Força-tarefa

Polícia já ouviu 30 pessoas sobre tortura contra crianças em escola no Água Verde: suspeita nega crime

Os delegados José Barreto e Ellen Victer, do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria),
Os delegados José Barreto e Ellen Victer, do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria), (Foto: Valquir Aureliano)

Os delegados José Barreto e Ellen Victer, do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria), disseram na manhã desta sexta (5) que tiveram que fazer uma espécie de força-tarefa para ouvir todas as testemunhas sobre o caso da diretora e proprietária  da Escola Cimdy, no Água Verde, suspeita de torturar crianças de 0 a 6 anos. O inquérito trabalha com denúncia por tortura, fraude processual e coação. Já foram ouvidas 30 pessoas desde que o boletim de ocorrência foi registrado por pais de vítimas, na última segunda (1).  A própria suspeita, 64 anos, se apresentou espontaneamente à polícia e foi ouvida na quinta (4). Segundo os delegados, muito calma, ela admitiu ser rígida na educação das crianças, mas negou o crime de tortura. "Foram ouvidos, pais, alunos, professores, um recorde para a delegacia em tão pouco tempo. Estamos recebendo muitos pais. Anotando os nomes e entraremos em contato", disse Barreto. Há, inclusive, alunos já adultos que se recordaram das supostas agressões que estão depondo, o que leva a polícia a acreditar que as torturas aconteciam desde que a escola foi fundada, há 23 anos. 

A delegada Ellen afirmou que não conseguirão ouvir todas as testemunhas, mas que os nomes serão enviados no inquérito caso o juiz queira ouvir. Segundo ela, poucos funcionários disseram não terem visto nada de estranho no comportamento da diretora. "A maioria citou casos de excessos", afirmou Ellen. Psicológos do núcleo também ouviram as crianças que prestaram depoimentos e emitirão laudos. A delegacia também orientou que os pais levem os menores para exames no Instituto Médicol Legal (IML) para exames a fim de comprovar lesões corporais. 

Os delegados também aguardam o laudo do Instituto de Criminalística sobre as imagens das câmeras de segurança internas. Como foram entregues pelos advogados de defesa é preciso verificar se as imagens não foram manipuladas. O boletim de ocorrência foi feito com base em dois vídeos do circuito interno da escola, captados por uma funcionária. Num deles, a diretora fica em cima de uma criança de aproximadamente 2 anos, aparentemente a sufocando para dormir. No outro, a diretora briga com duas crianças também de dois anos, chacoalha uma delas e  bate na boca de outra. Esses dois vídeos foram compartilhados com os pais e acabaram enbasando a denúncia. 

A delegada Ellen esclareceu que a suspeita não foi presa, porque não houve flagrante e até agora ela e os advogados têm colaborado e compareceu à polícia espontaneamente.

NÂO FOI A PRIMEIRA DENÚNCIA - Os delegados confirmaram que não foi a primeira denúncia por tortura contra a escola. Em 2014, o Nucria recebeu uma denúncia, que foi investigada e encaminhada à justiça como ação penal, mas foi arquiva pelo Poder Judiciário por falta de provas. 

PAIS INDIGNADOS - Ricardo Pereira, 39 anos, pai de um aluno da escola, disse que já tinha notado que a filha tinha muito medo da diretora, "A tortura foi maior com os menores de dois anos", afirmou. Luiz Gustavo Stenke, pai de duas crianças que estudavam na escola, um com 1 ano e 4 meses e outro de 4 anos, disse que quer Justiça. " Agora que estão longe da escola, da pressão psicológica, as crianças estão começando a soltar sobre as agressões psicológicas e físicas. O de quatro anos disse que a diretora costumava bater no colega. Ela (a diretora) falava em amor às crianças pra gente e não foi nada disso que fez com nossos filhos", afirmou ele. 

DEBANDADA - A escola, segundo a delegada, está fechada, e até ontem tinha feito  120 rescisões de contrato por conta das denúncias.

Nota Sinepe

O Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (SINEPE) encaminhou uma nota em que afirma que "orienta seus associados sobre a legislação, promove eventos que buscam trazer para os gestores conhecimento de questões educacionais, legais etc, mas que situações como esta são CASO DE POLÍCIA. É claro que o SINEPE nunca vai apoiar ou tomar qualquer atitude que seja conivente a esse tipo de situação, mas, como dito, ocorrência policial deve ser tratada pela polícia e pelas autoridades competentes. Até por que sequer sabermos o que aconteceu, não temos como fazer juízo de valores sobre a escola, mas, diante das denúncias, ela que responda às autoridades, nos termos da lei", diz a nota.

Aos pais, o Sinepe orienta "que os pais sempre busquem referências das escolas antes de fazer matrícula e, depois, que sempre estejam próximos da escola e seus dirigentes, comparecendo às reuniões e frequentando o ambiente institucional o mais reiteradamente possível, para que se crie confiança entre o aluno, escola e os pais."

Nota de esclarecimento 

"A escola Cimdy tem um histórico de mais de duas décadas comprometido com e educação e a formação de centenas de indivíduos. 
O respeito e a confiança sempre pautaram as relações entre instituição, pais e alunos. Uma condição validada por alunos, ex-alunos e pessoas que se envolveram com a instituição de ensino em todos esses anos. 
A denúncia não define a conduta e a atuação da escola, a qualidade de seu histórico, nem a credibilidade de toda a equipe de profissionais que nela ou com ela trabalham. 
Os responsáveis pela escola estão à disposição das autoridades públicas para prestar todos os esclarecimentos necessários e se dedicam para, acima de tudo, preservar os alunos e conceder segurança no relacionamento com os pais e prestadores de serviços envolvidos com a instituição. 

Cimdy Educação Infantil"