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Patinar é sonhar: conheça a história de Eneas Marcondes

Eneas Marcondes e a esposa, Jô Lima: companheiros de sonho
Eneas Marcondes e a esposa, Jô Lima: companheiros de sonho (Foto: Franklin de Freitas)

Dizer que o esporte transforma vidas pode soar clichê, mas em algumas situações se torna quase que inevitável repetir o chavão. É assim com a história do professor de educação física Eneas Marcondes, 42 anos. Morador de Pinhais, na região Metropolitana de Curitiba, ele hoje é presidente, treinador e jogador do No Fear Hockey Inline, equipe fundada em 2008 em Curitiba. Além disso, mantém um projeto social chamado Vidas Sobre Rodas e também dá aulas particulares de patinação e hóquei.

Antes do esporte, porém, Eneas foi muitas outras coisas. Ainda criança, com menos de 10 anos, ele ia até o autódromo, que ficava ao lado de sua casa, e ganhava “um dinheirinho”, como ele mesmo diz, ajudando a cuidar de carros enquanto aconteciam eventos ali. Com 14 anos arranjou seu primeiro emprego oficial, trabalhando como empacotador de supermercado. Depois dali nunca mais parou, tendo ainda uma longa trajetória como metalúrgico, mais precisamente atuando como soldador.

Com um ingresso tão precoce no mundo do trabalho, porém, os estudos acabaram ficando de lado. “Fui um jovem meio rebelde. Repeti a quinta série algumas vezes, aí abandonei a escola com 14 anos e fui trabalhar”, relata.

Quando tinha 17 para 18 anos, porém, tudo começou a mudar. É que no final da década de 1990 houve um “boom” da patinação no Brasil e a mãe de Eneas presenteou sua irmã com um patins de plástico, dos mais simples. Ela, porém, não se interessou muito pelo equipamento e o colocou de lado.

“Eu falei ‘então vou usar’ e ela deixou. Eu peguei, subi num asfalto aqui perto de casa, um dos primeiros asfaltos na cidade, e encontrei um grupo de amigos que estavam andando juntos. Chamaram para eu ir no dia seguinte, um foi chamando o outro e foram semanas a fio assim, eu gostei. Eram uns patins de brinquedo e arrebentei eles inteiros em duas semanas. Aí comprei outro para minha irmã e mais um para mim. Virou rotina: voltava para casa do trabalho e ia patinar.”

Quem não gostou nada da novidade, em princípio, foram os pais de Eneas. “Eles cobravam muito de eu voltar a estudar, que andar de patins não é vida”.

A brincadeira de rua, contudo, foi ficando cada vez mais séria.

Volta às aulas para realizar um sonho

Durante quase toda a sua carreira de atleta, Eneas teve de se dividir entre o esporte e o trabalho. Trabalhou como auxiliar de produção, metalúrgico, aprendeu a ser serralheiro e se especializou em todos os tipos de solda. Foram cerca de 15 anos trabalhando na indústria, período no qual ainda teve de se desdobrar com a escola.

Isso porque, já com 30 anos, Eneas Marcondes decidiu que era hora de retomar os estudos. Começou na quinta série, estudando ao lado de adolescentes, e finalizou o ensino fundamental. Na hora de fazer o ensino médio, optou por ficar na escola regular, para pegar toda a base curricular e estar melhor preparado na hora de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Todo o esforço foi recompensado anos depois, quando ele conseguiu uma bolsa de 50% para cursar Educação Física. “Fiz a faculdade e me formei. Antes disso, porém, fui um jovem rebelde, bagunceiro. Fui, de certa maneira, um risco de se perder. Mas graças ao esporte, às amizades e à família, dei a volta por cima e me libertei. Hoje vivo um desafio diferente, que é se manter no esporte, agora já com idade mais avançada.”

“Um menino que tinha pai serralheiro fez umas travinhas, gol pequeno com rede, veio com uns tacos feito em casa e uma bolinha de sinuca e começamos a jogar. Um dava na canela do outro, tacada na perna, e assim a gente passava horas e horas. Final de semana saía procurando escada para saltar, para ver quem pulava de mais alto. Voltava tudo ralado para casa, mas feliz.” Eneas Marcondes

‘Família Hóquei’ está crescendo

A escola, curiosamente, acabou se tornando um cenário primordial na vida de Eneas Marcondes desde que ele voltou a estudar. Foi o Colégio Estadual Castelo Branco, onde se formou no ensino médio, que lhe deu a oportunidade de iniciar o projeto Vida Sobre Rodas, com aulas gratuitas de patinação e hóquei. Foi nesse colégio, também, onde ele conheceu sua esposa, Jô Lima, que se tornou sua colega de esporte e em breve irá também se formar em Educação Física.

“Ela [Jô] conheceu comigo o esporte. Ela começou do zero, nunca tinha colocado um patins no pé. Hoje é atleta, treina com a gente, dá aulas para iniciantes e alunos de nível intermediário. Não teve jeito: minha vida é em cima do patins, não tem como ela não patinar também”, brinca ele, orgulhoso ainda pela família estar crescendo: há três meses, no dia 13 de novembro, nasceu Olívia Luéji, filha de Eneas e Jô e muito provavelmente a mais nova patinadora curitibana.

Missão de vida: divulgar o esporte

Além da escola em Pinhais, Eneas Marcondes também já levou à regional do Cajuru, em Curitiba, o projeto Vidas Sobre Rodas, que oferece aulas gratuitas de patinação e hóquei. As aulas acontecem na terça-feira de manhã e aos sábados, mas estão suspensas por conta da pandemia do novo coronavírus, aguardando autorização da Prefeitura para a retomada das atividades.

Desde a sua criação, porém, mais de 200 pessoas, das mais diversas idades, já foram atendidas e conheceram ao menos um pouco mais sobre a patinação e o hóquei. A procura pelas aulas, inclusive, é grande, já que o número de vagas é limitado, inclusive com fila de espera para novos interessados.

“Eu me formei em Educação Física para referenciar esse trabalho, sabia que precisaria de formação e capacitação técnica, porque só o sonho não iria vender. O projeto tem a missão de revelar talentos, unir a família e desenvolver a patinação. O equipamento faz diferença, então eu levo, empresto o meu. Não tenho problema com gastar material, o que quero é plantar a semente no coração da pessoa.”

Eneas, inclusive,  não mede esforços para conseguir levar o esporte aos outros. Como não tem carro, por exemplo, é comum ver ele por aí patinando com dois ou três patins nas costas para poder emprestar aos alunos.