Por economia

Pandemia e crise fazem consumidor retomar uma antiga prática: consertar o que quebrou

Loja de consertos em Curitiba faz trabalhos mais simples em meia hora
Loja de consertos em Curitiba faz trabalhos mais simples em meia hora (Foto: Franklin de Freitas)

Passada a pior fase da pandemia, profissionais que trabalham com consertos de aparelhos elétricos e eletrônicos tentam manter a alta registrada desde o ano passado. Segundo o aplicativo GetNinjas, especializado em intermediar a contratação de serviços, no segundo trimestre de 2021 houve um aumento de 40% na procura por esse tipo de profissional em todo o país, em relação ao mesmo período de 2020. Já a procura por assistência técnica, que inclui o conserto de eletrodomésticos, teve um crescimento nacional de 19% na mesma comparação. No ano passado, nos meses em que a mobilidade foi mais restrita, a procura por alguns serviços chegou a crescer 150%.

A aposta para manter a clientela conquistada no ano passado é ofertar serviços exclusivos e rápidos, pois muitos profissionais avaliam que a crise econômica mostrou a muitos consumidores que procurar o conserto ao invés de buscar um produto novo é uma boa opção para economizar. Um conserto pode custar até 30% de um produto novo, dependendo do problema no equipamento.

Segundo o GetNinjas, a procura por consertos de vídeogames cresceu 200% nos períodos de maiores restrições no ano passado; as de notebook, 140%; e as de celular, 109%. Em junho de 2020, a procura por profissionais de reforma e reparos foi 96% superior em relação ao mesmo mês de 2019. E a procura por assistência técnica cresceu 172% no mesmo mês em relação ao ano anterior. A plataforma está preparando um novo levantamento para apurar se os serviços que ainda seguem em alta em 2021.

Um exemplo de crescimento registrado durante a pandemia é o da Casa do Microondas, que há 16 anos atua no conserto de fornos de microondas e fornos elétricos em Curitiba. Segundo o proprietário, Reinaldo Lages de Carvalho Filho, o movimento aumentou 50% entre maio e setembro do ano passado. “O pessoal ficou em casa e usou mais. E um micro-ondas novo está muito caro, na faixa de R$ 580 a R$ 700. Dependendo do problema, o conserto sai por menos de 30% desse valor”.

Ele tem um diferencial para se destacar no período de retomada das atividades comerciais: conserta os equipamentos em até 30 minutos, se o problema não for muito grave. “Eu trabalhava em São Paulo e consertava máquinas que valiam milhões de dólares, e tinha que consertar na hora”, conta Carvalho. “Quando passei a trabalhar com microondas, comecei a consertar na hora e começou a dar resultado. Curioso tem bastante, mas especialista tem poucos”.

Para quem trabalha com celulares e notebooks o aumento foi ainda maior. Marcos Souza, proprietário da MQN Informática, conta que o volume de serviço aumentou cerca de 300% durante os piores momentos da pandemia. “Ficou tenso, mas deu para dar conta”, lembra. “Muita gente passou a trabalhar em casa e as crianças passaram a estudar em casa. O pessoal teve que ressuscitar o computador velho”.

Souza relata outro problema com a pandemia: a escassez de peças, que levou a um aumento no preço dos produtos. “Houve uma especulação muito grande, o preço das peças subiu muito. Um computador que custava R$ 2 mil passou a custar R$ 4 mil, uma tela passou de R$ 350 para R$ 700. Isso também afastou as pessoas dos equipamentos novos Ainda está uma crise muito grande de componentes novos”.

A procura foi tão grande que Souza atualmente só trabalha com indicações. Ele avalia que o mercado continuará aquecido para quem trabalha com consertos. “Agora estabilizou, mas muita gente vai ficar no home office. Parece que a procura voltou a ser como era em 2010”.

Já para quem conserta televisores a alta não foi tão grande, afirma Jeziel Souza, proprietário de uma oficina no Centro de Curitiba. “As pessoas hoje têm mais de uma televisão. Muitas não sabem nem se terão emprego no mês que vem, na dúvida deixam estragado mesmo”, disse. Ele atendeu mais consertos de celulares e notebooks, mas no geral disse ter ficado no vermelho. “O notebook deu uma pequena diferença. No geral, vi diferença para pior”.

Crise logística mundial encarece tudo e afeta todos os setores, do comércio ao transporte

Desencadeada pelo início da pandemia, a crise na logística que o mundo todo enfrenta, especialmente por conta da falta de contêineres, é um dos grandes motivos para o aumento do custo de vida no Brasil. Com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, a inflação acumulada dos últimos doze meses chegou a 10,25%.

O aumento do preço dos fretes é um dos fatores que encarece o valor das mercadorias, tanto na exportação quanto na importação. “Essa crise escancarou ainda mais os problemas de infraestrutura que o país possui, e ainda há muitas incertezas no caminho para a melhora do cenário atual”, esclarece o coordenador do curso de Comércio Exterior e professor de Relações Internacionais da Universidade Positivo (UP), João Alfredo Lopes Nyegray.

Segundo ele, essa crise logística é reflexo da forma como cada país lidou com o início da pandemia. Enquanto alguns faziam a contenção da primeira onda da doença, outros ainda enfrentavam o auge. Por conta disso, muitos contêineres ficaram parados e, consequentemente, veio o aumento dos preços dos fretes. “O Porto de Ningbo, na China, por exemplo, terceiro maior porto do mundo em movimentação de contêineres, ficou parado por duas semanas por conta de um caso de covid-19. Além disso, não podemos esquecer do incidente portuário no Canal de Suez. Com todos esses problemas, as cadeias mundiais de suprimento e abastecimento foram sofrendo uma grande pressão por não conseguir acompanhar a demanda”, explica.

Outro prejuízo que o Brasil enfrenta com essa alta dos fretes é o encarecimento das exportações. Um frete China-Paranaguá, que estava na casa dos mil dólares, agora está custando 11 vezes mais. O frete China-Manaus atingiu os 24 mil dólares. “Em um momento em que o real está desvalorizado e o país poderia estar aproveitando para exportar mais, acaba sendo prejudicado pelo alto valor do frete”, aponta Nyegray.

A previsão para melhora de apenas alguns desses problemas é no primeiro semestre de 2022, mas ainda há muitas incertezas pelo caminho, como as variantes do coronavírus, por exemplo.

Itens que mais vão para conserto

  • Forno de micro-ondas
  • Forno elétrico
  • Secador de cabelo
  • Notebook
  • Celular
  • Máquina de lavar
  • Ferro elétrico
  • Videogame
  • Geladeira
  • Secadora