Maternidade

Quinze

Em um iniciozinho de tarde de 92, fui levada por meu pai ao compromisso que - àquela altura - parecia ser o mais importante do ano. O carro estacionou por alguns poucos segundos; tempo suficiente para a menina, de bobs, colocar os pés na avenida Rui Barbosa, impulsionar o resto do corpo para fora da Santana Quantum, voltar o rosto para o pai, soltar o beijinho de obrigada e subir correndo as escadarias da Associação Garanhuense de Atletismo. 

Era o ensaio do baile de debutantes da cidade. A tarde em que conheceríamos nossos pares da primeira valsa. Estavam no salão da AGA, além das vinte e poucas meninas, os cadetes do exército que nos acompanhariam do palco até o salão, desfilariam conosco enquanto éramos apresentadas à sociedade e rodopiariam um Danubio Azul antes de nos devolver aos nossos pais.

“Roberta D´Albuquerque é filha do Dr João Paulino e da Dra Ana Maria, seu vestido foi criado e confeccionado por ‘nunca vou lembrar o nome’, seu esporte favorito é natação, e no futuro, escolheu ser arquiteta.”

No meio do ano passado, minha irmã recebeu no whatsapp um vídeo dessa festa. No fundo tocava Crença e Fé de Daniela Mercury. E lá pelas tantas, uma menina de dentinhos tortos, flores no cabelo e mangas bufantes, balançava o corpo e cantava desconcertada, “vou dar a volta no mundo eu vou, vou ver o mundo girar.” Era eu aos 15.

Ontem, foi o aniversário de minha filha mais velha. Também fez 15. Desavisada da volta que dava tantos anos depois, lhe escrevi -  e escrevi a mim mesma, a menina que fui - um bilhete para lembrá-la que o mundo é maior do que a gente pensa, é complexo, lindo e repleto de possibilidades. Ela leu e riu doce.

Não tenho dúvidas de que sabe disso. Fez essa descoberta bem mais cedo. Lalá é do sentir, do experimentar, não do ensaiar. Não se deixa definir por filiação, origem da roupa,  ou um ‘o que escolheu para o futuro’. Ela é ser no gerúndio. Segue escolhendo, definindo e se redefinindo. Jamais dançaria uma primeira valsa - metafórica, claro - com um par nomeado por outro. E aliás, está muito mais para o pulsar do Ilê Ayê que Daniela canta em sua música. Viva a minha menina, que decerto já viu e ainda verá muitas vezes o mundo girar.

Um beijo para o Darwin. E boa semana queridos.

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