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Projeto do Centro de Estudos do Mar da UFPR vai para a Antártica

Projeto do Centro de Estudos do Mar da UFPR vai para a Antártica
(Foto: César Martins)

O projeto "As múltiplas faces do carbono orgânico e metais no ecossistema subantártico: variabilidade espaço-temporal, conexões com fatores ambientais e a transferência entre compartimentos" (CARBMET) foi o único da Universidade Federal do Paraná (UFPR) aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no âmbito da Chamada do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). O resulto preliminar foi divulgado no dia 9 de novembro.

O CARBMET será executado ao longo dos próximos 48 meses e desenvolvido por meio de cooperação entre a UFPR, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS). A coordenação geral está a cargo do professor César de Castro Martins, do Centro de Estudos do Mar (CEM) da universidade paranaense. Também participam da pesquisa os professores Renata Hanae Nagai e Marcelo Renato Lamour, do CEM, e o professor Marco Tadeu Grassi, do Departamento de Química da UFPR.

Segundo Martins, a região da Península Antártica, onde o estudo será desenvolvido, é considerada uma das poucas áreas relativamente preservadas do planeta, constituída de sistemas ecológicos e criosféricos capazes de responder de forma dinâmica a mudanças ambientais ocorridas em escala local e global. “A elevação da temperatura global é sistematicamente sentida nessa região, resultando na diminuição das áreas de gelo marinho, no aumento pronunciado no aporte de material continental e, consequentemente, na alteração da dinâmica do carbono orgânico e dos metais-traço no ambiente marinho local”.

O gelo marinho é uma força estruturante nos ecossistemas antárticos e desempenha um papel crucial na produtividade primária no Oceano Austral. “A produção primária (fitoplâncton) associada ao gelo marinho, por exemplo, pode contribuir com até 25% da produção global de material orgânico no Oceano Austral. O fitoplâncton marinho fixa dióxido de carbono dissolvido na superfície do oceano através da fotossíntese. Este processo aumenta o fluxo de CO2 da atmosfera para o oceano e, portanto, desempenha um papel fundamental na mitigação do aquecimento global”, explica o professor.

Com o derretimento do gelo marinho, metais-traço aprisionados são liberados nas águas superficiais interferindo na dinâmica biogeoquímica destes sistemas. “Ou seja, o estudo do ciclo do carbono orgânico e de metais em um ambiente sensível às mudanças ambientais recentes pode nos dar pistas de como o planeta como um todo pode ser afetado neste cenário de transformações climáticas”, revela Martins.

Pesquisas na Antártica

A partir da década de 1950, o crescente interesse científico por este ecossistema polar, a proximidade com a América do Sul, o clima menos severo e a acessibilidade durante o verão culminaram na instalação de estações de pesquisa científica na porção subantártica. Além das atividades associadas à pesquisa científica, segundo o pesquisador, o transporte atmosférico de material gerado pelas atividades humanas, o turismo crescente e, em menor escala, a pesca representam importantes intervenções antrópicas no ambiente subantártico.

“Dessa forma, a atividade humana nessa região tem gerado diversos passivos ambientais relacionados, por exemplo, com a introdução crônica ou acidental de petróleo e derivados; queima de combustíveis fósseis; substâncias presentes em produtos de uso pessoal; resíduos plásticos; rejeitos metálicos gerados nas instalações científicas; e o descarte de esgoto no meio marinho”, comenta. Assim, o objetivo do projeto é contribuir para a elucidação das múltiplas faces do carbono orgânico e de elementos metálicos no sistema subantártico frente às mudanças climáticas globais; à interferência antrópica local e de longa distância e às conexões com fatores ambientais; e à transferência de material orgânico e inorgânico entre compartimentos da hidrosfera marinha antártica.

Expedições

O projeto prevê a participação de pesquisadores em três expedições ao ambiente subantártico, que se darão no período de verão de 2019 a 2022, para a coleta de amostras de água superficial, material particulado em suspensão e sedimentos de fundo. De acordo com o professor, serão instalados amostradores passivos que ficarão em contato direto com o ambiente subantártico, retendo componentes orgânicos que ajudarão a determinar a presença de produtos oriundos da atividade humana na região.

“A iniciativa envolve uma logística peculiar e complexa pois equipamentos e materiais de campo devem ser deslocados para o Rio de Janeiro, onde serão embarcados em navios da Marinha do Brasil que se deslocam para a Antártica. Os pesquisadores se deslocam do Brasil até o extremo sul do Chile, onde embarcam em aeronaves da Força Aérea Brasileira rumo à Antártica, quando as condições climáticas locais permitirem o pouso”, esclarece Martins.

Cada etapa de campo terá a duração média de 30 dias e a equipe do projeto ficará confinada na estação brasileira de pesquisas antárticas estabelecida na Baia do Almirantado, localizada na Ilha Rei George. A estação deve ser reinaugurada em fevereiro de 2019 após um longo período de reconstrução. Os pesquisadores que executarão atividades na Antártica passarão por um treinamento específico (Treinamento Pré-antártico) que é realizado anualmente na Ilha da Marambaia, no Rio de Janeiro, pela Marinha do Brasil.

PROANTAR

O edital CNPq do PROANTAR é lançado a cada quatro anos e, nesta edição, foram 114 propostas submetidas e apenas 16 projetos selecionados para execução. O Conselho destinará 400 mil reais em recursos para a pesquisa em questão, sendo cerca de 90 mil reais atribuídos a bolsas para formação de recursos humanos.

“A integração das informações por meio das múltiplas temáticas a serem desenvolvidas no projeto contribuirá para a compreensão do ciclo do carbono natural e antrópico no ambiente subantártico em consonância com objetivos específicos dentro do plano de ação do PROANTAR, no que diz respeito aos Efeitos das Mudanças Climáticas na Biocomplexidade dos Ecossistemas Antárticos e suas Conexões com a América do Sul e Mudanças Climáticas e o Oceano Austral”, defende o pesquisador.

Ademais, Martins cita que os resultados do projeto são de relevância ao estado da arte a nível internacional e que gerará produtos científicos que podem alavancar o PROANTAR a um nível de protagonismo científico frente às demais comunidades de pesquisa antártica no Cone Sul e de destaque em áreas específicas do conhecimento na comparação às principais potências da pesquisa antártica mundial, evidenciando a UFPR como um polo de pesquisa de destaque na pesquisa antártica brasileira.

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