Sala de Aula

Leitores

Embora os discursos oficiais estejam louvando uma certa ignorância primitiva, como se esta fosse sinônimo de sinceridade, é urgente  conter o distanciamento entre a leitura e a maior parte das pessoas, mesmo naquelas camadas onde o livro foi uma realidade bem mais presente até poucos anos atrás, como estudantes e professores, pois tem sido visível que livros já foram mais desejados como presentes em aniversários ou festas natalinas, mais poesias foram escritas em diários, mais cartas ou e-mails longos foram enviados, e portanto lidos.

É preciso considerar que a leitura é processo que envolve várias dimensões: uma relacionada diretamente com a capacidade cognitiva, pela necessidade de abstrair, que converte palavras encadeadas em significados; outra argumentativa, pois por meio da leitura apreendemos a ideia, o discurso presente no texto; ainda a simbólica, trazendo noção exata da cultura do meio ou da época relatada, e também a afetiva. Talvez esta última seja até mais importante depois de passado o tempo de escola, de aprendizagem, leitura traz memórias de várias fases da vida.

O suporte desta leitura, que tem se transformado ao longo dos séculos, de tabuletas de argila a pergaminho, ao papel e tela de computador, embora exijam novas habilidades cognitivas ou mesmo físicas, e modifiquem antigas referências – ah, o cheiro do papel para aqueles que cresceram com livros físicos – trazem outras possibilidades. Mais jovens devem lembrar algumas descobertas com um tablet nas mãos, um mundo aventuroso ou repleto de filosofias ao alcance de um click.

Na verdade, quando pensamos num leitor, estamos sempre definindo um ser híbrido: um humano, a linguagem utilizada, e um suporte material. Este está em mutação, as mudanças culturais tem sido intensas, e principalmente nesta fase de pandemia temos tido necessidade de reflexão e conhecimento de nossos processos internos para nos tornarmos mais resilientes, solidários e saudáveis. A leitura favorece este procedimento, pois envolve o silêncio, que por sua vez permite a compreensão de textos mais complexos, que nos torna aptos para a meditação, para a contemplação, para o entendimento de nossa civilização no tempo e no espaço.

Somos indivíduos imersos em multiplicidade de imagens e sons, cores e produtos oferecidos aos sentidos e à venda, e sem esta percepção, não teremos como resistir ao consumo num mundo cada vez mais acelerado. Boiamos entre as distrações e a obsessão, entre a falta e o excesso, navegamos em telas cheias de símbolos cuja exata pertinência não alcançamos, em rotas mais ditadas pela atenção às luzes, ao colorido, num labirinto que nem sempre conduz ao saber sobre algo, e sim à simples saturação do movimento entre palavras, imagens, filmes, registros, como espectadores daquilo que a tecnologia digital pode oferecer, como se desligados do domínio cultural e cognitivo.

Neste período de isolamento necessário, com o contato online passamos a ter acesso visual à residência de muitas pessoas com quem não temos maior intimidade. Colegas de trabalho, palestrantes, comentaristas, professores, jornalistas, coparticipantes de lives; enfim, pessoas que veríamos em escritórios, estúdios, salas de aula, ambientes mais formais e controlados. 

Com essa “indiscrição” constatamos com grande alívio que praticamente todos têm estantes com livros, ou pelo menos algumas obras ao alcance dos olhos e das mãos.

Embora tenhamos a tentação de “bisbilhotar” os títulos expostos isso nem sempre é possível, no máximo identificamos um ou outro que também possuímos e cuja lombada é mais particularizável.

Na verdade não importa muito: boa literatura, literatura medíocre, técnica, ficção, autoajuda, história, religião, política, clássicos, biografias, tudo constitui o registro de nossa civilização, do que fomos e somos para o bem ou para o mal. Cabe ao leitor escolher o que ler, e pensar no que leu.

 

Wanda Camargo – Educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.