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Cotidiano

Médium João de Deus é considerado foragido

(Foto: Marcelo Camargo/ABr)

ABADIÂNIA, GO (FOLHAPRESS) - A força-tarefa que investiga o médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido como João de Deus, considera-o foragido desde as 14h deste sábado (15).

A decisão foi confirmada em nota pelo Ministério Público (MP) de Goiás. O horário limite para que o suspeito se apresentasse foi fixado na sexta-feira (14). 

"O senhor João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, passou a ser considerado foragido, pois as diligências de localização em todos os seus endereços resultaram negativas e o comparecimento espontâneo não ocorreu nas 24 horas seguintes à ordem de prisão, a despeito das tentativas de negociação com a defesa", informou o órgão.

O MP acrescentou que o nome do médium será incluído na lista de procurados da Interpol. Com isso, ele poderá ser preso por qualquer autoridade policial brasileira ou estrangeira, caso saia do país. 

O mandado de prisão contra ele já está público e foi disponibilizado no Banco Nacional de Mandados de Prisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A Polícia Civil de Goiás percorreu, sem sucesso, cerca de 20 imóveis desde a sexta-feira, dia da ordem de prisão preventiva, à procura do médium e continua negociando a rendição.

No fim da manhã deste sábado (15), o delegado-geral da corporação no estado, André Fernandes, disse que as negociações para João de Deus se entregar estão evoluindo e que a apresentação dele poderá ocorrer neste domingo (16). Falta acertar com a defesa do médium a hora e o local da apresentação.

Ele afirmou ter conversado pela manhã com um dos advogados do suspeito, que deu garantias do cumprimento do mandado de prisão, mas não de imediato. Os advogados do médium, segundo Fernandes, informaram que vão precisar de tempo.

"Pode ser que não seja hoje [sábado]. Ele não deve estar em local próximo. Acho que ele pode estar em outro estado", declarou. Um acerto definitivo com a defesa só deve sair na noite deste sábado (15). 

Os investigadores acreditam que João de Deus possa estar ganhando tempo para que o Tribunal de Justiça de Goiás aprecie habeas corpus apresentado neste sábado (15) pela defesa, solicitando que o mandado de prisão seja revogado.

O CASO

João de Deus é suspeito de ter abusado sexualmente de mulheres durante os atendimentos espirituais que realizava na cidade de Abadiânia (GO). Ele nega as acusações.

Os casos começaram a tornar-se público após 13 mulheres relatarem as denúncias no sábado (8) durante o programa Conversa com Bial, da TV Globo, e ao jornal O Globo.

Na segunda (10), Aline Saleh, 29 contou sua história à Folha de S. Paulo: "Quem tem de sentir vergonha é ele, e não eu". Ela diz que, em 2013, esteve na casa e que foi levada para um banheiro, posta de costas e que João de Deus colocou a mão dela em seu pênis.

Segundo a Promotoria de Justiça de Goiás, 335 contatos já foram recebidos, com mensagens principalmente por email, incluindo também outros seis países (Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia, Estados Unidos e Suíça).

Também foram colhidos os depoimentos de 30 pessoas nos Ministérios Públicos de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Espírito Santo.

Em comum, a maioria das mulheres diz que recebeu um aviso de procurar o médium em seu escritório ao fim das sessões em que ele atende aos fiéis. 

No local, segundo as vítimas, João de Deus dizia que elas precisavam de uma "limpeza espiritual" antes de abusá-las sexualmente. Entre as vítimas estariam mulheres adultas, crianças e adolescentes.

O promotor Luciano Miranda Meireles afirmou que os depoimentos podem ser a única forma de comprovar as acusações, já que crimes como estupro não ocorrem à luz do dia nem têm testemunhas.

ABADIÂNIA

Cidade que abriga as obras religiosas e sociais de João de Deus, Abadiânia amanheceu neste sábado em clima de expectativa sobre a prisão de seu morador mais célebre.

A partir das 10h, a Casa da Sopa, ligada à Casa Dom Inácio de Loyola, do médium, promoveu tradicional festa de Natal com distribuição de lanches e brinquedos para crianças. O evento se repete há 15 anos e, em algumas ocasiões, o próprio João de Deus fez as vezes de Papai Noel.

Pais e filhos formaram fila para ganhar os brindes, mas afirmavam que a frequência foi menor este ano. 

"Achei mais vazio", disse a auxiliar de cozinha Selma Rodrigues Barbosa, de 42 anos, que levou uma "escadinha" de sobrinhos ao local, em frente à casa de João de Deus, para brincar, ver Papai Noel e ganhar os brindes. Ela considera o médium uma pessoa espetacular, que ajuda muita gente, mas defende uma investigação séria sobre as denúncias.

Apesar da percepção do público, os organizadores sustentaram que 1.500 pessoas foram ao local, mesmo número do ano passado.

Em um momento tumultuado da festa, a mulher de João de Deus, Ana Keyla Teixeira, discursou neste sábado (15): "Apesar das turbulências que estamos enfrentando, peço a vocês que continuem orando para que a verdade prevaleça". Em seguida, saiu em disparada para dentro da Casa da Sopa, para evitar as perguntas dos jornalistas.

O escândalo sobre os supostos abusos atraiu para a cidade goiana um novo público de curiosos, a exemplo de Milton Felício Barbosa, 50 anos, que viajou de Brasília à Casa Santo Inácio de Loyola para assuntar sobre o ocorrido.

"Fiquei curioso e resolvi ver de perto. Achei um lugar maravilhoso. As pessoas aqui têm dito que é preciso separar a pessoa de João de Deus dos objetivos do local", comentou.

Logo após as denúncias serem tornadas públicas, o Ministério Publico de Goiás defendeu o fechamento da casa.

"Estão querendo achar um culpado e levar a instituição junto", protestou o ex-prefeito de Abadiânia Francisco Lobo, o Chico Lobo, espécie de relações públicas do centro mantido por João e Deus. "Mesmo que não tenha o mentor, [o lugar] tem de estar aberto para orações."

Ele diz acreditar na inocência do médium e sustenta que João de Deus não fazia atendimentos individuais de mulheres, conforme vem sendo noticiado.

O movimento no centro de orações e cirurgias espirituais mantido pelo médium era baixo neste sábado (15). Chamava mais atenção a quantidade de jornalistas do que a de frequentadores habituais. 

Uma belga, que não quis se identificar, declarou não acreditar na veracidade das centenas de testemunhos. Ela diz que João de Deus é um homem de mais de 60 anos e que, fosse um abusador, não teria os dons de cura que apresenta. "Essas pessoas [denunciantes] estão vivendo uma ficção, um thriller", comentou.

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