Entrevista

O lado sombrio do herói latino-americano

Mais de noventa semanas entre os livros mais vendidos do país, sendo em algumas semanas o mais vendido, segundo a revista Veja. Poucos escritores brasileiros podem exibir essa marca. Um deles é o curitibano Leandro Narloch, 32 anos, que a obteve com o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, publicado pela editora Leya em 2009. Agora em parceria com o campinense Duda Teixeira, ele escreveu o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, também pela Leya, no qual ele se propõe a desconstruir o dito falso herói latino-americano.

A fórmula não é muito diferente da do livro anterior: subverter as regras batidas com as quais se conta a História — no caso, da América Latina. Com texto fluido, algo não tão comum em livros de história, e exatas 117 referências biblioigráficas, entre livros, sites e artigos de jornais, Narloch e Teixeira miram sem dó em figuras como Che Guevara (ídolo dos jovens pacifistas, ele considerava o ódio um sentimento nobre e adorava armas), Juan Domingo Perón (admirava os nazistas) e os índios astecas (ninguém matou tantos por nada quanto os astecas), para citar alguns exemplos. 

Desnecessário dizer que o livro tem muita polêmica para causar. Ou, como disse Narloch no primeiro livro, enfurecer muita gente. O fato é que o Guia Politicamente Incorreto da América Latina figura há pelo menos oito semanas entre os livros mais vendidos no País. A editora planeja lançar um box com os dois Guias. Só não há ainda uma perspectiva de traduzir para o espanhol. Uma pena. Não dá para enfurecer os argentinos.

Jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Narloch já trabalhou nas revistas Aventuras na História, Veja e Superinteressante. Por sua vez, Teixeira, formado pela USP, é editor da Veja. Na época em que a América celebra 519 anos da chegada de Cristóvão Colombo (no dia 12 deste mês), eles comentam a descontrução do herói latino-americano em entrevista ao JE.

Jornal do Estado — O livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina foi escrito em parceria com Duda Teixeira. No entanto, a grife veio do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de autoria de Leandro Narloch. Quanto o novo livro tem de Leandro Narloch e quanto tem de Duda Teixeira?
Leandro Narloch —
Metade de cada um. Desde a ideia até a revisão, trabalhamos em conjunto. O Duda é um repórter de América Latina experiente, que já entrevistou diversos presidentes da região, por isso o trabalho com ele foi muito engrandecedor.
 
JE — Como foi o processo de elaboração do livro? Havia divisão de tarefas?
Narloch —
Dividimos os temas, apuramos separadamente e depois montamos juntos a estrutura do capítulo. E cada um mexeu muito no texto do outro. 
 
JE — Sobre os falsos heróis do livro, comecemos com Che Guevara. Pelo jeito, o que ele gostava mesmo era de fazer revoluções, sem se preocupar em, digamos, consertar o estrago. É por aí?
Narloch — Sim. Che Guevara acreditava na ideia de que uma ruptura radical é benéfica. Nada mais equivocado. Na política, as revoluções geralmente dão espaço para tiranos que acabam sendo tão ou mais cruéis que os líderes anteriores. Na economia, sem estabilidade e segurança de propriedade, as pessoas deixam de investir, de reformar a casa e ampliar negócios (afinal, temem perder o que foi investido). Che acabou tendo o pior emprego de uma revolução: o de cuidar da economia, de fazer teorias imaginárias virarem realidade. Como todo o ciclo econômico estava destruído e o país virou um caos de desabastecimentos, Che preferiu fugir da realidade e tentar armar outra revolução na África.
 
JE — Apesar de tudo o que foi narrado no livro a respeito, Che é visto como um defensor dos direitos humanos. De onde saiu essa versão?
Narloch —
Os comunistas são muito bons em fazer propaganda, difamar seus inimigos e levar toda a sociedade a admirar seus representantes. Intelectuais comunistas contaram boa parte da história da América Latina que está nos livros e moldaram uma identidade latino-america a partir da resistência a grandes potências, ao capitalismo. No meio disso, Che encaixa muito bem como um herói. Mas sua imagem enfraquece quando percebemos que não há por que culpar ou temer as grandes potências. Nem o capitalismo, que, na minha opinião, foi a melhor coisa que aconteceu para os pobres na história do mundo.
 
JE — O capítulo seguinte versa sobre maias, incas e astecas. Mas no livro há pouca coisa sobre os maias. Seria uma mania generalizada considerar todos como se fossem farinha do mesmo saco e ignorar outras tribos que viveram na época?
Narloch —
Tivemos que nos concentrar nas histórias mais significativas. A história do contato dos espanhóis com os maias é semelhante a dos dos astecas — também houve maias conquistadores como houve astecas conquistadores. Preferimos falar dos astecas porque o grande episódio da Conquista Espanhola é a morte de Montezuma em 1520. Era o grande ícone a discutir. 
 
JE — A propósito, qual de vocês passou vergonha no Peru por ter perguntado em uma livraria se havia algum livro sobre sacrifícios dos incas?
Narloch —
Foi o Duda! (risos)
Duda Teixeira — Pois é, fui eu mesmo.

JE — Na Argentina a idolatria pelo general Juan Domingo Perón ainda é grande. Por que isso acontece?
Teixeira —
Eram um casal carismático, cujos atos tinham forte apelo popular. Evita dava dinheiro aos pobres. Na frente de todos, tirava dinheiro do bolso de seus próprios assessores para distribuir aos seus descamisados. Não há nada mais apelativo que isso. Essa imagem foi construída durante o governo de Perón e seguiu sendo reforçada até hoje. Hoje, na Argentina, está passando nos cinemas um filme chamado Juan e Eva, sobre a vida dos dois. Pior é que o filme é ótimo. Ao final da sessão, eu escutei gritos de "Viva Perón"!

JE — Afinal, Perón era de direita ou de esquerda? Como defini-lo politicamente?
Teixeira —
Ao meu ver, Perón era essencialmente um fascista pós guerra. Talvez, um fascista tardio, como me disse recentemente o escritor argentino Mariano Grondona. No início, aproximou-se mais da esquerda, ao pegar para si bandeiras que eram dos socialistas. Depois, virou um direitista e passou, com seu secretário Lopez Rega, a perseguir os motoneros, esquerdistas radicais. Mas, em suma, ele foi um centralizador que queria todo poder para si mesmo, atacando todos os que estavam fora do seu peronismo, não importa se à esquerda ou à direita.

JE — O mexicano Pancho Villa seria um exemplo clássico de revolucionário que mudou de ideologia depois que passou a crescer financeiramente?
Teixeira —
Acho que não dá para dizer isso. É certo que ele vira um conservador quando se torna um latifundiário, mas não podemos ter certeza de seus valores de "esquerda" antes disso. Pancho era pró-americano antes de se envolver na Revolução Mexicana e durante ela. Tanto que poupava propriedades de americanos. E nunca distribuiu terras, embora tenha conseguido recrutar pessoas para a Divisão do Norte com essa promessa. 

JE — Por que tantos intelectuais brasileiros apoiavam o governo de Salvador Allende no Chile?
Teixeira —
Não é que eles apoiavam. Allende ainda é um herói para os intelectuais brasileiros. O capítulo é o mais polêmico do nosso livro por conta disso. Na época de Allende, o Brasil vivia a ditadura e muitos brasileiros intelectuais se refugiaram no Chile. Lá, viram um paraíso socialista em gestação. Tudo o que pregavam se tornava realidade sob as medidas de Allende. Só que nossos pensadores não conseguiram visualizar as medidas anti-democráticas de Allende, como a perseguição à imprensa, a conivência com terroristas cubanos e a negação  tribunais.

JE — Em julho deste ano, a autópsia de Allende concluiu que ele se matou com dois tiros de fuzil. É essa versão que o livro considera?
Teixeira —
Sim! Nunca acreditamos no contrário. Ao olhar as frases que Allende disse ainda no La Moneda e as coisas que ele disse para Fidel Castro e para Darcy Ribeiro (estão no nosso livro), é claro que ele entendia a ideia de que em algum momento deveria oferecer a própria vida. Allende ainda se negou a deixar pacificamente o La Moneda, quando os militares lhe ofereceram essa possibilidade. 

JE — O último governo de Perón, que na verdade foi encerrado pela mulher dele, Isabelita, e o governo de Allende foram depostos por ditaduras sangrentas. Isso teria colaborado para aumentar o conceito de que eram grandes líderes?
Teixeira —
Sim. A ditadura argentina matou 30.000 pessoas. Pinochet promoveu uma carnificina no estádio nacional e seus policiais jogavam cadáveres nos rios de Santiago. Foram ditaduras altamente condenáveis. Ao ver algo como mal, o pensamento simplista procura um contraponto que seja bom. Ao estudar melhor a realidade, esse maniqueísmo não se sustenta.

JE — Não parece curioso que Simon Bolívar, um símbolo da esquerda, tenha sido descontruído por Karl Marx, outro símbolo da esquerda?
Narloch —
Pois é. O Bolívar se tornou um símbolo de esquerda só recentemente. Encaixava na ideia do Hugo Chávez de espalhar seu tresloucado socialismo do século 21 para todo o continente. Antes disso, Bolívar era herói da extrema direita. O Mussolini o adorava, assim como os ditadores militares da Venezuela. Essa posição é mais coerente. Bolivar tinha um medo enorme de que negros e mestiços chegassem ao poder. No livro, nós explicamos porque ele se comportava assim. A Espanha estava sem um rei e o vácuo de poder que se abriu fez com que muitos colonos temessem a repetição da revolução desastrosa do Haiti. O mais engraçado é que Karl Marx, outro herói de Chavez, escreveu uma reportagem chamando o Bolívar de fujão e medroso.

JE — Che, Bolívar, Perón, Villa e Allende passaram maus bocados depois de mortos. Qual a relação disso com a mitologia que se formou em torno deles?
Teixeira —
Para seus seguidores, são seres divinos. É como se o corpo deles tivesse propriedades sobrenaturais. Chávez exumou Simón Bolívar em um ritual provavelmente de magia negra. Acho que queria  pegar os poderes que ele atribui ao seu herói.
 
JE — No Haiti, as revoluções narradas no livro soam dissonantes umas em relação às outras. Até que ponto isso contribuiu para que o país se tornasse um dos mais pobres do mundo?
Narloch —
Quando o assunto é escravidão, muita gente acredita que só houve uma personalidade negra: o escravo que apanhava calado e, se se revoltasse, morria como mártir. Tentamos mostrar, contanto a história da Revolução do Haiti, que havia diversas personalidades negras. Cada um dos personagens que retratamos aponta para um lado. Há o rebelde escravo que ataca outros rebeldes para vendê-los como escravos, há o "negro fiel" que escreve cartas para que escravos vizinhos deixem de pensar em liberdade, há o grande abolicionista mulato que era ele próprio dono de escravos. 
 
JE — Há milhares de pessoas que defendem os falsos heróis tratados no livro. Ao desconstrui-los, vocês não temem ficar rotulados como de direita ou capitalistas burgueses?
Narloch —
Não tememos. Acreditamos que é preciso deixar de ter medo de se dizer de direita — ou pelo menos começar a ter vergonha de se considerar de esquerda. É preciso haver no Brasil mais gente defendendo princípios liberais e fórmulas testadas e aprovadas de prosperidade: equilíbrio de gastos públicos, privatização urgente de empresas que dão prejuízo ao bolso do cidadão, legalização das drogas e fim de leis que tentam proteger as pessoas contra suas próprias escolhas.
 
JE — Livros de história em geral são tratados pelos próprios autores como verdades absolutas. Já o livro de vocês é baseado em fatos menos explorados e tem a intenção de discutir ideias — e, com isso, mostrar que não existem verdades absolutas. Como vocês projetam a aceitação do seu livro nos meios acadêmicos?
Narloch —
Dá pra dizer que o livro é um sucesso e um fracasso de público e de crítica. Muitos leitores adoram, assim como diversos historiadores, sobretudo os cariocas, mais distantes da historiografia marxista que foi criada principalmente pela USP e Unicamp. Como é de se esperar, vem dessas universidades os nossos maiores detratores. Mas a principal reação dos historiadores é a indiferença. Dá pra entender o motivo disso. Os Guias não contam nada que um historiador antenado não saiba. Nosso papel foi de jornalistas, de popularizar conclusões que já eram correntes nas universidades. 
 
JE — Algum dia teremos um Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, abordando coisas como o homossexualismo de Alexandre, o Grande, ou as posições do presidente americano Theodore Roosevelt sobre os negros, ou as histórias de que Adolf Hitler tinha apenas um testículo?
Narloch —
Homossexualismo só é um bom tema se o acusado for um ativista contra os gays. É o caso do Talibã, grupo que faz ataques ferozes à liberação sexual mas que está permeado de pedofilia e homossexualidade. Curiosidades como as que você citou só são interessantes quando cruzam a história, quando o detalhe decide grandes acontecimentos ou é um belo exemplo de como as pessoas pensavam e agiam.

JE — Mas haverá um livro nesse sentido?
Narloch —
Sim, mas não antes de 2013.