Dúvida

Médicos se dividem sobre necessidade de jogos com portões fechados

A determinação da CBF para que as partidas deste fim de semana nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro sejam sem a presença da torcida para evitar o contágio do novo coronavírus está longe de ser unanimidade para a comunidade médica. O Estado conversou com quatro especialistas em Infectologia e Medicina do Esporte e ouviu diferentes análises sobre a decisão. Há quem considere a medida como exagerada ou, por outro lado, há quem defenda que nenhuma partida seja realizada.

Segundo o médico e infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Paulo Olzon, a escolha por realizar partidas sem a presença de público não é necessária. "Em uma situação muito crítica isso (jogar com portões fechados) seria necessário, mas ainda não é o caso. Em um transporte público como metrô e ônibus, tem muito mais gente exposta e aglomerada do que em um estádio, em que há mais distância entre as pessoas e é um espaço mais arejado", afirmou.

Olzon explica que no Brasil, ao contrário da Europa, as temperaturas estão mais elevadas e favorecem que as pessoas tenham um sistema respiratório mais protegido. "As projeções de número de casos feitas pelas autoridades foram feitas em um cenário com base nos números de coronavírus no Hemisfério Norte, que está em período de inverno", disse.

Na opinião do infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Renato Grinbaum, fechar os estádios para o público deve se mostrar uma decisão pouco eficaz. "É preciso ter medidas coordenadas de ação, e não atitudes espalhadas e desorganizadas de combates ao coronavírus. Para que ter impacto, é preciso agir de forma planejada e coordenada pelo Ministério da Saúde. Até porque, fora dos grupos de risco, o coronavírus é um resfriado", comentou.

Por outro lado, o médico Ricardo Munir Nahas, especializado em esporte, ortopedista e traumatologia, defende que a restrição de público é correta, pois é preciso agir para evitar o aumento no número de casos. "No Estado de São Paulo a decisão é necessária principalmente pela quantidade de casos da doença. Para evitar o contágio, vale a lei de ter uma distância de 2 metros. Mas para eventos com grande público, isso não vai acontecer porque não tem como separar as pessoas", explicou. "Os próprios jogadores também podem disseminar a doença. Futebol é um esporte de contato", acrescentou.

O especialista avalia que pela velocidade com que o coronavírus tem se espalhado poderia ser pensado até mesmo no cancelamento das partidas. Quem pensa o mesmo é o infectologista Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Para ele, ainda há muito a se pesquisar sobre o coronavírus, como, por exemplo, conseguir se em situações de alta temperatura interferem na transmissão.

"A melhor decisão do momento é fazer jogos com portões fechados ou até adiar as partidas, como fez a Conmebol. No estádio as pessoas têm uma interação muito próxima. A grande orientação que a gente passa é para evitar aglomerações, mesmo que ainda não se tenha no Brasil uma grande transmissão comunitária do vírus", disse Weissmann.