O fim do sono: a última fronteira do capital

Em minha última viagem à Argentina fiquei sabendo de uma devoção curiosa do Papa Francisco: deitado sobre o altar de sua primeira paróquia, no distrito de São Miguel, descansava tranquilamente, uma pequena escultura de São José Dormindo. A imagem é simples e quase despudorada. Poucas vezes se viu um santo assim, em situação tão corriqueira e despretensiosa, sem a pompa dos grandes gestos e suas entranhas de salvação. O pai adotivo de Jesus, ali, deitado, sintetiza a passagem bíblica do primeiro capítulo do Evangelho de Mateus (21-24), na qual se lê que o mensageiro de Deus se manifestou a José em sonho, dando a notícia de que sua esposa estava grávida do Salvador. Uma vez acordado, José cumpriu o que lhe ordenara o anjo, recebendo Maria como esposa. A história não é apenas curiosa, mas traduz a função sagrada do sono: segundo a tradição religiosa que remete também a outros personagens bíblicos, dormir é acessar o mistério e, por meio do sonho, compreender melhor o que se deve fazer acordado. Poder-se-ia dizer que, embora por outras vias, é essa também a função atribuída à atividade onírica por Freud e, antes dele, por Schopenhauer e mesmo Nietzsche: acessar aspectos desconhecidos da nossa vida.

Na mesma viagem em que conheci a devoção do Papa, estava, por mero acaso, lendo o livro do professor norte-americano Jonathan Crary, cujo título é 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono (2013). O autor faz um diagnóstico contundente sobre os esforços do atual regime socioeconômico para dominar o último reduto não controlado de nossas vidas, sobre o qual até agora tem sido impossível impor as regras da exploração que se estendeu, ademais, a todos os outros setores da nossa vida pública e privada. Para Crary isso está com os dias contados, levando-se em conta os esforços da tecnologia, da farmacologia, da genética e até mesmo das ciências cognitivas para dominar e aproveitar o tempo considerado perdido que nós passamos dormindo. Tal estratégia passa pelos estudos para criar um soldado que não durma para as guerras que virão, o desenvolvimento de substâncias neuroquímicas, terapias genéticas e estimulação magnética transcranial, com o fim de eliminar a necessidade orgânica do sono. O soldado sem sono é o primeiro passo, obviamente, para a construção de um trabalhador sem sono e, sobretudo, de um consumidor sem sono, capaz de comprar de forma compulsiva, aproveitando a disponibilidade 24/7 (24 horas por dia, sete dias por semana) das estruturas tecnológicas do comércio on-line. A coisa vai tão longe que a luta contra o sono chegou a incluir o projeto de um consórcio russo-europeu de criação de grandes espelhos capazes de iluminar zonas escuras do planeta por meio do redirecionamento da luz solar sobre cidades inteiras, cujos habitantes poderiam, afinal, usufruir do prazer de nunca mais dormir, ou melhor, de nunca mais terem seu sono submetido à lógica cósmica que tem regulado os ritmos fisiológicos e geoquímicos do planeta. Para alívio de todos, ao que parece, essa insanidade não saiu do papel. Em outra ponta, se até agora as pesquisas farmacológicas se empenharam em criar drogas para o sono, agora elas se dirigem, ao inverso, à invenção de drogas que nos cure dele.

Ficar sem dormir, todos sabemos, pode ser uma tortura sufocante e muitas práticas militares incluem essa sevícia como programa de tratamento de prisioneiros. Sem dormir, vivemos em um estado constante de desamparo e, consequentemente, de submissão, agravado pela exaustão e pela privação sensorial que ela produz. Byung-Chul Han já problematizou essa questão ao se referir à nossa como uma sociedade do desempenho e, consequentemente, do cansaço. Ora, para mais desempenho precisamos controlar o que tem se considerado como um estado ordinário da consciência, capaz de realizar a higiene da mente e restaurar as forças vitais. Como atividade relaxante, nosso sono foi, até agora, controlado pela natureza e é precisamente nesse ponto que as tecnologias contemporâneas pretendem intervir, na perspectiva da obtenção de controle sobre o que é natural, considerado, no geral, como lento, ineficaz e obsoleto. Como em outros casos, também aqui, a ideia é comparar o corpo humano à lógica da máquina, que trabalha incessantemente – leia-se, sem dormir. O desempenho da máquina, como paradigma produtivo, levaria o capitalismo até a sua última fronteira, portanto: tornar útil o nosso tempo dormido; acordar, afinal, São José e mandá-lo logo às suas oficinas de carpintaria e afazeres de pai de família. Afinal, seu sucesso depende apenas dele mesmo.

O problema é que, acordado, José não sonha e jamais teria entendido a mensagem de Deus. Sem dormir, está privado da experiência relaxante que torna o mundo suportável e compreensível. Em estado de disponibilidade absoluta, ele perde o que lhe é mais próprio e passa a viver o tempo da necessidade ininterrupta, nunca satisfeita e, portanto, sempre fracassada. A frustração é a filha mais velha do cansaço que leva à indiferença e facilita processos de dominação. Se dormindo, nos livramos do "atoleiro de carências simuladas" a que o capitalismo nos empurra, acordados estamos disponíveis para a lógica das práticas panópticas que organizam nossa vida na transparência e na visibilidade total. Tendo encontrado uma cura para o sono, o capitalismo terá dominado a vida humana por completo, na medida em que controla integralmente o seu tempo – até o extremo de nos ter curado dele. Resta saber: para quê? Queremos viver mais para aproveitar mais a vida, no sentido de recheá-la com maior quantidade de experiências fugazes e sem qualidade. Valeria a pena ficar acordado para viver em frente aos nossos dispositivos tecnológicos, que são, na verdade, máquinas de esgotamento da vida e, pior, "máquinas de influência", para retomar um conceito de Crary? Se o sono, afinal, nos ajuda a esquecer o peso da vida e o mal radical que nos rodeia, talvez permanecendo acordados alcançaremos o estágio do niilismo final, no qual a vida não terá sentido algum, posto que seu sentimento máximo será a frustração e o vazio do horizonte sobre o qual ela cambaleia, sonâmbula.

O Papa, afinal, tem razão: São José Dormindo, ajude-nos a dormir mais e mais tranquilos sobre o altar da existência e faz-nos sonhar com divindades. Amém, boa noite!

*Jelson Oliveira é filósofo, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).