Entrevista

Pré-candidato a prefeito de Curitiba, Luizão Goulart quer `importar` soluções de Pinhais

Luizão Goulart (Repub): “O conflito não traz resultado”
Luizão Goulart (Repub): “O conflito não traz resultado” (Foto: Franklin de Freitas)

Depois de governar Pinhais (região metropolitana de Curitiba) por dois mandatos, tendo sido reeleito prefeito em 2012 com o índice recorde de 94% dos votos válidos, o deputado federal Luizão Goulart (Republicanos) agora sonha com um vôo mais alto: a disputa pela prefeitura da Capital. Para isso, além dos 35 mil votos que teve para a Câmara Federal, em Curitiba, nas eleições de 2018, ele conta com a experiência adquirida na administração da cidade vizinha, e a expectativa de que a forte polarização entre direita e esquerda reflua, e permite uma recuperação das forças políticas de centro. 

Até por conta disso, Luizão – que deixou o PT em 2017, depois de 30 anos no partido, migrando para o PRB, hoje Republicanos – aposta em um discurso conciliador. Para ele, a população brasileira já se cansou de extremismos. Em entrevista ao Bem Paraná, Luizão explica como espera atrair o voto dos curitibanos nesse cenário político conturbado, e diz quais as iniciativas que ele implantou em Pinhais que podem ser trazidas para a Capital.

Bem Paraná – Qual a expectativa do senhor para a Câmara em 2020, no cenário político atual?
Luizão Goulart – A ano passado, eu considero que foi produtivo na Câmara. Os principais projetos do governo foram aprovados. Porque existe na Câmara um número significativo de deputados cujas ideias coincidem com os projetos do governo. O presidente da Câmara (Rodrigo) Maia (DEM/RJ), é desenvolvimentista. Reforma tributária, da previdência, administrativa são também prioridades do presidente da Câmara e do Legislativo como maioria. Este ano deve avançar – vai depender do que o governo vai encaminhar para a Câmara. Porque a Câmara tem projetos de reforma tributária e vários na linha da reforma administrativa. Mas reforma administrativa é uma lei de iniciativa do Executivo. Que interessa ao Legislativo. Ali tem muitos representantes dos estados e municípios. E hoje não tem mais como a administração pública continuar do jeito que está sem fazer uma reestruturação administrativa do serviço público. Então eu acredito que deva avançar a reforma tributária, tem projetos prontos já no Congresso. E o governo tem que enviar o projeto dele. Estamos aguardando o projeto do governo tanto de reforma tributária quanto da administrativa.

BP – O ano começou conturbado, com conflitos entre o presidente e seu grupo político e o Congresso. Isso pode atrapalhar o andamento dessa pauta?
Luizão – Esses conflitos, mais ou menos, são um pouco naturais no âmbito da República, Legislativo e Executivo. Mas o governo está com dificuldades de interlocução no Congresso. Ele tinha o chefe da Casa Civil, que era o Ônix (Lorenzoni), que era o representante do governo, mas agora mudou recentemente. Mas o que falta é definir um canal de comunicação entre governo e Congresso. Quem conversa são os ministros. A hora que estabelecer quem conversa...Por exemplo, o (ministro da Economia, Paulo) Guedes conversa na área de economia. E ele tem um bom diálogo com o Congresso. Tanto o Guedes, quanto o Rogério Marinho, que hoje foi para o (Ministério do) Desenvolvimento Regional, têm bom diálogo com o Congresso, até porque as pautas do Guedes coincidem com os do Legislativo.

Bem Paraná – Recentemente nós tivemos a polêmica em torno do Orçamento impositivo, cujo veto do presidente está para ser votado. Qual a sua opinião sobre isso?
Luizão Goulart – Eu tenho acompanhado as polêmicas pelos meios de comunicação. O que mudou do ano passado para esse ano? O ano passado tinha um acordo de aprovar o Orçamento impositivo. Inclusive era uma proposta defendida pelo presidente Bolsonaro, e foi defendida em plenário pelo filho do presidente (deputado federal Eduardo Bolsonaro). E para o ministro da Economia também estava tudo certo. Tanto é que foi uma proposta votada por quase unanimidade pela base do governo e até pela oposição. Agora, o que mudou para esse ano? Se o governo mudou o entendimento vai ter que reconversar. Eu defendo sempre o diálogo entre os poderes. Eu fui prefeito e sempre dialoguei com o Legislativo e isso deu bons frutos. Tem que ver o que mudou para ver se continua com o mesmo entendimento ou se vai ser diferente para a gente avaliar o veto.

BP – E a crítica de que isso seria um “parlamentarismo branco”?
Luizão – Não é “parlamentarismo branco”. Acho que o parlamento tem que ter o seu poder, com os seus limites, assim como o Judiciário. Não podemos imaginar um Judiciário, por exemplo, com poder ilimitado. Assim como não podemos imaginar o Legislativo ou o Executivo. Hoje é o Bolsonaro, amanhã é o outro presidente. Quando a gente fala em Orçamento, não precisaria nem dizer Orçamento impositivo. Como é que você vota uma lei orçamentária para não ser cumprida. Então o próprio princípio do Orçamento é para ser cumprido. Eu não vejo nenhuma dificuldade em o Orçamento ser impositivo, porque o Orçamento, por princípio, não devia nem ter esse acréscimo. Porque é uma lei que tem que ser cumprida.

BP – O ato do presidente de compartilhar vídeos convocando manifestações contra o Congresso para o próximo dia 15 foi visto como tentativa de colocar a população contra o Legislativo. Como o senhor vê isso?
Luizão - Eu sou do Legislativo. Eu acho que se o presidente da Câmara, por exemplo, daqui há pouco convoca uma manifestação contra o presidente da República. Eu não aprovaria. Porque eu acho que os poderes têm que se conversar. A população tem o direito de se manifestar, as lideranças sindicais. Agora eu sempre defendi o diálogo entre Executivo e Legislativo. Porque eu fui Executivo, eu dialoguei. Eu na Câmara sempre defendo o diálogo com o Executivo. O conflito não traz resultado, nem dentro de uma família, muito menos na administração pública.

BP – Esse ano temos eleições municipais. Este mês já abriu a janela partidária. Qual o impacto disso nos trabalhos do Legislativo?
Luizão – Um pouco sempre impacta. Têm muitos deputados que são candidatos ou que apoiam candidatos. Mas não impacta muito porque o período da eleição, mesmo, ficou mais curto. São apenas 45 dias. Antigamente começava já em julho, então você tinha três meses só de eleição. O período da eleição mesmo vai impactar pouco o Congresso. Mas o fato da eleição depender muito de popularidade, as votações no Congresso tendem a ficar um pouco em torno de projetos mais consensuais. Projetos polêmicos dificilmente terão sucesso no Congresso esse ano.


PARTIDO

'Republicanos tirou esse carimbo da Universal'

Bem Paraná – O senhor foi do PT durante 30 anos e deixou a legenda em 2017. Por quê?
Luizão Goulart – Foi o único partido que eu me filiei, em 87, porque eu não sou muito de mudança de partido. Em relação às minhas ideias e as ideias do partido, nós fomos criando uma distância. E eu como nunca fui muito de esquerda, tampouco de direita, sempre fui mais de centro. Então eu me identifiquei mais com o Republicanos, que é um partido de centro.

BP – O Republicanos, que antes era PRB, é visto como um braço político da Igreja Universal do Reino de Deus. Não foi uma mudança muito radical?
Luizão – O Republicanos sempre foi mais defensor os costumes, da família, da religião. Eu também defendo a família, a religião, só que eu sou católico. O Republicanos, a própria mudança de nome, já veio no sentido de tirar esse carimbo de Universal. Porque hoje nós temos 32 deputados federais e a maioria não é ligada à Igreja Universal. Prova disso é que eu sou católico praticante e eu fiz a opção pelo Republicanos. O Republicanos respeita a diversidade de religião. Não tem um vínculo do partido com a religião. Quem pertence à Igreja Universal está no Republicanos, mas quem pertence a outras igrejas também, assim como tem gente da Igreja Universal em alguns outros partidos também. Não é uma regra geral.

BP – O que levou o senhor a se lançar como pré-candidato à prefeitura de Curitiba?
Luizão – Foi o sucesso da nossa administração em Pinhais. Que é uma das 15 principais cidades do Paraná em população, arrecadação e importância. E durante 8 anos, a administração de Pinhais, principalmente nos últimos 4 anos, foi considerada a mais bem avaliada do Brasil, segundo o instituto Paraná Pesquisas. Nós tivemos sucesso em diversas áreas, vários exemplos bem sucedidos. A administração bem avaliada me credenciou a ser o candidato do partido Republicanos aqui em Curitiba. Eu acredito que eu posso contribuir muito com a Capital, começando pela discussão dos problemas da Capital, apresentando soluções que já deram certo em Pinhais.

BP – Que tipo de projeto que o senhor desenvolveu como prefeito de Pinhais poderia ser trazido para Curitiba?
Luizão – Projetos inovadores na área do trânsito, infraestrutura. Por exemplo, qualidade de vida para a população. Em Pinhais você não tem mais valetas abertas. É só circular pelos bairros de Curitiba que você vai ver um monte de valeta aberta. Todas as ruas de Pinhais são pavimentadas e pavimento de boa qualidade. Aqui em Curitiba tem muitos bairros que são remendos, e muitos bairros que são ruas de chão. Quem olha o Centro da Capital – é evidente que o Centro tem que ser cuidado, porque todo mundo usa o Centro da cidade – mas se você percorrer os bairros, você vai ver muitos problemas. Os alagamentos, por exemplo, em Pinhais, não tinham solução, eram uma calamidade, dava uma chuva forte boa parte da cidade ficava alagada, porque tem oito rios que passam por Pinhais, inclusive três represas de Piraquara. Eu encarei a situação. E praticamente resolvemos o problema dos alagamentos em Pinhais. Em Curitiba é só dar uma chuva forte que você vai ver: ou é o ribeirão dos Padilhas, ou é o rio Belém, o Barigui, o Atuba. O rio Atuba, por exemplo, que é divisa com Pinhais. A parte de Pinhais nós resolvemos. Dragamos, fizemos limpeza, recomposição da margem, barreira de contenção, plantio de árvores. Quando você olha o lado de Curitiba, eu não tive parceria com o município de Curitiba. E os municípios, hoje estão muito interligados. Na área da educação, nós implantamos escola em tempo integral, programas para crianças, adolescentes, jovens. Prevenindo a violência. Se nós fizemos em Pinhais, com orçamento bem menor, acredito que a gente vai poder fazer em Curitiba também. Respeitando a proporcionalidade do tamanho das cidades. Eu tenho essa noção.


BASE ALIADA

'Acho que o governador vai ficar neutro'

Bem Paraná – Apesar de ter deixado PT recentemente, o senhor tem uma história no partido. Boa parte do eleitorado de Curitiba tem demonstrado um sentimento anti-PT, inclusive o Bolsonaro teve mais de 70% dos votos no segundo turno de 2018. O senhor não teme que essa ligação seja explorada na campanha?
Luizão Goulart – Acredito que não atrapalha. Eu aceito voto de todo mundo. Agora, uma coisa é certa, o PT não vai me apoiar em Curitiba. Já não me apoiou na última eleição, muito pelo contrário, o PT de Pinhais trabalhou contra a minha candidatura, e depois perseguiu e expulsou do partido quem me apoiou. Eu mesmo sendo do PT, meu espectro de alianças sempre foi muito amplo. Na minha primeira eleição para prefeito (em 2008) eu fiz uma coligação com 14 partidos. Na segunda (em 2012), eu fiz uma coligação com 21 partidos. Tinha até PSDB. Na eleição da minha sucessora (Marli Paulino), nós fizemos uma coligação com 17 partidos. Então eu sempre fui muito diferente das posições do PT. Eu sempre fui mais conciliador, de centro. Por isso ficou difícil a minha permanência no PT, porque o PT me criticava muito por isso.

BP – Hoje nós vivemos um momento em que o centro perdeu espaço. Nas eleições de 2018, o grande perdedor foram as forças políticas de centro. O senhor acha que ainda existe espaço para o centro em meio a essa polarização entre direita e esquerda?
Luizão – Eu acho que a eleição passada foi muito polarizada entre direita e esquerda. Eu acho que de lá para cá tanto a direita extrema, como a esquerda extrema perderam espaço. Hoje, por exemplo, os partidos que não se identificam com direita e esquerda extrema estão mais no centro. O maior conjunto de partidos não se identificam com esses extremos. O extremismo já vem perdendo espaço no Brasil. O (governador) Ratinho Jr, do PSD, é um partido de centro.

BP – O senhor acha que essa onda de extremismo tende a refluir?
Luizão – Eu acredito, porque a maioria da população não é de extremismo. Não é ou esquerda ou direita, é mais harmônica. Acredito que a tendência é o equilíbrio.

BP – Outra pauta em discussão na Câmara é a questão da prisão após condenação judicial em segunda instância. Qual a sua posição?
Luizão – Eu vejo que o projeto está bem adiantado. Eu sou defensor do cumprimento da pena após condenação em segunda instância, inclusive para todos os casos, não só na criminal. Na área tributária também. Esse projeto vai ser aprovado, mas um projeto mais de consenso. A forma como chegou o primeiro projeto ao Congresso ia ser contestado.

BP – O transporte coletivo de Curitiba tem perdido usuários o que acaba agravando o déficit do sistema e pressionando a tarifa. Como resolver isso?
Luizão – Eu via Curitiba inovadora nos anos 80 e 90, ser exemplo para o Brasil e o mundo. De lá para cá, além das canaletas exclusivas de ônibus, alargamento, articulado que virou biarticulado, não teve mais novidades no transporte coletivo. E Curitiba, também, não só no transporte, teve conflitos com o governo do Estado em uma época e trabalhou meio isolado. Eu defendo um amplo debate, outras alternativas. Por exemplo, é importante a gente utilizar as linhas férreas que cortam a cidade e são um problema, a gente otimizar essas linhas, o que coincide com o que pensa o governador do Estado. Utilizar melhor essas linhas para transporte de passageiros. Uma parceria da prefeitura com o governo. Seria uma inovação. Não defendo mais metrô subterrâneo. Mas metrô de superfície ou suspenso, eu defendo. São investimentos modernos que podem melhorar. Eu acho que nós temos que usar criatividade para atrair o usuário. Tem que ser de qualidade, com preço acessível, porque se não o Uber compete com o transporte coletivo. Tem que ser rápido, eficiente. E tem que ter recurso público, senão não se viabiliza.

BP – O Republicanos integra a base do governo Ratinho Jr. Como o senhor acha que deve ser a postura do governador na campanha, já que o Democratas do prefeito Rafael Greca também é aliado do governo, assim como o Ney Leprevost, que é do PSD, partido do governador, e o PSL, do deputado Fernando Francischini, todos pré-candidatos à prefeitura de Curitiba?
Luizão – Não sou eu que vou dizer como o governador deve se portar no primeiro turno. Mas o que eu acho que vai acontecer é a neutralidade do governador. Porque nós somos vários candidatos da base do governo. Estamos integrando o governo no Executivo, como nossa base na Assembleia Legislativa apoia o governador, nós fizemos a campanha junto. Em Curitiba, que para o governador, não é uma posição difícil, é uma posição confortável. São vários candidatos com potencial de disputar a eleição e que são da base dele. Qualquer um que ganhar estará bem representado o governo na Capital.