Lágrimas

Jogador do Paraná Clube faz desabafo em entrevista coletiva e ganha aplausos

Guilherme Santos, em entrevista coletiva nessa terça-feira
Guilherme Santos, em entrevista coletiva nessa terça-feira (Foto: Divulgação/Paraná Clube)

Os encontros entre jogadores de futebol e imprensa normalmente são marcados por respostas padronizadas e muita monotonia. Nessa terça-feira (dia 1º), porém, foi o dia de uma entrevista coletiva inédita na história do futebol paranaense. O lateral-esquerdo Guilherme Santos, 31 anos, resolveu quebrar o tédio tradicional e impressionou jornalistas com respostas sinceras. No fim, ganhou até aplausos.

Nas primeiras respostas da entrevista, Guilherme Santos já mostrou personalidade e sinceridade ao falar sobre o jejum de vitórias na Vila Capanema, sobre a motivação para o clássico de sábado (contra o Coritiba) e sobre críticas de torcedores. Em seguida, o jogador lembrou dos momentos difíceis que passou na vida e na carreira; e acabou se emocionando, não conseguindo conter as lágrimas.

Revelado pelo Vasco, Guilherme Santos jogou com Romário. Também atuou com Felipe Melo no Almería, da Espanha. No Paraná, o lateral-esquerdo contou que tenta passar um bom exemplo para os jogadores mais jovens. “Você tem que aprender com tudo que você passa. Tento passar isso para eles. Não posso olhar pra trás e ficar frustrado, se não vou ser um a menosa aqui. Tento passar para eles: 'cara, aproveita, tenta fazer diferente. Aí o cara diz: 'mas estou no Paraná, na Série B'. Eu tento ajudar, mas não sou de falar muito. Essa geração de hoje é complicada, esse moleques novos. Você fala com eles e eles são cabeça-dura. Aí eu não gosto muito porque eu tenho meu lado cabeça quente e tal. Então eu tento ajudar nesse lado de companheiro, de amigo, de lutar por eles, de mostrar ajuda. Melhor ser assim do que ficar falando”, comentou. “Eu aprendi isso com o Felipe Mello, quando joguei com ele no Almería. Ele falava pouco, mas as atitudes mostravam muito. Peguei esse jeito dele. É um cara sensacional. Eu olhava para ele e pensava assim: eu quero ser igual esse cara. E aqui no Paraná é um dos poucos lugares que eu aproveitei”, disse Guilherme, que começou a chorar nesse momento. “É importante isso, se sentir importante para o elenco. Tive que passar pela dor, infelizmente. Foi difícil, mas aprendi e tô vivo”, desabafou.

Perguntado sobre o passado e o motivo das lágrimas, Guilherme Santos explicou. “Quando eu falo do meu passado é sobre como foi difícil eu chegar lá. Joguei em grandes clubes. Aí você deixou passar aquela oportunidade. Teve coisa que me desfocou um pouco do futebol. Chegou um momento que cheguei a me envolver em coisas que me trouxeram tristeza. E a vida não ensina de uma maneira amorosa. Fiquei envolvido em problemas com drogas, com prisão, problemas de comunidade. Fui de uma comunidade difícil. Sempre quis defender a favela, porque achei que a minha força, por eu ser jogador... mas eu não tinha maturidade”, revelou. “E quando eu abri os olhos eu tinha 30 anos. Eu abri os olhos tarde. Agora eu me cobro muito porque eu quero dar a volta por cima”, disse.

Guilherme Santos lembrou que chegou a ser indicado para a seleção brasileira pelo coordenador das seleções de base da CBF, o ex-lateral-esquerdo Branco. “O Muricy e o Branco falaram de mim no programa Bem Amigos (SporTV) como um substituto de Marcelo na seleção brasileira. Lembrar de tudo isso me dá ‘uma coisa’ por não ter aprendido antes a não cometer os erros”, declarou o jogador, que atuava no Santos quando Branco deu aquele entrevista.

Veja outros assuntos comentados por Guilherme Santos nessa terça-feira ou clique aqui para assistir à entrevista completa no Facebook da rádio Transamérica.

JEJUM DE VITÓRIAS NA VILA CAPANEMA
“É um assunto que incomoda a todos. Tem que ser falado. É normal. A gente tem que bater nessa tecla para lembrar que o momento é de mudança. A gente tem que encarar isso com seriedade. O clássico é um divisor de águas. Esse clássico conta muito. E dentro de casa a gente está em dívida. Nada como uma oportunidade como essa”

MOTIVAÇÃO
“A gente, jogador, já tem sua motivação já pronta. Porque a gente já vem, alguns já vêm do histórico de vida, é so olhar para nossa vida passada, de sofrimento. No meu caso, não precisa que alguém diga as coisas pra mim, não precisam dizer se eu sou bonito ou sou feio. Eu olho o meu passado, o que eu passei para eu chegar até aqui e é suficiente. Ainda mais estamos em um clube grande como o Paraná, com essa torcida, com um estádio como esse. Isso tem que te motivar. A motivação que tem que fazer ainda mais pilhado é isso: você se autoavaliar e ver o clube que você está. No meu modo de ver, o Paraná é um clube que merece muito respeito. Sempre esteve brigando por grandes situações no Brasil”.

VILA CAPANEMA
“É um estádio difícil. Eu já vim jogar contra. É difícil. Em 2017, no acesso, era um palco importante. E isso tem que voltar. Apesar de ter jogadores novos no elenco, tem que ter esse amadurecimento de entender que a torcida cobra, pressiona, mas não deixar que isso tire o foco da gente da partida. Não pode desconcentrar na hora de fazer uma jogada. É se concentrar e trazer isso para o lado positivo. Quando traz para o lado negativo, começa a ficar puto e achar desculpas. Nada vai vir do céu. Temos que trabalhar. Entendo que a importância desse clássico... é um jogo que define muitas coisas. Eu subi da base pro profissional por causa de um clássico, Vasco e Flamengo.
É sem palavras para definir o clássico. Já joguei alguns na minha vida, até fora do Brasil”

ESPÍRITO DE LUTA
“Esse sentimento de guerra, de batalha. Não só no futebol, na vida tem que ter. Falo para minha irmã isso. Eu saí de casa aos 12 anos. E sempre fui assim. Joguei futebol numa época que você não tinha opção. Tive que jogar no meio de Romário e Leandro Amaral. Você não tinha opção. Ou você fazia acontecer ou não jogava. Hoje o futebol mudou um pouquinho. Hoje você não vê tanto essa disposição. Eu creio que aqui no Paraná tem acontecido. Aqui é mais emocional também. Os atletas até querem. A gente treina bem, treina pra caramba, se esforça e corre. Aí chega no jogo parece que a gente quer fazer, mas se o mental não estiver treinado para aquilo, aí não adianta. Você corre em vão. Tudo é através do mental. Se o seu mental estiver bem pra você correr, pegar, brigar, competir, isso aí você consegue jogar até contra o Real Madrid aqui dentro da Vila. Se você deixar o mental te abater com os que as pessoas falam, aí você vai ser um a menos em campo”

LADO ESQUERDO DO PARANÁ É O MAIS MARCADO PELO ADVERSÁRIO
“Desde a minha chegada, sempre frisei que procuro fazer o melhor. Enquanto eu não faço algo que não chame a atenção eu fico P da vida, chego em casa brabo. Os treinadores vão observando e vão te marcando. Então cada dia eu tenho uma estratégia nova. Cada atleta do nosso time tem que ter uma estratégia nova para cada jogo. Eu me cobro isso. Eu olho meus vídeos. Você vai se autoavaliando. Cada um tem que ter esse feeling. Não vou ser uma presa fácil. A autoavaliação faz você crescer mais”