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Juventude e violência

Ninguém desconhece o quanto o conceito de juventude está associado a uma certa combinação de violência, rebeldia, criatividade e força vital característicos desta fase da vida.

As paixões se sucedem, o simples ato de viver traz novos amores, mas também um forte poder destruidor, da mesma forma como nos domínios de qualquer vida orgânica: todas as coisas ou evoluem ou decaem e morrem, e biologicamente uma forma de violência se manifesta, a natureza é expansionista. Plantas crescem em detrimento de outras, animais disputam espaço entre as mesmas espécies, e também com as demais, predadores existem para todas as formas de vida.

É esta função estimuladora da vida, junto à agressividade no reino animal, que fazem a violência ser exaltada como uma manifestação de vigor vital e especificamente de sua criatividade, que parece inerente ao desenvolvimento.

Nos humanos jovens alguns valores entram em discussão: os sentimentos de honra, os desejos de bens materiais, de glórias e mesmo fama entram em conflito com os “bons sentimentos”, as competições se acirram, e uma espécie de disputa territorial – que vemos claramente nos demais animais, mas são um pouco camufladas em humanos – provocam atritos nem sempre fáceis de solucionar.

Jovens se agrupam, por identidade ou proximidade, algumas vezes com bons propósitos, porém muitas vezes a hostilidade contra outros grupos é o constituinte da união, e a impetuosidade de cada participante aumenta a agressividade de todos.

Não é simples a socialização dos adolescentes, pois envolve processos de aquisição de habilidades e atitudes que irão credencia-los ao exercício futuro de uma função ou atividade profissional, porém antes de mais nada terão que assegurar seu lugar na comunidade do entorno, e embora sempre pensemos nesta fase como tendo um caráter universal, os conflitos identitários costumam ser menos dramáticos naqueles jovens de classes sociais mais privilegiadas que não têm a luta pela sobrevivência como item principal de preocupações.

No entanto, mesmo nas condições de vida extremamente adversas, desde que as necessidades básicas de alimentação e agasalho estejam supridas, a crise de identidade característica é bastante visível; e é preciso considerar ainda que ao longo do século vinte, a relação entre pais e filhos se alterou significativamente no mundo ocidental, a imposição de normas rígidas de conduta na interação entre adultos e jovens foi bastante alterada, com a glorificação da juventude em detrimento do que se considerava maturidade, identificada com intransigência e autoritarismo.

Temos um agravante nos dias atuais, o aparente desprezo pelos valores culturais, e as pessoas com melhor “preparo” intelectual estão alijadas das funções de mando, e perderam o prestígio pois apenas o poder encontra eco nos relacionamentos . Sem um bom exemplo, sem uma meta de maior conhecimento do mundo e de si próprio, o jovem perde a referência cultural para a melhoria, pois embora haja razões tanto para pessimismo quanto para o cinismo, a mola propulsora do avanço comunitário ainda parece estar na dependência dos intelectuais e nas suas possibilidades de inovar em ciência, tecnologia e inter-relacionamento social.

Assistindo nos dias que correm nossos dirigentes máximos glorificando a violência em abstrato, exaltando o comportamento destemperado e mostrando publicamente o contemporâneo discurso mal-educado e ofensivo que não poupa sequer líderes de outros países, que dirige palavras de baixo calão a jornalistas e eleitores que buscam explicações para atos estranhos e contrários ao bom senso, é fácil perceber que os jovens tem modelos de desregramentos bem definidos.
Escolas sofrem diretamente as consequências, por se constituírem em locais onde a hierarquia do conhecimento, da prática e da experiência de vida deveria prevalecer sobre a inexperiência e a necessidade de aprendizagem. Não está exatamente fácil controlar a impetuosidade dos jovens.


Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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