Solidariedade

Pandemia pode levar ao fechamento de 70% de ONGs do Paraná

Estudo mostra que 20% das instituições brasileiras estão sem fundos para manter projetos e dar continuidade às ações
Estudo mostra que 20% das instituições brasileiras estão sem fundos para manter projetos e dar continuidade às ações (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

As doações para o enfrentamento ao Covid-19 no país ultrapassaram R$ 6 bilhões, segundo levantamento da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos). Com um total de 509.857 doadores, a Associação contabilizou o maior montante nos meses de abril e maio mas, no momento em que o mundo mais sofre com as consequências da doença, a arrecadação mostra sinais de queda (www.monitordasdoacoes.org.br ). Em junho e julho, as doações caíram 90% em relação à média dos dois meses anteriores.

Mesmo com um recorde histórico de doações, o estudo "O impacto da Covid-19 nas organizações da sociedade civil brasileiras", da Mobiliza e Reos Partners, mostra, porém, que 20% das instituições brasileiras estão sem fundos para manter projetos e dar continuidade às ações; 87% relataram ter toda ou parte de suas atividades principais interrompidas ou suspensas por conta da pandemia; e 73% disseram que houve queda significativa da captação de recursos no período.

No Paraná, os números são bem semelhantes: na pesquisa do Programa Impulso, de março de 2020, cerca de 70% das organizações sociais do estado apontaram que, se o cenário permanecesse inalterado, teriam que fechar as portas em poucos meses. Segundo a diretora do Instituto Positivo, Eliziane Gorniak, "o aumento das arrecadações durante a pandemia beneficiou a área da saúde, o que é natural, dado o contexto, mas seria importante os doadores não esquecerem das organizações sociais que, diante do isolamento social, estão perdendo dia a dia as suas fontes de renda, captados, por exemplo, em eventos beneficentes, bingos e bazares ou com a força de voluntários. Essas organizações atendem, na sua maioria, a população mais vulnerável do Estado. Não podemos falhar como sociedade no acolhimento e atendimento desse público".

Até agora, a ABCR já mapeou mais de 500 campanhas que, juntas, representam mais de 30% do montante arrecadado (R$ 2,105 bilhões). A maior parte é proveniente de financiamentos coletivos de Organizações Sociais. No Paraná, só a campanha O Amor Contagia já levantou R$ 6,6 milhões e beneficiou mais de 60 instituições sociais e 24 hospitais. A maior campanha de arrecadação vigente no Estado do Paraná nasceu da união das promotorias de Justiça do Ministério Público do Paraná e Ministério Público do Trabalho que firmaram uma parceria com a UFPR (Universidade Federal do Paraná) e a Funpar (Fundação de Apoio da UFPR). Logo em seguida se uniram ao grupo Instituto GRPCOM, Grupo Marista, PUCPR, Instituto Positivo, comissão do Terceiro Setor da OAB-PR e associações da sociedade civil organizadas com sede no Estado.

Os dados da ABCR confirmam a afirmação: 78% dos recursos arrecadados durante a pandemia são destinados à saúde, 17% à assistência social e 5% à educação. "Por isso, os recursos doados pelo Instituto Positivo à campanha O Amor Contagia, que totalizam R$ 465 mil, foram destinados integralmente ao suporte às organizações sociais e suas necessidades", ressalta Eliziane.

Triste Realidade

Uma das instituições afetadas pela queda de doações foi o Instituto Futebol de Rua, que registrou a redução nas contribuições para a campanha Virando o Jogo, lançada em abril para arrecadar mantimentos para famílias em situação de vulnerabilidade social. “Contamos com o apoio de diversos jogadores de futebol e personalidades do esporte para divulgar essa ação, mas, com o passar dos meses, as doações foram diminuindo e chegamos a passar semanas sem contribuições. Isso afeta diretamente o trabalho do Instituto, pois temos uma lista de famílias que contam com o nosso apoio para superar esse momento”, explica o fundador do Instituto, Alceu Natal Neto.

Responsabilidade social nas empresas

Uma pesquisa realizada em maio pela Central Press com 270 executivos paranaenses revelou que, mesmo 49% deles relatando queda de 50% a 100% no faturamento da empresa, 35% das organizações ampliaram as doações e projetos sociais por conta da pandemia. Para a diretora do Instituto Positivo, Eliziane Gorniak, o momento fez as empresas se atentarem à responsabilidade social - e essa atitude veio para ficar. "Não apenas por incentivos fiscais mas, por que não utilizar os recursos internos para mobilizar a rede de relacionamento da empresa? Considerando o momento excepcional trazido pela pandemia e a repercussão na saúde das empresas, é preciso pensar em diferentes formas de contribuir com as necessidades da comunidade, por exemplo, por que não convidar colaboradores, fornecedores e clientes a se engajarem com as causas sociais? Ao fazer a informação circular, a empresa estará ajudando a construir um coletivo de apoio, o que aumentará as chances de crescer a rede de doadores. Cada um avaliará as suas próprias condições de doação e, o melhor, mais pessoas poderão ser beneficiadas", afirma.

O relatório especial do Edelman Trust Barometer 2020: Confiança nas Marcas, que ouviu mais de 22 mil pessoas, em 11 países, entre o fim de maio e o início de junho, revelou que, para 69% dos brasileiros, tão importante quanto o produto ou o serviço é a forma das marcas contarem o que estão fazendo para ajudar o próximo e a empatia dos porta-vozes. Ou seja, os consumidores, mais do que nunca, estão atentos às marcas e isso tem incentivado ainda mais as empresas a assumirem e a divulgarem claramente seus compromissos sociais.