Turismo ecológico

Reserva Natural criada há três décadas no Litoral do Paraná e localizada na maior área de Mata Atlântica do mundo passa a receber visitantes

(Foto: Reginaldo Ferreira/Divulgação SPVS)

A SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) abriu para visita pública áreas de uma das Reservas Naturais que mantém no município de Antonina, no litoral norte do Paraná. Desde o final de agosto, o público em geral já pode fazer no site da SPVS o agendamento das visitas. Com a novidade, a população passa a poder conhecer, presencialmente, na Reserva Natural Guaricica, os resultados de um trabalho de décadas em prol da conservação e da restauração da natureza e da biodiversidade.

Com a abertura do espaço ao público agora, a expectativa é de que, mais adiante, as outras duas Reservas criadas pela instituição (Reserva Natural das Águas, também em Antonina, e Reserva Natural Papagaio-de-cara-roxa, em Guaraqueçaba), também passem a receber visitantes interessados em compreender mais sobre a importância da preservação ambiental, especialmente da Mata Atlântica e seus ecossistemas associados.

Práticas como observação de animais, inclusive noturnos, e acampamentos também serão consideradas em programações futuras. Todas as novidades, entretanto, incluindo o momento em que serão anunciadas, vão respeitar as orientações e recomendações das autoridades de saúde.

Natureza e dignidade humana restauradas
Por enquanto, na Reserva Natural Guaricica, a maior das três, o visitante terá a oportunidade de fazer uma trilha de nível fácil com duração de cerca de uma hora. Nela, vai ser apresentado a um cenário que conta – por meio de exemplos práticos e da narração de colaboradores da SPVS que fizeram parte das diversas fases de criação e consolidação das Reservas – a história das áreas.

Durante a visita, serão relembradas as diferentes etapas e os desafios enfrentados pela equipe desde a época em que as áreas foram adquiridas, quando a sua exploração estava baseada na criação de búfalos.

Agora uma das Reservas passa a poder ser frequentada pela população, que vai poder observar os efeitos de uma transformação que hoje permite a existência de animais ameaçados de extinção que, por anos, não foram mais vistos na região por conta de atividades predatórias. Onça-parda, jaguatirica, cotia, irara e outras espécies nativas são alguns exemplos. A experiência da visita completa à Reserva Natural, no total, dura cerca de três horas.

O acompanhamento do passeio e o relato sobre as diferentes fases de recuperação da Reserva são feitos por funcionários da SPVS, que há anos atuam na instituição. Reginaldo Ferreira é coordenador das atividades nas três Reservas da SPVS e destaca que a história de restauração das áreas é também uma história de restauração de vidas.

“Nada menos que 1.500 hectares de áreas naturais estão em processo de restauração. Foram plantadas quase um milhão de árvores nativas e este trabalho foi feito pelas mãos de moradores locais, que, antigamente, trabalhavam nas fazendas que foram adquiridas. O conhecimento tradicional trazido por essas pessoas, aliado ao científico, foi fundamental para hoje aproveitarmos conquistas dignas de serem celebradas”, diz ele.

Reginaldo também lembra que, com a recuperação da floresta, que além dos ganhos com a conservação – hoje é capaz de estocar cerca de 700 mil toneladas de carbono, auxiliando na redução dos impactos das mudanças climáticas. Houve também a recuperação da dignidade social dos moradores da região, que tiveram oportunidades de inclusão e educação.

Grande Reserva Mata Atlântica e turismo de natureza
Clóvis Borges, diretor-executivo da SPVS, diz que as três Reservas Naturais são áreas muito importantes localizadas no coração da Grande Reserva Mata Atlântica, que, com mais de dois milhões de hectares de floresta tropical contínua, fica localizada entre o litoral Sul de São Paulo e o litoral norte de Santa Catarina, representando o maior remanescente contínuo do bioma Mata Atlântica do mundo.

“As Reservas fazem parte de um mosaico maior, composto por outras Unidades de Conservação como Parques Nacionais, Estações Ecológicas e outras importantes áreas de proteção ambiental. A abertura das Reservas Naturais da SPVS para o público, iniciando com a Reserva Natural Guaricica, representa mais um importante passo na consolidação dessas áreas inseridas na região da Grande Reserva Mata Atlântica”.

Ricardo Borges, um dos coordenadores da iniciativa, destaca que a abertura da Reserva Natural Guaricica também favorece o processo de melhoria crescente e constante que Antonina vem vivendo para se tornar uma referência como destino de turismo de natureza. “Recentemente, foi criada a região do Vale do Gigante, que é a área rural do município de Antonina, localizada aos pés do Pico Paraná, e que vem fortalecendo o turismo também na região rural, onde estão inseridas as Reservas. A abertura da Guaricica promete acelerar ainda mais esse crescimento estratégico”, pontua.

De acordo com Zé Paulo, prefeito de Antonina desde 2017, as expectativas para a abertura das Reservas são as melhores possíveis. “Como prefeitura, temos noção da tremenda importância das Reservas da SPVS para a arrecadação de ICMS Ecológico ao município”.

O ICMS Ecológico é o mecanismo tributário que possibilita aos municípios acesso a parcelas maiores que àquelas que já têm direito dos recursos financeiros arrecadados pelo Estado, em razão da conservação do meio ambiente. “O fato de Antonina ser patrimônio cultural nacional e estar situada dentro de uma reserva natural é um ativo que pode ajudar, e muito, em nosso desenvolvimento”, diz.

O prefeito também lembra que a população de Antonina consome água pura por conta da presença das reservas. “Já elaboramos uma Lei por meio da qual podemos incentivar a criação de reservas ou melhorar a nota das já existentes por meio de investimentos. Com isso, as Unidades de Conservação são melhores manejadas e o município arrecada ainda mais. Essa região pode virar a meca do turismo de natureza. Uma área de extremo interesse de pessoas que queiram conhecer uma ‘pequena Amazônia’ situada na região Sul do Brasil”.

Covid-19 e oportunidades de renascimento
Entre os desafios impostos pela pandemia causada pela covid-19, a necessidade de isolamento social foi um dos mais difíceis, já que estimulou o prejuízo à saúde mental da sociedade por diversos motivos. Agora, com o fluxo de vacinação avançando no Brasil – mesmo que em alguns estados e capitais a passos mais lentos – já começa a ser possível sonhar com uma alteração de rotina no médio e longo prazo.

“Difícil encontrar uma pessoa que possa dizer que sairá desta pandemia como entrou. A saída desse desafio pode representar uma espécie de renascimento para a sociedade. E foi também pensando nisso que a SPVS tomou a decisão de abrir a Reserva Natural Guaricica para visitação”, diz Clóvis Borges, diretor da instituição.
Para ele, essa experiência vai ser capaz de contar ao visitante uma história de superação e ressurgimento de uma área natural. “Assim como a floresta, esperamos que as pessoas também possam renascer quando, finalmente, saírem dessa experiência traumática causada pela covid-19 e pelas crises que sucederam o problema. Precisamos respirar natureza para entender a importância que ela ocupa em nossas vidas. Já não há mais tempo de não priorizarmos o cuidado e a proteção das áreas naturais”, conclui o diretor.

Natureza cura
Você sabia que pessoas que passam pelo menos 20 minutos por dia em contato com a natureza aproveitam mais saúde e bem-estar? Isso é o que indica um estudo recente feito por médicos canadenses. Segundo a pesquisa, passar algum tempo em uma floresta, por exemplo, diminui os níveis de hormônios do estresse, reduz o risco de infecções pulmonares e a inflamação em adultos com Doença Pulmonar Obstrutiva. Idosos que vivem perto de áreas naturais também vivem mais. Dados como esses estão disponíveis no site Park Prescriptions.

Outro estudo, este publicado no jornal científico Plos One, mostra que crianças que têm mais contato com a natureza são menos hiperativas, têm menos dificuldades comportamentais e emocionais e se relacionam melhor socialmente. A pesquisa foi feita em 2018 com 493 famílias com filhos entre dois e cinco anos. Elas responderam um questionário que avaliava também aspectos como qualidade do sono, níveis de atividade física, estresse e qualidade das habilidades intelectuais e criativas das crianças, por exemplo.