Economia Criativa

Mercado cultural e intelectual do Paraná está 'sangrando' durante a pandemia

Artista de rua em Curitiba: setor foi um dos mais atingidos pela pandemia da Covid-19
Artista de rua em Curitiba: setor foi um dos mais atingidos pela pandemia da Covid-19 (Foto: Franklin de Freitas)

O mercado cultural/intelectual está sangrando no Paraná. Nos últimos anos, conforme um levantamento do Observatório Itaú Cultural, a chamada Economia Criativa viu o mercado de trabalho encolher em quase um quinto, num processo de deterioração que teve início em 2015 e chegou a apresentar alguma melhora (ainda que tímida) em 2018 e 2019, mas no último ano se agravou com a pandemia do novo coronavírus.

Conforme a pesquisa, divulgada nesta semana e que traz dados do último trimestre de cada ano analisado, o Paraná fechou 2020 com o menor número de trabalhadores (formais e informais) no segmento da Economia Criativa desde o início da série histórica, em 2012. Entre outubro e dezembro do ano passado, 397 mil pessoas sobreviveram desse mercado, uma queda de 8,4% na comparação com o mesmo período ano anterior, quando 434 mil trabalhadores atuavam no segmento. Em um ano, portanto, a indústria criativa fechou mais de 36 mil postos de trabalho.

Analisando-se a série histórica, verifica-se ainda que o auge do setor foi em 2014, quando a economia criativa chegou a empregar quase 489 mil paranaenses. Entre 2015 e 2017 foram registradas quedas consecutivas, com esse número caindo para 401.761. Já nos dois anos seguintes, num esboço de recuperação, o total de trabalhadores chegou a 434 mil.

Com a pandemia, contudo, esse mercado foi fortemente impactado e voltou a sangrar. Resultado: nos últimos seis anos o número de trabalhadores na Economia Criativa caiu 18,7% no Paraná, com o fechamento de mais de 91 mil postos de trabalho.

Dessa forma, o Paraná, que chegou a somar 7,05% do total de trabalhadores na Economia Criativa em todo o país, hoje representa apenas 6,01% desse mercado de trabalho. Em 2015, apenas São Paulo (30,7%), Minas Gerais (9,39%) e Rio de Janeiro (8,72%) ficavam na frente. Hoje, São Paulo (30,82%), Minas Gerais (9,66%) e Rio de Janeiro (9,45%) seguem em vantagem, mas o Paraná também foi superado por Santa Catarina (6,37% do total de trabalhadores no país).

Profissionais de T.I.

Em todo o país, o levantamento do Observatório Itaú Cultural indica que foram fechados 458 mil postos de trabalho formais e informais entre o quarto trimestre de 2019 e o quarto de 2020, com o número de trabalhadores na Economia Criativa passando de 7.137.912 para 6.679.994, uma retração de 6,4% a nível nacional.

O resultado só não foi pior porque no último trimestre do ano passado houve um aumento próximo a 115 mil trabalhadores em Tecnologia da Informação, um crescimento de 24% em relação a igual período do ano anterior. Isso se explica devido às restrições de circulação trazidas pela pandemia, que aumentaram a demanda e deram relevância aos serviços e plataformas online adotados por segmentos diversos da população.

Trabalhadores da Economia Criativa

Ano

Nº de trabalhadores no Brasil

Nº de trabalhadores no Paraná

% de trabalhadores no Paraná

2020

6.614.504

397.333

6,01%

2019

7.137.912

433.557

6,07%

2018

6.853.174

430.174

6,28%

2017

6.779.624

401.761

5,93%

2016

6.561.093

446.286

6,80%

2015

6.839.755

481.929

7,05%

2014

7.404.292

488.609

6,60%

2013

6.616.946

432.748

6,54%

2012

6.926.599

477.104

6,89%


Autônomos foram os mais prejudicados pela pandemia

Um outro estudo, divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que aquelas pessoas que trabalham por conta própria foram as mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus no Brasil. No segundo trimestre do ano passado, inclusive, a categoria chegou a receber 24% a menos do que a renda habitual. No quarto trimestre, o indicador recuperou-se levemente, mas continuou abaixo dos níveis anteriores à pandemia, com recuo de 10%.

Os trabalhadores privados e sem carteira receberam 13% a menos do que a renda habitual no segundo trimestre e 4% a menos no último trimestre do ano passado. Os trabalhadores privados com carteira assinada não tiveram perda no segundo e no terceiro trimestres de 2020 e encerraram o último trimestre do ano passado ganhando 5% acima da renda habitual. No serviço público, os trabalhadores receberam 1% a mais que a renda habitual no segundo trimestre, 3% no terceiro trimestre e 5% a mais no último trimestre do ano passado.

Ainda, quem permaneceu empregado foram os trabalhadores de renda relativamente mais alta, que puxam o rendimento médio habitual para cima.

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O que é Economia Criativa

A Economia Criativa, em suma, é um segmento que surge (como o próprio nome indica) a partir da relação entre economia, criatividade e campo simbólico, abrangendo um conjunto de atividades que engloba setores como patrimônio (artesanato, festivais, museus, bibliotecas), artes (pinturas, esculturas, fotografias, música, teatro, dança, ópera, circo), mídia (livros, imprensa, cinema, televisão, rádio) e criações funcionais (arquitetura, propaganda, recreação, jogos digitais, design).

O estudo o Observatório Itaú Cultural, por sua vez, se baseou no modelo de intensidade criativa de Hasan Bakhshi, Alan Freeman e Peter Higgs, calcado em cinco conceitos. Tem esse perfil aquele que atende a pelos menos quatro desses critérios: capacidade de resolver problemas ou atingir objetivos de maneira inovadora, com o emprego claro e frequente da criatividade; a sua tarefa não tem como ser realizada por máquinas; não repete nem uniformiza uma função, de modo a que o impacto no processo produtivo seja diferente a cada vez que atua, a depender do contexto da tarefa e das capacidades cognitivas por ela acionadas. Os outros dois conceitos são: a contribuição criativa desse trabalhador à cadeia de valor, atuando em qualquer setor que traz inovação e/ou criações, e a interpretação, não mera transformação do trabalho.