O que o apagão da Comunicação Digital nos ensina

Assim como já havia acontecido em 2019, desta vez o apagão nas mídias digitais, conduzidas pelo Facebook Inc., foi de aproximadamente sete horas. A pane mundial do Instagram, WhatsApp e Facebook influenciou a perda comercial nas mais variadas empresas. Acionistas do Facebook observaram a queda de 5% nas ações em Nasdaq, além do impacto na receita da empresa pela falta de operação durante o período.

Mais do que a dificuldade de contatos ou a queda de faturamento empresarial, o apagão deixou evidente a nossa dependência em uma única companhia, no momento que a digitalização faz parte do cotidiano das pessoas. O panorama não é diferente em outras regiões do planeta, em que empresas chinesas demonstram a polarização global também nas tecnologias de comunicação e, principalmente, no acesso aos dados pessoais de bilhões de cidadãos e consumidores.

A pesquisadora neerlandesa José Van Dijck, no livro “The Culture of Connectivity” ( 2013) aponta a centralização de dados em poucas empresas e os riscos desses oligopólios com a ampliação de recursos e a influência global. As plataformas digitais, neste aspecto, materializam valores por meio do planejamento das suas funcionalidades e formas de atuação, raramente transparentes. No entanto, as estruturas sociais estão cada vez mais atreladas a esses serviços centralizados e privados, sem o devido acesso público e sem uma discussão aberta.

Na tentativa de reparar essas ações anticoncorrenciais, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos tenta exigir legalmente a venda de ativos do Facebook, incluindo o Instagram e o WhatsApp. As recentes revelações da ex-funcionária Frances Haugen somam-se a este questionamento. Ela afirma ganhos deliberados da empresa com desinformação e discurso de ódio.

Nos últimos anos, medidas mais rígidas foram implementadas, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, na União Europeia, e a Lei Geral de Proteção de Dados, no Brasil. Contraditoriamente, acreditamos tanto na eficiência das grandes empresas que rejeitamos acusá-las quando instabilidades acontecem. Mas é preciso aprofundar as relações de poder que as informações das mídias sociais possibilitam: das transações financeiras às decisões eleitorais. Proliferam-se casos nos últimos anos de vazamento ou uso indevido de dados.

A solução, ironicamente, parece vir do próprio Facebook, que utilizou o Twitter para comunicar a inconstância do serviço e sua solução. Os usuários, ao contrário da visão de uso passivo das tecnologias de comunicação, migraram rapidamente para o Telegram, ligações, avisos nos sites e recursos alternativos. Portanto, assim como não aceitamos um único banco para todas as trocas financeiras, ou uma única empresa de alimentos, multiplicar e descentralizar as opções de mídias sociais é uma decisão urgente para diminuir a dependência pública e o poder de poucas organizações privadas. Nessa perspectiva, o autor e pesquisador bielorusso Evgeny Morozov (“Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política”) aponta os riscos da centralização de informações nas chamadas “big techs”, grandes corporações de tecnologia, e propõe a ampliação de meios para ascensão de empresas regionais.

A resposta, portanto, não recai apenas aos usuários. É preciso ampliar as regulações comerciais e suas implementações, além da concorrência e da priorização da segurança de cidadãos e consumidores. Na proposição de mídias sociais, o país tem histórico. Afinal, tanto o Facebook quanto o Instagram contaram com brasileiros em suas concepções. Que venham incentivos para tecnologias de comunicação com benefícios públicos por vias criativas e mais transparentes.

Clóvis Teixeira Filho é doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e coordenador de Pós-Graduação na Área de Comunicação do Centro Universitário Internacional UNINTER