História

Neto de curandeiro, médico indígena recém-formado pela UFPR atua em UPA de Matinhos

João Paulo e a mãe, Irene, indígena da aldeia Laranjinha
João Paulo e a mãe, Irene, indígena da aldeia Laranjinha (Foto: Reprodução)

Há muitas histórias espalhadas pelo caminho que separa uma aldeia indígena do interior do Paraná de uma solenidade de formatura virtual – a primeira da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mas separar talvez não seja o verbo mais adequado para contar como João Paulo Guergolet, indígena da etnia Guarani Nhandewa da aldeia Laranjinha, localizada no município de Santa Amélia (PR), tornou-se médico. Unir é a palavra mais adequada e mais simbólica para explicar como sua identidade é, hoje, parte do seu trabalho e da forma como enxerga a medicina.

João Paulo foi um dos 92 médicos que colou grau após Governo Federal autorizar a formatura de estudantes da área da saúde (Medicina, Farmácia, Enfermagem e Fisioterapia) que cumprissem 75% do período de internato médico ou de estágio supervisionado. Hoje, atua numa Unidade de Pronto Atendimento de Matinhos, no Litoral, em plantões que se estendem pelo final de semana e que têm lhe ensinado a exercitar a empatia e o cuidado com o outro.

“Atendo muitas pessoas mais carentes. O fato de ter saído do interior e crescido numa aldeia indígena me permite ter mais empatia com essa situação, percebo que muitos ficam confortáveis quando veem que não sou um retrato padrão”, comenta. João Paulo saiu ainda criança da aldeia, mas nunca perdeu o vínculo com sua origem. Ao contrário: as visitas eram tão frequentes que ele consegue sentir ainda hoje o cheiro do mato pelo qual cruzava, na companhia da mãe, para visitar uma tia aos finais de semana.

“As pontes feitas a mão, o almoço de forno a lenha e as histórias que meu tio contava são memórias muito presentes”, lembra. Contar histórias também é coisa da mãe de João, Irene Lourenço Guergolet, que só deixou a aldeia para casar, mas sempre preservou a riqueza da sua identidade. No livro “Mundo dos Sonhos”, editado com a ajuda dos filhos, ela, que só concluiu o fundamental, conta as aventuras de um menino índio que sai de sua aldeia para conhecer a cidade e os costumes do homem branco.

Qualquer semelhança com a história dos filhos é mera coincidência. João tem um irmão dentista e uma irmã ginecologista, mas demorou um pouco a descobrir sua paixão pela medicina. O gosto pelo cuidado também vem de outras gerações: seu avô era curandeiro e o saber indígena sempre esteve presente na história familiar. A primeira tentativa foi na Fisioterapia antes de descobrir o que queria. “Me apaixonei pela medicina ao longo do processo e hoje não me vejo fazendo outra coisa”.

Apesar da certeza quanto à escolha, João teve percalços pelo caminho. A perda de um amigo e, logo em seguida, do avô, trouxe dificuldades. Nestes momentos, em que as disciplinas pareciam cada vez mais difíceis, ele se preocupava com a imagem que podia estar deixando a outras gerações de indígenas que ainda irão ingressar na UFPR.

Em ação na UPA de Matinhos

Antes de a pandemia do novo coronavírus assolar o mundo, João tinha um plano bem traçado. Ia para o Canadá, fazer um estágio eletivo para estudar povos indígenas e doenças reumáticas. “Minha ideia era voltar para a aldeia e levar esse conhecimento”, comenta.

No trabalho de conclusão de curso de Medicina, o olhar atento ao saber dos povos indígenas também lhe ajudou a estudar a Bardana, uma erva popular. Na pesquisa “Avaliação da ação de extratos de Arcticum lappa L. obtidos por extração supercrítica nas vias clássica e das lectinas do sistema complemento”, pode identificar o caráter anti-inflamatório da erva, com resultados obtidos a partir da experimentação em sangue de carneiro.

No passado, João já havia tido a oportunidade de estagiar em um posto de saúde em Curitiba em que a medicina natural tinha bastante espaço. Mas não é só neste aspecto que a vivência indígena tem lhe transformado como profissional. “Na aldeia existe muito isso, do cuidado um com o outro, mesmo que esse outro não seja um familiar. O sistema é todo muito coletivo. É claro que há problemas e divergências, mas é sempre um pelo outro”, conta.

Hoje, além de trabalhar na UPA, João tem o compromisso de continuar estudando. Pretende, em breve, fazer residência em anestesiologia, para trabalhar com dor crônica. Voltar à aldeia com esse estoque de vivências seria mais uma das suas tantas conquistas: um “mundo dos sonhos”, como no título do livro da mãe, que se tornaram realidade.