Temporada de matrículas

Com pandemia e inflação, mensalidades de escolas particulares devem subir 10% em Curitiba

Geandra Sufredini transferiu os filhos Joana e Bruno de uma escola participar para uma escola pública: surpresa
Geandra Sufredini transferiu os filhos Joana e Bruno de uma escola participar para uma escola pública: surpresa (Foto: Franklin de Freitas)

O final do ano letivo de 2021 se aproxima e, com isso, também tem início a ‘temporada de matrículas e rematrículas’ visando 2022. Trata-se de um período marcado pela ansiedade de pais e responsáveis, preocupados com o tamanho dos reajustes a serem aplicados pelas escolas. Uma preocupação que tem justificativa, ainda mais depois de a inflação oficial do país, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), chegar a 10,34% em 12 meses agora em outubro, sem mostrar sinais de arrefecimento, conforme anunciou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Diante deste cenário, a tendência, conforme o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Estado do Paraná (Sinepe-PR), é que a maioria das escolas privadas do estado apliquem um reajuste em suas mensalidades parecido com o valor da inflação. Ou seja, alta em torno de 10%, lembrando ainda que cada instituição de ensino tem autonomia para definir o novo valor das mensalidades e das taxas de matrículas e rematrículas.

Presidente do Sinepe-PR, Douglas Oliani respondeu, por texto, alguns questionamentos feitos pela reportagem. Em suas respostas, lembrou que as escolas particulares tiveram um grande aumento de custos ao longo da pandemia, diante da necessidade de se fazer investimentos para a implementação do ensino remoto (seja no treinamento de professores, que não tinham essas habilidades, seja na aquisição de equipamentos e toda a infraestrutura envolvida).

Ainda segundo ele, para 2022 a expectativa é de grandes mudanças no âmbito escolar, em todos os sentidos. “Esperamos que a vacinação já esteja finalizada e que tenhamos retornado à normalidade. Vale lembrar que no ano que vem temos a entrada gradual do novo ensino médio e temos muito o que recuperar do que ficou perdido durante esse período conturbado que atravessamos”, escreve.

Especialista em direito do consumidor, a advogada Renata Abalém explica ainda que não existe um teto para o reajuste complementar de mensalidades, mas que esse aumento deve ser coerente com os valores de mercado e as mensalidades anteriores. A orientação da especialista é que as escolas, nesse momento, sejam razoáveis e pensem em alternativas para ajudar os pais, já que uma das preocupações da rede particular é justamente perder alunos para a rede pública.

Na pandemia, cai o número de alunos e de instituições na rede privada no Estado

A preocupação das escolas da rede particular perderem alunos para a rede pública não é à toa. Em 2020, primeiro ano da pandemia do novo coronavírus, o setor viu cair tanto o número de instituições de ensino no Paraná como o total de matrículas no estado, conforme dados do Censo Escolar, divulgados pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Até 2019 havia em todo o estado 2.180 escolas particulares, com um total de 451.868 alunos matriculados. Já no ano passado, o número de escolas havia caído para 2.145, enquanto o de matrículas recuou para 439.611. Foi a primeira queda no número de instituições de ensino desde 2015, enquanto a perda de mais de 12 mil alunos fez o número de matrículas recuar para o menor nível desde 2014.

“O ensino privado sofreu bastante impacto com a pandemia e um certo número de instituições acabou fechando as portas por conta da crise econômica que veio junto com a pandemia, principalmente instituições menores”, comenta Douglas Oliani, presidente do Sinepe-PR.

Escolas públicas surpreendem positivamente os pais após migração

A crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus com certeza foi um fator determinante para que muitos pais e responsáveis optassem por migrar seus filhos da rede particular de ensino para a pública. Não foi, no entanto, o único motivo.

Gabriela Carletto, por exemplo, é mãe do Lorenzo, de apenas 9 anos, e realizou a migração no começo deste ano. A transferência aconteceu depois de o filho ser diagnosticado, ainda em 2020, com síndrome de Asperger, uma condição que pertence ao especto autista. Na rede privada, ela conta que houve muita resistência e dificuldade para que fosse feita a inclusão do filho. Por recomendação do neuropediatra de Lorenzo, então, matriculou o filho na rede municipal de ensino de Curitiba. “Tenho uma filha mais velha, de 23 anos, sempre estudou em escola particular, e foi uma grata surpresa [a escola pública]. A prefeitura tem boa rede de professores, coordenadores que trabalham a questão do autismo. Ele [Lorenzo] está super bem e não cogito a volta para a [rede] particular”, conta.

Já Geandra Sufredini transferiu os dois filhos, Joana e Bruno, de 7 e 9 anos, respectivamente, de uma escola particular para outra pública em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. No caso dela, os motivos foram financeiros e, principalmente, jurídicos (questões relacionadas ao divórcio). E a surpresa (positiva) com a escola também aconteceu. “Me surpreendi. Eles [filhos] sempre estudaram em escola particular, mas na pública eu vi que tem bons professores, que fazem o melhor que podem. Eles não têm a mesma estrutura de um colégio particular, mas quanto a isso falta mais de nós, pais, tomarmos providências quanto a isso”, afirma a mãe, que já pen sa em manter seus filhos na rede pública de ensino pelos próximos anos.

“Acho que temos de brigar pela escola pública, isso é básico. Mesmo os pais com filhos na escola particular, temos que voltar nossos olhos para que a escola pública tenha maios qualidade de ensino e educação. Isso não vai fazer bem pro meu filho só, mas para toda uma sociedade. O que é feito para um se desencadeia como uma onda, e ao se desencadear como uma onda atinge todo mundo e teremos pessoas melhores na sociedade”, aponta.

Evolução no número de escolas e matrículas na rede particular de ensino no Paraná

2020

Total de escolas: 2.145

Total de matrículas: 439.611

 

2019

Total de escolas: 2.180

Total de matrículas: 451.868

 

2018

Total de escolas: 2.127

Total de matrículas: 447.355

 

2017

Total de escolas: 2.095

Total de matrículas: 445.599

 

2016

Total de escolas: 2.033

Total de matrículas: 445.831

 

2015

Total de escolas: 2.047

Total de matrículas: 443.926

 

2014

Total de escolas: 2.181

Total de matrículas: 409.405

 

2013

Total de escolas: 2.138

Total de matrículas: 391.915

 

2012

Total de escolas: 2.104

Total de matrículas: 380.962

 

2011

Total de escolas: 2.017

Total de matrículas: 350.643

 

2010

Total de escolas: 1.993

Total de matrículas: 332.086

 

Fonte: Censo Escolar/INEP