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Política

Operação prende cúpula do projeto do Rodoanel na gestão de Alckmin

FLÁVIO FERREIRA E GÉSSICA BRANDINO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar da oposição de engenheiros internos e de órgão técnico, a estatal paulista Dersa assinou na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB-SP) aditivos irregulares nas obras do Rodoanel que levaram a prejuízos de mais de R$ 600 milhões, segundo a polícia e o Ministério Público.

As apurações sobre os adendos contratuais levou à decretação da prisão de oito servidores e ex-funcionários da Dersa, incluindo a do ex-presidente do órgão, Laurence Casagrande Lourenço, que foi secretário estadual de Alckmin e comandava a estatal Cesp até sua detenção nesta quinta (21).

De acordo com as investigações da Polícia Federal e da Procuradoria, foram beneficiadas pelos aditivos as construtoras OAS e Mendes Júnior, que já são investigadas na Operação Lava Jato.

A operação desta quinta, intitulada Pedra no Caminho, pode atrapalhar as negociações de delação premiada em curso entre executivos da OAS e as autoridades, uma vez que há adendos contratuais recentes -deste ano e do ano passado- nas obras da via. Ilegalidades podem ter sido omitidas dos investigadores, segundo o Ministério Público.

Os obras do Rodoanel norte foram iniciadas em 2013, na gestão Alckmin, e ainda não foram concluídas.

Já as apurações começaram em janeiro de 2016, após João Bosco Gomides, ex-empregado de uma empresa terceirizada nas obras, ter dito à PF que soube das fraudes por meio de um gerente do projeto que teria sido vítima de represálias por ter se recusado a assinar os aditivos.

O ex-gerente do Rodoanel apontado por Gomides, Emílio Urbano Squarcina, foi então ouvido pela PF e confirmou essa versão.

Segundo Squarcina, "surgiu a ideia de se melhorar o valor do contrato de forma irregular, através do aumento do valor das despesas com movimentação de terra".

Segundo ele, a irregularidade consistiu "em dizer que, durante a execução da obra, foi constatado que havia uma dificuldade maior do que a prevista para remoção de solo".

Os aditivos foram estabelecidos principalmente para trabalhos de retirada de blocos de rochas (matacões, no jargão técnico). Porém, segundo a PF, a remoção das rochas já estava prevista no projeto original segundo mapeamento geológico da década de 1960.

De acordo com a procuradora da República Anamara Osório Silva, a decisão da Dersa sobre os adendos contrariou inclusive opinião técnica do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do estado de São Paulo.

"A diretoria da Dersa pagou um aditivo acrescendo serviços irregulares mesmo após o IPT fazer um novo estudo dizendo que não precisava pagar para remover os matacões", disse a procuradora.

As fraudes foram realizadas com o emprego de uma manobra conhecida como jogo de planilhas, na qual as quantidades de itens de uma obra são alterados para cima e para baixo com o objetivo de maquiar irregularidades.

"Funcionários da Dersa confirmaram que partiu da própria diretoria do órgão a orientação para que fossem alteradas as planilhas orçamentárias da obra", afirmou o delegado da PF Victor Hugo Ferreira.

A manipulação de quantidades de materiais pode ter levado à redução da qualidade de certos trechos do projeto, como túneis, afirmou Silva.

Na operação de quinta, foram detidas ao todo 14 pessoas. Além de Lourenço, outro seis ex-funcionários e atuais servidores da Dersa foram presos: Pedro da Silva, Benedito Aparecido Trida, Pedro Paulo Dantas do Amaral Campos, Helio Roberto Correa, Adriano Trassi e Carlos Prado Andrade.

O funcionário da estatal paulista Edison Mineiro Ferreira dos Santos ainda não foi detido por estar fora do país.

Também foram cumpridos 56 mandados de busca e apreensão em cidades de São Paulo e do Espírito Santo.

As autoridades informaram que ainda não foram encontrados indícios de propinas a políticos e repasses para caixa dois de campanhas eleitorais, mas o material obtido nas diligências e os depoimentos dos presos poderão levar a novas linhas de investigação.

Dersa afirma que é maior interessada em apurações

OUTRO LADO

Em nota, a Dersa afirma que a empresa e o governo de São Paulo "são os maiores interessados acerca do andamento do processo" e "havendo qualquer eventual prejuízo ao erário público, o estado adotará as medidas cabíveis".

Também em nota, a gestão de Márcio França (PSB), sucessor de Alckmin no governo, informa que abriu uma sindicância na Corregedoria-Geral da Administração.

A reportagem não conseguiu fazer contato com as defesas de Laurence Casagrande Lourenço e dos outros investigados.

A defesa da Mendes Júnior afirmou que ainda não teve acesso a informações da operação e, por isso, ainda não irá se manifestar. A reportagem procurou a OAS, mas não obteve resposta da empreiteira.

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