Êxodo Urbano

Efeito da pandemia: isolamento social faz paranaenses trocarem a ‘cidade grande’ pelo campo

“Eu quero uma casa no campo”, ganhou força com a pandemia
“Eu quero uma casa no campo”, ganhou força com a pandemia (Foto: Franklin de Freitas)

Ao que tudo indica, cresce o número de pessoas interessadas em compor rocks rurais, ficar no tamanho da paz ou qualquer coisa bucolicamente parecida. Isso porque, seguindo o canto imortalizado por Elis Regina, cada vez mais gente está interessada em ter uma casa no campo, o que tem levado à migração da ‘cidade grande’ para áreas mais afastadas e ruralizadas, numa tendência que ganhou força com a pandemia do novo coronavírus.

Recentemente, inclusive, uma pesquisa da Datastore conseguiu mensurar o interesse dos brasileiros nesse êxodo urbano. Considerando a tomada de decisão no curto prazo (12 meses), 1,32 milhão de famílias querem adquirir um imóvel fora da cidade, o que representa um incremento de 529,4 mil famílias interessadas em comprar uma propriedade na zona rural em 2021, um aumento de 66,9%.

Na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), conta ainda Marcus Araújo, CEO e fundador da Datastore, mais de um quarto das famílias (entre 26 e 27% do total) estariam interessadas em adquirir um imóvel desse tipo, que até pouco tempo era chamado de “terceira residência” — no mercado imobiliário, o que costumava acontecer é que a pessoa primeiro comprava a casa própria, na cidade; depois, já com mais dinheiro, comprava uma casa na praia; e mais tarde, conseguindo mais grana ainda, comprava uma casa no campo.

“O que notamos é que há um interesse grande nos imóveis de campo e praia, que eram opções de segunda e terceira residência. Foi um salto muito grande, que surpreendeu a todos, porque esses imóveis, na realidade, deixaram de ter essa classificação [de segunda e terceira residência], passaram a ser a residência definitiva”, explica Araújo.

Seriam dois ainda os fatores principais que puxam esse movimento: a menor densidade populacional dessas localidades mais interioranas (o que implica em menor risco de aglomerações e maior liberdade de deslocamento, contato com a natureza e etc) e a possibilidade de trabalho à distância, o chamado home office, que ganhou muita, mas muita adesão em face da crise sanitária. Mas se há a necessidade de se trabalhar remotamente, também é necessário que o local buscado ofereça bom acesso à internet, o que tem feito valorizar as ‘bordas’ das grandes cidades.

“A localização não vem mais em primeiro lugar, o que vem é a conexão. Os imóveis mais buscados hoje são aqueles que possibilitam desenvolver o trabalho online. Pode até ser um apartamento, mas desde que tenha uma varanda. Mas houve uma migração grande pros produtos horizontais, com jardim, quintal, verde”, afirma ainda o CEO da Datastore, citando que, na RMC, municípios como Araucária e Fazenda Rio Grande estão entre as mais valorizadas. “As laterais, as bordas valorizaram muito, porque ainda tem o canto dos pássaros, o ar, o verde, menos adensamento e, ao mesmo tempo, boa conexão e acesso.”

‘Pandemia restringe cenário de negócios, mas não a demanda

A expectativa de Marcus Araújo, CEO e fundador da Datasotre, é ainda que o ano de 2021 seja melhor do que o de 2020. Segundo ele, a pandemia até tem restringido o cenário de negócios, com maior lentidão para o encaminhamento da parte burocrática para lançamento de um novo empreendimento, por exemplo. Por outro lado, a demanda não foi restringida. Na realidade, pelo contrário: a demanda aumentou.

“Pessoal em casa, começa a sentir a necessidade de um ambiente a mais ou até um ambiente a menos, se a pessoa já não quer mais ter tanto trabalho, pagar condomínio alto”, diz Araújo, citando a possibilidade de faltar produto. “Estoque quase nulo, venderam como nunca. Investidores voltaram para o mercado imobiliário, mas estamos com poucos produtos disponíveis e uma grande demanda reprimida.”

Crédito

Perda de renda compensada

Um cenário que também tem ajudado o mercado imobiliário é a facilitação no acesso ao crédito, com queda na taxa básica de juros (Selic),, o que gera um poder aquisitivo. Na prática, então, alguns que perderam renda na pandemia conseguiram ganhar ou recuperar um pouco do poder aquisitivo com o acesso ao crédito com juros mais baixos. “A demanda vai desde o lote popular até o terreno em condomínio fechado sofisticado.

Mas tem um perfil importante: a idade média [do comprador] é de 43 anos, então é o imóvel da vida, praticamente”, aponta Marcus Araújo, citando ainda o recorde no acesso ao financiamento imobiliário, que cresceu 58% em 2020. “Do recorde de financiamento, a portabilidade não foi o grande produto, mas a nova compra. Então não foi pessoal querendo refinanciar com outro banco, negociando a dívida. É gente que está trocando de imóvel, vendendo o antigo para comprar outro”.