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Pediu pra sair

Levy entrega carta de demissão do BNDES após ultimato de Bolsonaro

(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Após ser alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro ontem (16 de junho), quando o político do PSL disse "estar por aqui" com o chefe do Banco Nacional de Desenvolimento Econômico e Social (BNDES), afirmando inclusive que ele estaria "com a cabeça a prêmio", o presidente do banco estatal, Joaquim Levy, pediu demissão do cargo.

Em carta enviada ao ministro da Economia, Paulo Guedes, Levy, que foi ministro da Fazenda no início do segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), afirmou ter solicitado seu desligamento do BNDES. "Minha expectativa é que ele (Guedes) aceda. Agradeço ao ministro o convite para servir ao país e desejo sucesso nas reformas. Agradeço também, por oportuno, a lealdade, dedicação e determinação da minha diretoria", anunciou Levy.

A saída de Levy do banco de fomento é a primeira baixa na equipe do ministro da Economia e mais uma crise do governo.

Desde que assumiu o cargo, Levy vem tendo divergências com o presidente da República. A resistência por parte de Bolsonaro vem desde o governo de transição, sendo que em novembro de 2018 o presidente disse que, ao aceitar a indicação, precisava "acreditar em Guedes". Assim como o ministro, Levy fez doutorado na Universidade de Chicago - reduto do pensamento econômico liberal.

A polêmica mais recente, contudo, foi a nomeação de Marcos Barbosa Pinto para adiretoria da área de Mercado de Capitai do BNDES, que administra mais de R$ 100 bilhões em investimentos. Bolsonaro exigiu a demissão de Barbosa Pinto, que já havia trabalhado no banco durante o governo Lula. Ainda ontem, o diretor do BNDES também entregou uma carta de renúncia.

CRISE

Barbosa Pinto, no sábado, enviou uma carta a Levy, à qual a reportagem teve acesso, para renunciar ao cargo.

Bolsonaro havia dito pouco antes que o presidente do BNDES tinha de demitir o advogado ou seria demitido até esta segunda-feira (17).

O advogado, que foi assessor e chefe de gabinete da presidência do BNDES em 2005 e 2006, afirmou ter "muito orgulho" da própria carreira.

Ele, informalmente, ajudou o governo petista na elaboração de projetos de PPPs (parcerias público-privadas).

Em entrevista à revista Capital Aberto, Barbosa Pinto disse que colaborou na criação do Prouni, programa que concede bolsas a alunos carentes, com então ministro da Educação, Fernando Haddad (PT), em 2008. Bolsonaro venceu Haddad no ano passado.

Barbosa Pinto atuou ainda na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

No setor privado, de 2011 a 2018, foi sócio de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, na Gávea Investimentos. Integrou conselhos de administração de diversas empresas.

O advogado recebe elogios de economistas. A decisão de enviar a carta, mesmo sem ter conseguido conversar com Levy, foi para demonstrar que não tem engajamento partidário.

A intenção de não ser usado como pivô de disputa política na aérea econômica do governo pesou na decisão. Ele tomou posse na quarta-feira (12) e começaria a trabalhar na segunda.

Guedes indicou insatisfação com o trabalho de Levy à frente do BNDES em entrevista a Gerson Camarotti, do G1, neste sábado.

"O grande problema é que Levy não resolveu o passado nem encaminhou solução para o futuro", afirmou o ministro.

Guedes referia-se a investigações de possíveis responsáveis por empréstimos concedidos pelo banco a empreiteiras, nos governos do PT, para obras no exterior. Em troca, elas pagariam propina.

Até o momento, nenhum funcionário do banco foi apontado como participante do esquema, mas Bolsonaro e Guedes insistem no discurso de abrir a caixa-preta do BNDES.

Outro motivo de descontentamento do ministro com Levy é a resistência do economista em devolver o dinheiro injetado no BNDES no passado.

Guedes já disse que espera receber R$ 126 bilhões neste ano, mas Levy não se comprometeu com a cifra. Os recursos são tratados como necessários para ajudar no ajuste fiscal do governo.

DEMISSÕES

Na quinta-feira (13), o governo anunciou a saída do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, após seguidas crises com os filhos do presidente.

Em encontro com jornalistas, Bolsonaro disse na sexta (14) que demitiria também o general Juarez Aparecido de Paulo Cunha da presidência dos Correios por ter comportamento sindicalista.

Nesse mesmo dia, após críticas de Guedes ao relatório apresentado pelo deputado federal Samuel Moreira (PSDB-SP), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que o governo é uma "usina de crise".

No sábado, foi a vez de Bolsonaro ameaçar Levy.

O general do Exército da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas deixou a Funai (Fundação Nacional do Índio) na terça (11).

Desde o começo do ano, o governo registra quedas de nomes ligados à ala ideológica e militar.

Já deixaram o governo, além de Santos Cruz, Ricardo Vélez Rodríguez (ex-ministro da Educação) e Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral).

A Apex (Agência de Promoção de Exportações do Brasil) já foi comandada por Alecxandro Carreiro e Mario Vilalva.

Três já foram demitidos da presidência do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas), do MEC.

A CARTA DE LEVY, NA ÍNTEGRA

"Solicitei ao ministro da Economia Paulo Guedes meu desligamento do BNDES. Minha expectativa é que ele aceda.

Agradeço ao ministro o convite para servir ao País e desejo sucesso nas reformas.

Agradeço também, por oportuno, a lealdade, dedicação e determinação da minha diretoria. E, especialmente, agradeço aos inúmeros funcionários do BNDES, que têm colaborado com energia e seriedade para transformar o banco, possibilitando que ele responda plenamente aos novos desafios do financiamento do desenvolvimento, atendendo às muitas necessidades da nossa população e confirmando sua vocação e longa tradição de excelência e responsabilidade.

Joaquim Levy"

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