou, mas sobre isso de ‘ninguém passar fome no Brasil’, é mentira. Tem muita fome, sim”, garante. O presidente depois voltou atrás em seu comentário.

Entre os exemplos, cita o de crianças chorando por falta de comida. “Cheguei numa casa e tinha três filhos sentados atrás dela (a dona da casa) e os três estavam chorando. Perguntei por que eles estavam chorando e ela disse que estavam com fome. Dei cinco reais para ela comprar pão. Ela me trouxe o troco. Não queria dinheiro, era só comida mesmo. Um dos filhos estava com o braço quebrado e foi junto com a mãe, mas quando viram que o dinheiro que dei era para comprar pão, eles quase brigaram para ir junto. Claro que não fiquei com o troco”, conta.

As ações do Brasil Sem Frestas ocorrem todas as quintas-feiras, com nove voluntários fixos, além de um sábado por mês com grupos que chegam a somar 30 pessoas. “Geralmente a gente leva uma cesta básica, mas nesse dia eram quatro casas e não tínhamos quatro cestas para levar no dia. Então, toda ajuda sempre é bem-vinda”, reforça.

Demanda é grande e projeto precisa de doações

As demandas por ajuda são em dinheiro, com cestas básicas ou material utilizado na ação. “Caixas de leite, fios de náilon, grampo de estofador. O grampeador tem vida útil e não tem assistência (para arrumar). Eles custam R$ 80, então, imagina, quando a gente tem 40 pessoas, vai bastante”, conta. Embora reconheça as dificuldades, Tânia afirma que o resultado a motiva a continuar.

“Quando a gente fala que vai fazer com caixinha de leite, as pessoas pensam de uma forma, mas quando veem a casa pronta, ficam muito impressionadas, porque fica mais bonito e afeta até a autoestima da pessoa. A gente já recebeu foto da pessoa deitada na cama dizendo ‘olha, agora estou dormindo mais quentinha’. Esse tipo de coisa é que faz com que a gente continue trabalhando”, diz orgulhosa.

Ela começou a trabalhar no projeto há três anos. “O projeto já existe em Curitiba faz seis anos. Eu já fiz mais de 200 casas. No trabalho de quinta eu conto com oito ou nove pessoas, a gente começa as 9 horas da manhã e volta às 3 ou 4 horas da tarde. E nos sábados, de 19 a 30 pessoas, uma vez por mês. A gente seleciona as casas através de líderes comunitários, de igrejas, ou associações. Nunca consigo entrar nas comunidades diretamente”, conta.

Tânia diz que escolheu essa atividade em razão da participação direta. “Eu estava procurando um trabalho voluntário e minha filha viu pelas redes sociais essa moça (Lizandra Falcão) pedindo caixas de leite. Eu comecei pedindo caixas de leite e me apaixonei pelo projeto. Eu sempre fui dona de casa e meus filhos já casaram e saíram de casa. Todo o voluntariado que eu procurava não me deixava por a mão na massa e foi o que me deu esse trabalho”, afirma.

Hoje, o Brasil Sem Frestas alcança 29 cidades do País. A ação começou em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, com a química Maria Luisa Camozzato. A ideia é dar dignidade às famílias a partir do conforto térmico.

“Desde que a casa esteja forrada, pode deixar o alumínio para fora, mas se não tiver forrada deixa a parte estampada (da caixa de leite) para dentro que serve como um ar condicionado”, compara. A durabilidade depende de como a instalação é conservada. “A caixa de leite dura cem anos, mas como é grampeada tem que cuidar. Quando tem criança, depende muito, mas geralmente vai até o fim da vida do barraquinho delas”, diz.

Curitiba tem pelo menos 50 mil famílias vivendo em residências consideradas precárias, em ocupações irregulares. Somente as famílias cadastradas na Companhia de Habitação de Curitiba, em busca de uma residência popular, são 53 mil familias. 

Quem quiser ajudar o Brasil Sem Frestas pode entrar em contato com Tânia pelo telefone (41) 98449-5213. Os endereços para entrega de doações e outras informações podem ser encontrados na página do projeto no Facebook (Brasil Sem Frestas - Curitiba).

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