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Obediência

Definir obediência não é simples, não é universal o consenso sobre o uso desse termo em pesquisas e estudos aprofundados, clareza sobre como determinadas respostas ou comportamentos sejam assim classificados pode ser quase impossível, por envolver conceitos amplos e vagos.

As práticas educativas desenvolvidas pelas famílias antes da entrada de uma criança no ambiente escolar podem ser extremamente relevantes para a correta compreensão do que é obediência, pois de forma geral estas podem ser observadas em  duas classes distintas: as coercitivas, que envolvem punição verbal ou física, as várias ameaças, a privação de alguns brinquedos ou até alimentos; e as não coercitivas, envolvendo explicações, muita negociação, apontamento de consequências, detalhamento das convenções sociais, mudança de hábitos que possam implicar nas atitudes da criança.

O que é fácil constatar é que a coação, que normalmente é seguida de críticas, punições físicas e agressões, de forma geral resulta em novas violências e delinquência.

O reforçamento positivo usualmente produz o que é chamado de  obediência comprometida, enquanto práticas coercitivas produzem obediência situacional, e a diferença entre elas reside nos subprodutos gerados, que são visíveis muito cedo.

A punição acarreta a fuga e atitudes esquivas, além de  medo, raiva, manifestações de ansiedade e aos poucos xingamentos e agressões. O comportamento adequado não é aprendido, e algumas vezes pode funcionar apenas como verdadeiras aulas de teatro, com a manipulação de como agir diante de quais pessoas.

Fato é que obediência representa uma dimensão das habilidades sociais, seguir regras sociais e instruções, realizar suas tarefas, implica em sociabilidade e cidadania, indícios fortes de futura vida profissional a contento. No entanto, a obediência situacional é bastante diferente da receptiva ou comprometida, já que a primeira é baseada  na expectativa de punição, enquanto a segunda ocorre em um contexto de cooperação pelo conhecimento das consequências intrínsecas ao ato.

Embora fatores pessoais, como temperamento, traços de personalidade, ambiente comunitário e outros possam interferir, é inegável a interferência das atitudes parentais.

O desenvolvimento da capacidade verbal inclusive deve-se essencialmente ao contexto familiar, se este é conturbado ou harmonioso, se existe reforço das ações positivas ou ao contrário, caso pais ou tutores pareçam indiferentes diante das ações infantis ou juvenis. Por outro lado, exatamente esta habilidade termina sendo essencial para a existência da obediência, interpretar corretamente instruções e sucesso de seu acatamento na ampliação da autonomia e do autocontrole, características importantes, que não existem apenas em função de elogios, mas também de críticas bem dosadas e explicações sobre os comportamentos esperados.

Pais capazes de, da forma correta e no tempo certo, fornecerem prescrições importantes, certamente irão colaborar muito na formação adequada do estudante que a instituição de ensino irá receber.

Casas com ambientes caóticos e aversivos, muitas vezes provocados por conflitos conjugais ou dificuldades econômicas, com responsáveis parentais incapazes de distinguir aquilo que, nas respectivas formações foi produtivo ou não, de perceber contingências, de forma geral induzem a condutas antissociais.

Aprovação, reconhecimento, desaprovação na correta medida, produzem menos opositores, modelando todo o comportamento futuro daqueles em fase de crescimento. Skinner, importante pesquisador de comportamento, sempre descreveu a família como “a primeira agência de controle educacional”, pois é ali que que o reforço, adequado ou inadequado é estabelecido. A relação pais e filhos é uma dinâmica, o procedimento de uma das partes afeta o da outra.

A obediência não deve ser cega, ou seja, “ele manda e a gente obedece” nunca é o comportamento ideal, pois irrefletido; no entanto, a qualidade da subordinação consciente e voltada ao bem comum produz sim ótimos cidadãos, pois apenas aquele que obedece ao bom senso poderá participar da construção de um país desenvolvido e ser futuramente obedecido.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.