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Vaza Jato

Procuradores do MPF criticavam agenda política de Moro e temiam pelo futuro da Lava Jato caso juiz aceitasse convite de Bolsonaro

(Foto: Wilson Dias/Arquivo/Agência Brasil)

O jornal The Intercept divulgou na madrugada deste sábado (29 de junho) mais uma reportagem da série 'Vaza Jato', que tem revelado conversas que teriam sido mantidas por membros do Minitério Público Federal (MPF) e o juiz Sergio Fernando Moro, acerca da Operação Lava Jato. E na oitava reportagem, os jornalistas Glenn Greenwald, Rafael Moro Martins, Leandro Demori e Victor Pougy mostram que procuradores do MPF criticavam a agenda pessoal e política do hoje 'super-ministro' da Justiça e Segurança Pública, além de externarem preocupação quanto ao futuro da Lava Jato caso Moro aceitasse integrar o governo do então recém-eleito presidente da República Jair Bolsonaro.

Confira a reportagem completa, com todos os diálogos na íntegra, no The Intercept

Numa das conversas, uma integrante da Procuradoria da República nos municípios de Osasco e Barueri, que teria trabalhado no Paraná em 2008, critica a atuação de Moro, junto com outro colega. Ela escreve: "Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados". A mensagem foi enviada uma hora antes do então juiz confirmar que aceitaria o convite de Bolsonaro para integrar o novo governo.

Na visão de procuradores, ao assumir o Ministério da Justiça (anteriormente, em pelo menos sete entrevistas ele havia negado que entraria para a política), Sergio Moro colocou em dúvida o legado e a legitimidade da Operação Lava Jato. Mesmo o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, e um dos mais experientes integrantes do grupo, Carlos Fernando dos Santos Lima, confessaram torcer para que Moro não se juntasse a Bolsonaro.

No dia 31 de outubro, um dia antes do anúncio de Moro, uma procuradora da força-tarefa em Curitiba escreveu num grupo do Telegram achar "péssimo" uma possível nomeação do então juiz federal. "Só dá ênfase às alegações de parcialidade e partidarismo". Outras integrantes da força-tarefa concordaram, acrescentando que a medida poderia "queimar a Lava Jato" e o próprio juiz. "É o fim ir se encontrar com Bolsonaro e semana que vem ir interrogar o Lula."

Um dos procuradores da operação ainda enfatiza que a postura de Moro era "incompatível com a de um juiz". "Ministro do STF é um cargo no Judiciário, que seria o reconhecimento máximo na carreira. Como ministro da Justiça vai ter que explicar todos os arroubos do presidente, vai ter que engolir muito sapo e ainda vai ser profundamente criticado por isso. Veja que um dos fundamentos do pedido feito ao comitê da ONU para anular o processo do Lula é justamente o de falta de parcialidade do juiz. E logo após as eleições ele é convidado para ser ministro. Se aceitar, vai confirmar para muitos a teoria da conspiração. Vai ser um prato cheio. As vezes, o convite, ainda que possa reepresentar o reconhecimento (merecido), vai significar para muita gente boa e imparcial, que nos apoia, sem falar da imprensa e o PT, uma virada de mesa, de postura, incompatível com a de Juiz."

No dia seguinte, a medida que os boatos da nomeação ganharam força, outros membros do MPF não envolvidos diretamente com a Operação Lava Jato passaram a criticar o futuro 'super-ministro' de Bolsonaro. Dois deles, membros do MPF no interior de São Paulo, comentam já terem atuado no Paraná e conhecerem o trabalho do juiz Sergio Moro. Acusam que ele faria 'tabelinhas', inocentando alguns e condenando outros tantos para criar uma percepção de imparcialidade.

Depois da nomeação, um dos membros do grupo no Telegram chega a afirmar que "o PT deve estar em festa agora, para justificar todo o discurso deles". Um procurador da República do Distrito Federal ainda complementa argumentando que "fica claro que ele (Moro) tinha Lula como troféu". 

A declaração mais forte, porém, teria sido dada por uma procuradora, que acusou ainda moro de fazer "escadinha" política com a Lava Jato. "Moro ajudou a derrubar a esquerda, sua esposa fez propaganda para Bolsonaro e ele agora assume um cargo político. Não podemos olhar isso e achar natural."

Num outro grupo, membros da Lava Jato no Rio de Janeiro reclamam da decisão do juiz, avaliada como 'inoportuna'. Um dos procuradores, inclusive, analisa que seria difícil, a partir da assunção de Moro ao Ministério da Justiça, afastar a imagem de que a Lava Jato integou o governo Bolsonaro. "Vejo, por esse motivo, com muita preocupação esse passo do Moro"

As preocupações de membros do MPF acerca da relação da Lava Jato com a candidatura de Bolsonaro, contudo, eram antigas. A três dias do segundo turno das eleições, em 25 de outubro, um procurador da Procuradoria Regional da República da 4ª Região teria escrito: "Ele (Moro) se perdeu e pode levar a Lava Jato junto."

Apoiadores torceram contra nomeação e externaram preocupações

Mesmo Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima demonstraram preocupação com a nomeação de Moro. Dallagnol, embora ainda defendesse o ex-juiz, preocupava-se com os danos causados à reputação e à credibilidade do trabalho de cinco anos da Lava Jato. Carlos Fernando, por sua vez, teria admitido a um assessor de imprensa do MPF que "torcia" para que Moro recusasse o convite de Bolsonaro. "Creio que o que eu tinha para falar, já está falado. Agora é rezar para que ele não aceite", teria dito o procurador, íntimo do juiz, segundo o relato do assessor.

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